sábado, novembro 19

MIGUEL OMENA – UMA PEQUENA BIOGRAFIA

Por Etevaldo Amorim
Dr. Miguel Omena em 1911.
MIGUEL WENCESLAU DE OMENA FILHO, nasceu no dia 25 de junho de 1870[i], na cidade de Alagoas (hoje Marechal Deodoro). Era filho do professor Miguel Wenceslau de Omena e da professora Eugênia Maria de Omena. Ambos lecionaram nas cadeiras da Vila da Imperatriz (hoje União dos Palmares) até 1861, quando foram removidos para o povoado Taperaguá, em Alagoas (hoje Marechal Deodoro). Ela faleceu a 19 de agosto de 1916, na Rua de Santa Maria (atual Guedes Gondim), em Maceió.
Integrante de numerosa prole, tinha como irmãos: o padre João Edmundo de Omena, que faleceu em 1891 quando era vigário de São Lourenço da Mata, em Pernambuco; o também padre José Castilho de Omena, que foi o segundo vigário da Paróquia de Pão de Açúcar; Olympia, que faleceu em 1913; Pedro Venceslau de Omena, major-médico do Exército, falecido em 11 de fevereiro de 1920; Ana Amélia, casada com o Major Benigno Mello, que foi Administrador do Mercado Público de Maceió; Maria Pastora; Maria Emília, casada com o comerciante português Manuel da Silva Nogueira; Eugênia de Omena Filha; e Antônio Venceslau de Omena, advogado formado pela Faculdade do Recife, também morreu assassinado em Jaraguá, na noite de 13 de março de 1888, por Alfredo Torres, filho de Justino da Silva Torres, por motivos de ciúme.
Miguel Omena estudou no Colégio São Domingos, dirigido pelo Professor Domingos Moeda e ingressou na Faculdade de Direito do Recife em 1890, onde se formou em Ciências Jurídicas e Sociais. Voltando a Maceió, estabeleceu-se com escritório num sobrado sitiado na Rua do Comércio.
Foi diretor-redator da revista Jurisprudência, que se publicava semanalmente em Maceió, fundada em 5 de agosto de 1894, cujo editor era Luiz Griziano da Rocha Algarrão (tipógrafo falecido em 25 de novembro de1897).[ii] Foi Presidente, por duas vezes consecutivas, da Sociedade Dramática Cavalheiros da Época[iii] e Orador da Sociedade Philarmônica Minerva.[iv] Participou também de uma organização chamada Apostolado Republicano.
Revista Jurisprudência, dirigida por Miquel Omena.

Em 1905, candidatou-se a Deputado Federal por Alagoas, sem se filiar a nenhum Partido existente.
Conta o Diário da Tarde, de Curitiba, na edição de 1º de junho de 1906, que, na noite do dia 1º de maio daquele 1906, o Dr. Miguel Omena e mais dez companheiros passavam pela Rua do Comércio, em Maceió, na esquina dos quatro cantos, quando encontraram o Tenente coronel Salustiano Sarmento, Comandante do Batalhão de Política, acompanhado do 1º Comissário José Pedro de Farias Neto e outros Praças. O Comandante deu ordens para desarmar o grupo. Houve tiros, ao final atribuídos a Miguel Omena, sendo ferido na boca o Cel. Sarmento. Entretanto, segundo o jornal Correio de Alagoas, não foi o Dr. Omena o autor dos disparos. Afirma ainda que o próprio Sarmento teria dito ao Sr. Joaquim Alvin, pessoa conceituada na Capital alagoana, que não tinha sito o advogado o autor dos disparos.
Depois desse episódio, e segundo notícia do Gutenberg, em edição de 3 de junho de 1906, teria saído de Maceió escondendo-se no Engenho Peixe, em São Luiz do Quitunde. Por fim, sem condições de continuar em Alagoas, fugiu, disfarçado de soldado, de barba e costeleta, embarcando em Jaraguá num dos navios do Lloyd Brasileiro. Nessa viagem, fazia-se acompanhar de dois indivíduos que estiveram com ele no sinistro de 1º de maio. Outra versão apontada pelo mesmo jornal especula que ele teria ido ao porto de Jaraguá, às sete e meia da noite, cercado de amigos, e embarcado num vapor da companhia Freitas.
De uma forma ou de outra, chegaram ao Rio de Janeiro e, de lá, tomaram o vapor Guasca com destino ao porto de Paranaguá. Omena usava os falsos nome de Dr. Saldanha da Rocha e Manoel Olympio. No porto de Paranaguá, foi preso.
Telegrama divulgado pelo jornal A Notícia, de Curitiba, em 31 de maio de 1906, diz:
“O Guarda-Mor Pittaluga, com remeiros da alfândega, armados, foi a bordo do vapor Guasca prender o Dr. Omena por fatos políticos ocorridos em Alagoas. Não havendo contra o Dr. Omena ordem alguma de prisão, dizem ser este fato violento uma vingança pessoal, por ter sido Omena advogado contra Pittaluga em questão de família. ”
O mesmo jornal menciona o fato de não ter os Guardas-Mores funções policiais. A menos, diz ele, que o Dr. Omena portasse contrabando. O Sr. Pedro Francisconi Pittaluga não tinha, portanto, poderes para prender Omena.
O Dr. Minguel Omena, representado por seu advogado, Dr. Vieira de Alencar[v] (também alagoano e seu contemporâneo na Faculdade do Recife) impetrou habeas corpus para si e para seus dois acompanhantes, sendo concedida pelo Tribunal de Justiça em decisão unânime.[vi]
Em 14 de março de 1908, casa-se com a Srª Judith Vilella Bittencourt, filha do Coronel Vilella Bittencourt, com quem teve um filho, José Mário, falecido ainda criança, em 9 de junho de 1913; e uma filha, Dercilla, nascida em 20 de janeiro de 1909. Ela (Dercilla) se casou, no Rio de Janeiro, no dia 27 de setembro de 1933, com o advogado Alceu Coelho Vasconcelos[vii]. Tendo enviuvado, casa-se com Adelino Gonçalves, naturalizado, passando a chamar-se Dercilla Omena Gonçalves. Ficou viúva novamente em 1984.
Em Ponta Grossa, manteve um Colégio, o Colégio Central do Paraná, até 1910.
O Colégio Central do Paraná, dirigido por Miguel Omena.
Faleceu no dia 21 de agosto de 1911, em Ponta Grossa, Paraná. Foi assassinato em seu Escritório enquanto escrevia um novo artigo para o jornal O Progresso, de que era Redator-Chefe. A notícia foi passada pelo seu irmão, Dr. Pedro W. Omena que, como ele, residia no Paraná. Informações sobre o assassinato chegaram aos seus familiares através de telegrama enviado pelo sogro de Miguel Omena, Cel. Bittencourt, ao Cel. Pedro Vianna. Informa o dito telegrama que o assassino se chamava Augusto Muller, um alemão de 58 anos de idade. Empunhando uma garrucha, Augusto Muller adentrou o Escritório, e, “a menos de um metro, detonou o primeiro tiro em sua testa, derrubando-o, com a cadeira, no assoalho”, conta o Dr. Josué Corrêa Fernandes, em excelente artigo na revista Advogatus, da OAB/PR. “Enfu­recido, - continua o articulista, “o agressor ainda despejou o conteúdo do outro cano da rústica arma, acertando, de ras­pão, no ombro de Miguel, que jazia numa poça de sangue e de pedaços de miolos. Tristemente, o homem que vivia da pena tombara com ela nas mãos. E a matéria jornalística, que fazia o elogio da humildade e da concórdia, quebrou-se ao meio, interrompida pelas reticências de sangue que a ira e a ignorância gravaram. ”
O jornal A República, de Curitiba, em edição de 24 de agosto de 1911, noticiando que O Progresso saíra com tarja preta no dia seguinte ao seu assassinato, transcreve o artigo interrompido por Miguel Omena no momento em que é atingido pelas balas de seu agressor. O artigo tinha por título A VIRTUDE DA DIPLOMACIA e tratava do incidente entre o Barão do Rio Branco e o Dr. Gabriel Piza[viii]:
“Parece-nos de registramento histórico-filosófico o que se acaba de passar no alto cenário da diplomacia brasileira, entre os Srs. Gabriel Piza e Rio Branco, contempladas as duas fases que se sucederam na composição de um incidente que começou tão mal e impensadamente, por ofensas censuráveis, da parte daquele ex-Ministro plenipotenciário em Paris, e terminou, tão admiravelmente, pela bela resistência do seu caráter arrependido do erro, e pelo denodo de franca retratação, que mereceu de outra parte, o solene perdão do grande ofendido, o Sr. Rio Branco.
Foi uma nuvem enegrecida que desapareceu logo, deixando no mesmo brilho o valor de homens tais. Um pode errar, podendo arrepender-se; o outro pode ressentir-se sabendo perdoar.
É uma rigorosa lição esta, de amor social....”
Viúva, a Srª Judith casou-se, no Rio de Janeiro, com Horácio Francisco Coelho.[ix]
No dia 26 de agosto de 1911, num prédio da rua da Aurora, nº 81, no Recife, aconteceu uma Reunião de acadêmicos alagoanos, presidida por Luiz Figueiredo e secretariada por Bráulio Cavalcante, a fim de fazerem manifestações de pesar à imprensa e ao Estado de Alagoas pelo falecimento de Miguel Omena. Não imaginava, Bráulio, que ele próprio seria vítima de assassinato sete meses depois.
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REFERÊNCIAS:
ATHAIDES, Rafael. AS PAIXÕES PELO SIGMA: AFETIVIDADES POLÍTICAS E FASCISMOS. Universidade Federal do Paraná. Curitiba, 2012
FERNANDES, Josué Corrêa. AMORTE DO DR. OMENA. Revista ADVOGATUS, Ano V, nº 55, maio/junho de 2014.



[i] FOLHA DO ACRE, Cidade da Empresa-AC, 22 de novembro de 1911, p. 2.
[ii] REPÚBLICA, Florianópolis-SC, 30 de dezembro de 1894, p. 2.
[iii] MACEIÓ, Maceió-AL, 6 de dezembro de 1897, p. 2.
[iv] GUTENBERG, Maceió, 19 de dezembro de 1896, p. 2
[v] MANOEL VIEIRA BARRETO DE ALENCAR nasceu no dia 20 de fevereiro de 1873, em Mata Grande, estado de Alagoas. Seu pai, João Vieira Damasceno, era Coronel da Guarda Nacional na comarca de Paulo Affonso (Mata Grande). Sua mãe era Maria Francisca Agra de Alencar, conhecida por Cota Agra de Alencar, era tia de Euclydes Malta. Formou-se, em 1892, pela Faculdade de Direito do Recife. Faleceu em 2 de abril de 1909, em Paulo Affonso (Mata Grande). De longa carreira jurídica e política no Paraná, Vieira de Alencar ocupou cargos como os de Juiz, Deputado Estadual (na Primeira República) e Professor Catedrático da Universidade do Paraná. Seu perfil, no que tange ao quesito geracional, difere em relação aos demais líderes integralistas do estado e do país, que em geral nasceram na primeira década do século XX. Faleceu em 20 de janeiro de 1960.
[vi] A NOTÍCIA, Curitiba, 1º de junho de 1906, p. 2.
[vii] O DIA, Curitiba, 20 de setembro de 1933, p. 2.
[viii] Gabriel de Toledo Piza de Almeida (Porto Feliz: 1851-São Paulo: 1925).
[ix] O BRASIL, Rio de Janeiro, 10 de fevereiro de 1925, p. 5.

sexta-feira, novembro 4

SAMPAIO DÓRIA, UM ILUSTRE ALAGOANO DE BELO MONTE

Por Etevaldo Amorim

Dr. Sampaio Dória.
Com a deposição de Getúlio Vargas, na noite de 29 de outubro de 1945, pondo fim ao Estado Novo e a quinze anos de ditadura, assumiu o Governo o Dr. José Linhares, então Presidente do Supremo Tribunal Federal. Ele estava numa festa em família quando foi chamado ao Ministério da Guerra para uma conversa com o Ministro da Guerra, Gal. Pedro Aurélio de Gois Monteiro. Pela madrugada, já no dia 30, ficou sabendo que deveria assumir, interinamente, a Presidência da República, dado que a não havia um Vice-Presidente.
Na montagem do ministério, foi escolhido para a Pasta da Justiça e dos Negócios Interiores o renomado professor da Faculdade de Direito de São Paulo, o Dr. Antônio de Sampaio Dória. Coube-lhe desempenhar a brilhante tarefa de preparar a Nação para o pleito de que resultou a formação da Assembleia Nacional Constituinte e, ao mesmo tempo, a eleição, pelo voto popular, do Presidente da República. Ele foi o primeiro a ser empossado. Em seu discurso, procurando definir a conjuntura política, assim se expressou[i]:

Mas, em verdade, estou deslumbrado com os sucessos políticos desses últimos dias. Assistimos a um fenômeno singular na história das instituições políticas: deporem as forças armadas a um ditador, e não instituírem, em substituição, outra ditadura. No interregno entre a queda do poder ilegítimo e eleição popular, apelam as forças vitoriosas para a imparcialidade do Poder Judiciário. Não foi a cobiça do poder que as impulsionou; mas o sentimento de suas responsabilidades para com a Nação em cujo seio se formaram. Acima de tudo, colocaram o ideal da Pátria com instituições liberais, justiça efetiva e opinião pública organizada. Nessa atitude que acabam de ter, há um exemplo digno de memória: o desprendimento, a energia e o patriotismo, como nunca houve em revolução nenhuma do mundo, em lugar dos institutos de caudilhismo, que desgraçam os povos sem cultura política. A Nação, que nestes últimos meses as vem acompanhando, vibrante e apreensiva, tem motivos do mais justificado orgulho pela nobreza de que acabam de dar lição. Nelas repousam a segurança da ordem e da justiça, até a volta do país à legítimo”.

Ao final, em declaração aos jornalistas presentes, afirmou que não haveria delito de opinião e que o pensamento e a doutrina eram livres, acrescentando: “Ninguém será preso por ser comunista, ou ateu, ou adotar a corrente política que entender”

Especificamente quanto aos comunistas, fora o próprio Sampaio Dória que, pouco tempo antes, enquanto Ministro do Tribunal Superior Eleitoral, e em que pese algumas diligências, subscreveu Parecer favorável ao Registro Provisório do Partido Comunista do Brasil – PCB. Assim os comunistas puderam participar das eleições, elegendo um Senador, Luiz Carlos Prestes, e uma aguerrida bancada de Deputados Federais constituintes[ii], até terem seus mandados cassados, em 1948, como consequência da cassação do registro do Partido.

Palácio do Catete, 31 de outubro de 1945. Sampaio Dória discursa em sua posse no Ministério da Justiça e dos Negócios Interiores, perante o Presidente José Linhares e outras autoridades. Foto: Arquivo Nacional. 
O Ministro da Justiça comandou o processo eleitoral. Em 20 de novembro de 1945, expediu telegrama aos Governadores e Interventores Federais nos Estados instruindo-os para a obediência ao Decreto-Lei nº 8.188, de 20 de novembro de 1945. Segundo ele, os Prefeitos que até o mês anterior tivessem sido membro de diretórios partidários, deveriam ser afastados e, assumindo o expediente das Prefeituras o Juiz de Direito da Comarca. Foi assim que, em Pão de Açúcar, por exemplo, foi afastado o Prefeito Augusto Machado, em 22 de novembro de 1945, assumindo o comando do município o Dr. Olavo Acioli de Moraes Cahet Filho, Juiz de Direito da Comarca, até o dia 4 de dezembro do mesmo ano, quando retornou o titular.

26 de novembro de 1945. Sampaio Dória participa de reunião ministerial. Da esquerda para a direita: Antônio de Sampaio Dória (3º, de óculos); José Pires do Rio, Ministro da Fazenda (4º); Jorge Dodsworth Martins, Ministro da Marinha (5º); José Linhares, Presidente (6º); Conrobert Pereira da Costa, Ministro da Guerra (8º); Pedro Leão Veloso Neto, Ministro das Relações Exteriores (9º); e Armando Figueira Trompowski de almeida, Ministro da Aeronáutica (10º). Fonte: Arquivo Nacional.
Na véspera das eleições, Sampaio Dória recebe jornalistas para uma entrevista, entre estes Assis Chateaubriand, de terno branco, de perfil, à sua direita. Foto: Arquivo Nacional.
Dia 2 de dezembro de 1945. Dr.Sampaio Dória exercendo o direito do voto após quinze anos de ditadura. Foto: Arquivo Nacional.
22 de dezembro de 1945. O Dr. Sampaio Dória embarcando para São Paulo com membros de sua família. Foto: Arquivo Nacional.
Por problemas de saúde, deixou o cargo a 8 de janeiro de 1946, antes mesmo de chegar ao fim o governo interino do Presidente José Linhares. Ficou respondendo pelo expediente o Dr. Teodoro Camargo, titular da Agricultura.

Vale a pena conhecer um pouco da história desse ilustre alagoano.

O jovem Sampaio Dória. Fonte: O Imparcial.
ANTÔNIO DE SAMPAIO DÓRIA[iii] nasceu a 25 de março de 1883, em Belo Monte, Estado de Alagoas. Filho de Cândido Soares de Mello Dória, de origem sergipana, e de Cristina Leite Sampaio. No livro n. 1 de Batizados dessa Paróquia, a fls. 39-verso, consta o assento de seu batismo, feito pelo padre Antônio Soares de Mello, a 5 de agosto de 1888, sendo seus padrinhos Fortunato Francisco de Oliveira e d. Josefina Leite Sampaio. Em sua terra iniciou apenas os estudos, tendo como professor seu irmão mais velho, Pedro Soares de Sampaio Dória.

Em 1877, seu pai transferiu a residência de Lagoa Funda (atual Belo Monte) para Pão de Açúcar[iv], e em 1889, decidiu transferir-se com a família (mulher e onze filhos) para São Paulo. Lá continuou como vendedor ambulante, vendendo móveis e utensílios para casa, de cidade em cidade, até estabelecer-se em Santa Cruz do Rio Pardo, no Oeste do Estado. Dalí atingiu Jacarezinho, no Norte do Paraná, onde adquiriu fazenda de café.[v] Aliás, ainda em Alagoas, e por volta de 1875, atuava como Caixeiro Despachante, representando a empresa do italiano José Jacome Tasso.[vi] Aliás, a origem dos Dória é italiana, tendo constituído no Brasil ramos em São Vicente e na Bahia (que abrangia o território de Sergipe), mais precisamente na região de Propriá (daí os Costa Dória, Rodrigues Dória, Seixas Dória).

O jovem Antônio pode, então, completar o curso primário e prosseguir nos estudos secundários no Colégio Silvio de Almeida, prestando exames de preparatórios.

Em 1904, matriculou-se na Faculdade de Direito, diplomando-se Bacharel em Ciências Jurídicas e sociais, colando Grau em 10 de dezembro de 1908. Aliás, seu irmão Pedro, que fora seu primeiro professor, o precedera no curso de Direito, tendo sido fundador e primeiro Presidente do famoso Centro Acadêmico XI de Agosto, da Faculdade do Largo de São Francisco.

O Professor Antônio de Sampaio Dória
Foi professor, durante alguns anos, do Ginásio Macedo Soares, exercendo ainda o cargo de vice-diretor do Externato. Em 1914, após brilhante concurso, em que se classificou e m 1.° lugar, foi nomeado professor catedrático de Psicologia, Pedagogia e Educação Cívica, da Escola Normal Secundária da Capital.

Inscreveu-se, em 1919, no concurso para professor substituto da 2.a Secção, (Direito Público e Constitucional, Direito Internacional Público e Privado), desta Faculdade. Reuniu suas dissertações de concurso no volume Problemas de Direito Público. Aberto concurso para provimento do cargo de professor substituto da 5.a Secção.

Durante o curso jurídico, dedicou-se ao ensino no antigo Ginásio Macedo Soares, onde regeu a cadeira de Psicologia e Lógica e, na Escola de Comércio Álvares Penteado. Uma vez diplomado, por pouco tempo exerceu a advocacia, para dedicar-se ao jornalismo, ocupando o lugar de Redator-chefe de O Imparcial, do Rio de Janeiro. Voltando a São Paulo, concorre, em 1914, à cadeira de pedagogia da Escola Normal da Praça da República, que obteve após brilhantes provas.

Em 1920, sendo ainda professor da Escola Normal, por convide do Presidente do Estado de São Paulo, Washington Luiz, foi chamado à direção geral da Instrução Pública do Estado, tendo tido a oportunidade de realizar uma profunda reforma no aparelhamento escolar paulista. Sua administração foi assinalada com medidas de grande alcance prático, como o recenseamento escolar, pela primeira vez realizado no Brasil, a criação das delegacias regionais de ensino, a escola alfabetizante, a unificação das escolas normais, a sistematização da prática pedagógica, a organização da assistência escolar, além de outras.

Deixando o cargo na Instrução Pública, a 2 de maio de 1921, foi algum tempo depois convidado para superintender o Banco de São Paulo. Vagando-se, em 1925, a cadeira de Direito Constitucional da Faculdade de Direito de São Paulo, o Dr. Sampaio Dória a ela concorre, obtendo o primeiro lugar e sendo nomeado catedrático.
Homenagem de seus amigos ao Dr. Sampaio Dória por ocasião da sua nomeação para a Faculdade de Direito de São Paulo. Foto: Fon-Fon, 5 de fevereiro de 1927.
Sempre ligado aos ideais de ensino e à sua propagação, fez parte do primeiro Conselho Diretor do Liceu Franco-Brasileiro e presidiu o Liceu Nacional Rio Branco, de que é um dos fundadores. Dentre suas obras, vale destacar: Princípios da Pedagogia (1914); Ensaios (1915); O que o Cidadão deve Saber (1917); Problemas de Direito Público (1919); A Questão Social (1920); Questões do Ensino (1923); Como se Aprende a Língua (1922); Como se Ensina (1922); Psicologia – 2ª edição (1928, 1930); Princípios constitucionais (1926); O espírito das democracias (1925); e “Sobre a formação da linguagem”.

Aos 81 anos de idade, vítima de infarto, faleceu em São Paulo, a 26 de dezembro de 1964, sendo sepultado no mesmo dia, às 16;30 h, no cemitério de São Paulo. Compareceram diversas personalidades, entre elas o reitor da USP Prof. Luiz Antônio da Gama e Silva e o advogado João de Oliveira Filho.[vii]

Era casado com Estefan Carvalho de Sampaio Dória (conhecida por Fanny), com que teve os filhos Luiz Antônio de Sampaio Dória (casado com Jandira de Sampaio Dória), Maria Helena Dória Leme da Fonseca, casada com Antônio Leme da Fonseca; Maria Regina Dória Ribeiro, casada com Pedro Surreaux Ribeiro; e Omar de Sampaio Dória, casado com Lúcia Goulart.

Em 1968, atendendo o seu desejo, a família doou o acervo de sua biblioteca particular à Faculdade de Direito de Alagoas. Em sua terra natal, e em São Paulo, há escolas com o seu nome e, em Maceió, uma rua em Ponta Grossa.
Grupo Escolar Sampaio Dória em Belo Monte, 1965.

Belo Monte - 1869. Foto: Abílio Coutinho (disponível IMS).

Belo Monte, década de 1960. Fonte: IBGE.

Belo Monte, foto recente. Fonte: http://www.alagoasnumclick.com.br/municipios/belo-monte.



[i] Diário Carioca, 1º de novembro de 1945.
[ii] Carlos Marighela, Gregório Bezerra, Jorge Amado, João Amazonas, José Maria Crispim, Maurício Grabois, Joaquim Batista Neto, Milton Cayres de Brito, Agostinho Dias de Oliveira, Alcedo Coutinho, Claudino José da Silva, Alcides Sabença, Osvaldo Pacheco e Abílio Fernandes.
[iii] Antônio de Sampaio Dória, por Ernesto Leme.
[iv] Jornal do Penedo, 22 de junho de 1877.
[v] Museu da Pessoa, relato de Fábio Dória do Amaral, disponível em http://www.museudapessoa.net/pt/conteudo/historia/historia-de-vida-45489.
[vi] Jornal do Recife, 12 de maio de 1875.
[vii] Correio da Manhã, RJ, 29 de dezembro de 1964, p. 3.

sexta-feira, setembro 9

PADRE PINTO, ENTRE O PÚLPITO E O PALANQUE

Por Etevaldo Amorim
Padre José Soares Pinto
Sempre que posso, recorro aos arquivos da Paróquia de Pão de Açúcar, repositório de valiosos documentos da história daquela cidade sertaneja do São Francisco. Numa dessas visitas, entre uma pilha de livros de assento de nascimentos, casamentos e óbitos, lanço mão do Livro nº 05, que contém uma nota de significativa importância. Ali, o vigário de Belo Monte, que substituía o titular da paróquia, anotou o fato contristador:
“Aos dois de fevereiro de mil, novecentos e trinta e nove, no Rio de Janeiro, em Madureira, Freguesia de São Luiz de Gonzaga, na residência do Monsenhor Achilles Mello, vigário da Paróquia, faleceu piedosamente, confortado com todos os sacramentos que a Santa Igreja concede in articulo mortis, o Revmº Vigário desta Paróquia de Pão de Açúcar, o sempre saudoso Pe. José Soares Pinto, que, aos seus últimos momentos, ainda pronunciou palavras de saudades para sua cara Paróquia. Ao seu funeral compareceram muitas pessoas, inclusive alguns Sacerdotes que o acompanharam até o Cemitério de Jacarepaguá, onde está sepultado em túmulo, e mais uma vez foi encomendada a sua alma. E para constar mandei fazer este assento que assino. O vigário encarregado, Pe. Jasson Souto”
Falecia, longe de seus conterrâneos, o Padre José Soares Pinto. O Monsenhor Achilles Mello, vigário de Madureira, seu primo, que o acolheu no Rio de Janeiro para onde fora em busca de tratamento, faz publicar no jornal A Noite, edição daquele mesmo dia 2 de fevereiro, uma nota de falecimento, convidando os amigos para o seu sepultamento, às 16:00 horas, no cemitério de Jacarepaguá, saindo o cortejo da sua residência, à rua Cândido Benício, 698.
A morte o levou aos 55 anos, interrompendo uma trajetória de intensa atividade, tanto na prática religiosa como na atividade política. Difícil dizer em qual delas foi mais efetivo. Fiquemos, então, com esses breves traços sobre a vida dessa destacada personalidade pão-de-açucarense, que foi um dos mais destacados clérigos de Alagoas, estando à frente da Paróquia do Sagrado Coração de Jesus durante 29 anos.
Em artigo de publicado na Gazeta de Alagoas, edição de 21 de novembro de 1954, Adherbal de Arecippo o descreve como possuidor de boa dicção e voz potente, a qual, ajudada pela acústica do templo, dispensaria alto-falantes. Destaca ainda uma de suas grandes qualidades: a elevada atenção e piedade com que ele atendia aos moribundos que necessitavam e pediam a sua assistência espiritual nos últimos instantes da existência humana.
Era filho do Capitão José Soares Pinto e de Rosa Maria Dória; esta, filha de Bernardo Machado da Costa Dória e de Maria das Dores da Costa Dória.
Sendo sua mãe natural do povoado Mocambo, município de Porto da Folha, Estado de Sergipe, situado na margem oposta do rio São Francisco, e sendo comum naquele tempo as primíparas terem seus filhos sob os cuidados da mãe, nasceu a 8 de fevereiro de 1884 naquele pequeno lugarejo fronteiriço ao morro do Farias, acidente geográfico de Pão de Açúcar e referência natural dos que por ali navegavam.
Em 1902, ainda aos 18 anos, iniciou seus estudos no recém-criado Seminário de Alagoas, fundado pelo bispo D. Antônio Brandão, instalado a 15 de fevereiro daquele mesmo ano, funcionando provisoriamente na cidade de Alagoas (hoje Marechal Deodoro). O jornal penedense A Fé Cristã, em sua edição de 22 de novembro, noticia a presença, naquela cidade sanfranciscana, dos seminaristas daquela cidade que, oriundos do Seminário de Maceió, que para ali retornavam para passar férias, entre eles José Soares Pinto.[i]
No dia 10 de novembro de 1907, então com 23 anos, em Ato do bispo D. Antônio Brandão, o então Diácono recebeu o grau de Presbítero, juntamente com Júlio Albuquerque e Affonso Tojal.[ii]
Já ordenado, achava-se em Pão de Açúcar quando foi chamado para ocupar a Freguesia em Maceió, durante a ausência do Cônego Machado e de seu coadjutor[iii] e já em 20 de maio de 1909 tomou posse como vigário da Freguesia de Nossa Senhora Mãe do Povo, em Jaraguá.[iv] Foi nomeado vigário de Pão de Açúcar e 13 de outubro de 1910.
O Padre Soares Pinto com um grupo de teatro amador de Pão de Açúcar, em 1916. Fonte: Pão de Açúcar, história e efemérides, Aldemar de Mendonça.
Não tardaria, entretanto, que lhe aflorasse a vocação política. Tanto que, em 1917, adere à campanha do General Gabino Besouro, participando como sócio de um Centro Cívico em prol daquela candidatura. Com efeito, em excursão do candidato ao interior do Estado, este visitou Pão de Açúcar. Na ocasião, hospedou-se na casa do Cel. Perdiliano de Carvalho Mello, mas visitou o Padre Pinto, que lhe ofereceu um brinde de champanhe.[v] O Coronel Perdiliano, aliás, já presidia um Centro Cívico Pró-Gabino Besouro, que se compunha com os seguintes membros efetivos: Pedro Souto, Olegário Simas, e Theodoro Barbosa, além do Dr. Manoel Lyra como orador e Euclydes Souza como tesoureiro.
O Padre Pinto acompanha distribuição de víveres para os flagelados da enchente de 1919, em Pão de Açúcar.
Eleito Deputado, em 2 de abril de 1923, assiste à abertura dos trabalhos da Assembleia Estadual.[vi] No ano seguinte, juntamente com Euclides Malta, Eusébio de Andrade, Araújo Gois, Natalício Camboim, Alipio Minervino da Silva, os Coronéis João Lessa e José Malta de Sá, Antônio Florentino e Manoel Francelino dos Santos, assina manifesto de apoio às candidaturas do Dep. Federal Costa Rego e do Dr. Luiz Torres para Governador e Vice-Governador, respectivamente.[vii]
Em 1927, lança-se candidato ao Prefeito. A imprensa pernambucana repercute o fato com destaque:
 “Em Pão de Açúcar, o candidato apresentado por uma das correntes em que se bifurcou ali o Partido Democrata, encontrará o antagonismo de outra corrente, que lançará a candidatura do respectivo vigário da Freguesia, Padre José Soares Pinto, ex-Deputado Estadual.
Este último candidato é amparado pelos mais valiosos elementos daquela Unidade do Estado, e reúne todos os requisitos indispensáveis para merecer espontâneos e entusiásticos sufrágios populares.
Espírito moderado, cheio de abnegação e tolerância, o Padre José Soares Pinto granjeou a estima de todos os seus paroquianos, dispondo de ótimos recursos que lhe assegurarão completa vitória sobre o seu competidor.
Num pleito livre, como vai ser o de 7 de novembro, os pao-de-açucarenses absolutamente não abandonarão o seu respeitável cura, que até hoje nunca visou o seu proveito pessoal, tendo-se consagrado, com o maior fervor, ao bem da sociedade em cujo regaço nasceu e tem vivido.[viii]
Naquele Pleito, o Padre sagrou-se vencedor contra o Cel. Perdiliano por 189 a 136 votos.[ix]
Ainda hoje é lembrada essa campanha. Havia até uma musiquinha cantarolada pelos seus adversários. Algo assim:
            “Linda morena, eu quero ver,
Nessa eleição, Padre Pinto vai perder.
O Padre Pinto já mandou tocar o sino
No salão da Prefeitura, onde está seu Agripino...
Linda morena eu quero ver...”
Mas, Perdiliano não era o único adversário do Padre Pinto. O colunista João Domingos, do Jornal Pequeno, do Recife, falando acerca do ódio dos inimigos políticos ao político pernambucano Etelvino Lins, lembra o ódio de um político de Penedo, em relação ao Padre. Dizia esse adversário:
- Aquele sujeito é tão desgraçado que nem ao menos tem uma amante, como vários dos seus colegas, para a gente falar dele.
Da esquerda para a direita: Juca Feitosa, Manoel Rego, Vieira Damasceno, Luiz Menezes da Silva Tavares, o homenageado Dr. Paes Barreto, Padre Pinto, João Domingos, Álvaro Machado, Ermínio Veríssimo e Manoel Santana. Na sacada do sobrado está D. Maria Cândida, neta do Major João Machado, barão de Piaçabuçu.
O fato é que, como Prefeito, Soares Pinto foi bastante efetivo. Em 1929, contribui consideravelmente com o Governo Estadual, tendo à frende o Dr. Álvaro Corrêa Paes, na ampliação da malha viária, abrindo novas estradas, continuando os esforços iniciais dos governadores Fernandes Lima e Costa Rego. O primeiro, diz o Diário de Pernambuco em sua edição de 13 de outubro de 1929, “pôs em comunicação franca a metrópole do Estado com o extremo Norte, abrindo uma rodovia, que é geralmente louvada pelos serviços que presta a uma região de difícil acesso”.
A Costa Rego coube ligar Maceió ao Pilar e à Zona Sul de Alagoas. Por fim, veio o Dr. Álvaro Paes, que visou a região sertaneja. Mandou abrir a estrade de Atalaia a Palmeira dos Índios e conseguiu com que as prefeituras dos municípios adjacentes se comprometessem em fazer outras estradas de interesse local, propiciando, mediante autorização legislativa, a concessão de pequenos empréstimos. E prossegue o mesmo jornal: “Dessas estradas de interesse local se salientam pela perfeição de seu acabamento a que se dirige de Pão de Açúcar para Santana do Ipanema e a que vai desta para Palmeira dos Índios.”,  para depois concluir: “Os gabos que se fazem a essas rodovias são unânimes e recaem sobre os prefeitos que as fizeram: o Padre Soares Pinto, de Pão de Açúcar; e Graciliano Ramos, de Palmeira dos Indios.”
Cabe destacar, conforme Mensagem do Governador Álvaro Paes ao Congresso Legislativo, em 19 de novembro de 1929, que coube ao Prefeito de Santana do Ipanema, Sr. Ormindo Barros, a construção das referidas estradas nos trechos incluídos em seu território, isto é, da cidade até Olho D’Água das Flores e, por outro lado, da Sede até o limite com Palmeira dos Indios, totalizando aqui 14 km.
Em 1930, o Padre Pinto recebe o Governador Álvaro Paes, que em viagem de oito dias pelo interior do Estado inspecionando obras de estradas, participa de reunião para a criação do Banco Agrícola de Pão de Açúcar, com capital inicial de Cinquenta Cotos de Réis.[x]
O jornalista Garcia de Rezende, colunista do jornal carioca Diário de Notícias, que esteve em Alagoas com o fim de observar os resultados da Revolução de 30, relata uma viagem que fez em companhia do Padre Soares Pinto, de Penedo a Maceió. Em oito horas de viagem, num “fordinho” sujo e desengonçado, o padre, que segundo o jornalista, envergava uma batina enlameada e rota, trazia na face visíveis sinais de abatimento. Inquirido sobre as razões do seu desalento, esboçou um sorriso amargo e desabafou:
Acabo de viver dez dias no mato, acossado de perto pelo bando de Lampião. O facínora entrou com os seus cabras em Pão de Açúcar, levando os seus habitantes a viver horas amargas de provação. O senhor não pode imaginar o que significa, como espetáculo de degradação humana, a passagem do bando de Lampião por um povoado. É uma tragédia imensa. O país possui exército, polícia, aviões, metralhadoras, mas Lampião continua a infelicitar o Nordeste com o seu bando sinistro. Quanto mais o perseguem mais sanguinário e forte ele se torna, elevando-se à condição de Rei da horda do cangaço. Amanhã ou depois essa horda sinistra virá fazer o saque e a matança no litoral”.
Por Ato de 6 de setembro de 1934, o Interventor Federal, Sr. Osman Loureiro, exonera, a pedido, o Sr. Augusto de Freitas Machado e nomeia o Padre Pinto para o cargo de Prefeito.[xi]
Prefeito pela segunda vez, assim que toma posse, encaminha telegrama ao Interventor comunicando a composição do Partido Republicano Conservador em Pão de Açúcar: Presidente: Padre José Soares Pinto; Secretário: farmacêutico Antônio de Freitas Machado; membros: Manoel Pastor da Veiga, João Freias, Mário Soares Vieira, Manoel Rego, José Gonçalves Filho e Antônio Silva Pereira. (Diário de Pernambuco de 21 de setembro de 1934).
Em 8 de janeiro de 1935, conforme noticia o Jornal do Brasil, em edição do dia 16 daquele mês e ano, o mesmo Interventor o exonera para nomear Seraphim Soares Pinto.




[i] A Fé Crhistã, 11 de janeiro de 1902, p. 3.
[ii] GUTENBERG, 10 de novembro de 1907, p. 2.
[iii] GUTENBERG, 24 de janeiro de 1908.
[iv] GUTENBERG, 20 de maio de 1909.
[v] CORREIO DO POVO, 18 de novembro de 1917, p. 2.
[vi] DIÁRIO DE PERNAMBUCO, 17 de abril de 1923, p. 4.
[vii] DIÁRIO DE PERNAMBUCO, 9 de março de 1924, P. 5.
[viii] DIÁRIO DE PERNAMBUCO, 29 de setembro de 1927, p. 4.
[ix] DIÁRIO DE PERNAMBUCO, 17 de novembro de 1927, p. 5.
[x] O MUNICÍPIO, Seabra, BA, 2 de fevereiro de 1930, p. 2.
[xi] DIÁRIO DE PERNAMBUCO, 18 de setembro de 1934, p. 4.

domingo, setembro 4

HISTÓRIAS DO CANGAÇO EM PÃO DE AÇÚCAR (I)

Postado por Etevaldo Amorim

LAMPIÃO CONTINUA A ATEMORIZAR OS SERTÕES[i]

“Da última vez que Lampião esteve no município de Pão de Açúcar abandonou a estrada real, em seu regresso, e seguiu por uma vereda.
Caminhando, encontrou uma camponesa de nome Maria Gato e dois irmãos desta – Luiz e Francisco – os quais por ali se meteram para evitar um encontro com o grupo do bandoleiro.
Logo que Lampião avistou a senhorita Maria Gato, fez-lhe propostas julgadas menos honestas, que foram repelidas. Francisco aconselhou a irmã a se deixar matar com eles, antes de ceder o que o bando queria. Nesse comeno, Lampião ameaçou-a de disparar-lhe um tiro, dizendo a moça que podia fazê-lo, porquanto ela não tinha medo da morte.
Recuando de seus propósitos, Virgulino prometeu-lhe avultada quantia para que a moça aquiescesse aos seus desejos. Mas a sertaneja não quis.
O chefe dos bandoleiros declarou que desistia absolutamente do propósito de conquista Maria Gato, ou mesmo de subtrair-lhe a existência. Ouvindo isso, um do bando estranhou que aquela moça ficasse viva, quando Lampião já havia morto tantas moças brancas e bonitas, ao passo que aquela era mulata e feia.
Ao seu interlocutor respondeu Virgulino Ferreira, com um tom de absoluta firmeza, que aquela moça não morreria.
A conversa mudou de rumo e o facínora procurou sindicar dos rapazes quais eram as pessoas abastadas daqueles arredores.
Os dois camponeses, na melhor intenção e certos de que Virgulino não ousaria penetrar no perímetro urbano de Pão de Açúcar, informaram-no de que na rua (na cidade propriamente dita) havia muita gente rica.
Virgulino disse, então, que queria saber quais eram os ricos do interior. Responderam Luiz e Francisco que por ali reinava absoluta miséria, não havendo quem dispusesse de recursos. Mas o facínora perguntou se um tal de Janjão Maia não era rico, obtendo resposta negativa. Não convencido, Lampião forçou Luiz Gato a servir-lhe de guia até a propriedade do fazendeiro, sem conhecer que estava tratando com um campônio extremamente ladino e astuto.
Marchando, Luiz falou tanto que os cangaceiros lhe puseram a alcunha de “Canário”.
Este Canário, porém, conseguiu demonstrar que Janjão Maia não passava de um reles tirador de toneladas (lenha para o cotonifício de Penedo, vendida às toneladas) e que era apenas rico de filhos.
Preservando o fazendeiro da espoliação ou da desgraça iminente, Luiz Gato ainda atirou Lampião e o seu bando, que então se compunha de sete pessoas, ao risco de ser pegado, pois dizendo não conhecer veredas escuras por onde os levasse, intencionalmente os guiou pela estrada real, pelos lugares povoados.
Em um desses, denominado Quixaba, três léguas a montante de Pão de Açúcar, dormiram eles sossegadamente, sem serem incomodados pela numerosa tropa que ficava perto.
São assim os sertanejos, tão mal julgados por quem não lhes conhece a alma pura e bondosa.




[i] Extraído de A Nação, Fortaleza (CE), 16 de fevereiro de 1932, p. 8, dirigido por Júlio de Matos Ibiapina.

A POESIA DE PÃO DE AÇÚCAR



PÃO DE AÇÚCAR


Marcus Vinícius*


Meu mundo bom

De mandacarus

E Xique-xiques;

Minha distante carícia

Onde o São Francisco

Provoca sempre

Uma mensagem de saudade.


Jaciobá,

De Manoel Rego, a exponência;

De Bráulio Cavalcante, o mártir;

De Nezinho (o Cego), a música.


Jaciobá,

Da poesia romântica

De Vinícius Ligianus;

Da parnasiana de Bem Gum.


Jaciobá,

Das regências dos maestros

Abílio e Nozinho.


Pão de Açúcar,

Vejo o exagero do violão

De Adail Simas;

Vejo acordes tão belos

De Paulo Alves e Zequinha.

O cavaquinho harmonioso

De João de Santa,

Que beleza!

O pandeiro inquieto

De Zé Negão

Naquele rítmo de extasiar;

Saudade infinita

De Agobar Feitosa

(não é bom lembrar...)


Pão de Açúcar

Dos emigrantes

Roberto Alvim,

Eraldo Lacet,

Zé Amaral...

Verdadeiros jaciobenses.

E mais:

As peixadas de Evenus Luz,

Aquele que tem a “estrela”

Sem conhecê-la.


Pão de Açúcar

Dos que saíram:

Zaluar Santana,

Américo Castro,

Darras Nóia,

Manoel Passinha.


Pão de Açúcar

Dos que ficaram:

Luizinho Machado

(a educação personificada)

E João Lisboa

(do Cristo Redentor)

A grandiosa jóia.


Pão de Açúcar,

Meu mundo distante

De Cáctus

E águas santas.

______________

Marcus Vinícius Maciel Mendonça(Ícaro)

(*) Pão de Açúcar(AL), 14.02.1937

(+) Maceió (AL), 07.05.1976

Publicado no livro: Pão de Açúcar, cem anos de poesia.


*****


PÃO DE AÇÚCAR


Dorme, cidade branca, silenciosa e triste.

Dum balcão de janela eu velo o seu dormir.

Nas tuas ermas ruas somente o pó existe,

O pó que o vendaval deixou no chão cair.


Dorme, cidade branca, do céu a lua assiste

O teu profundo sono num divino sorrir.

Só de silêncio e sonhos o teu viver consiste,

Sob um manto de estrelas trêmulas a luzir.


Assim, amortecida, tú guardas teus mistérios.

Teus jardins se parecem com vastos cemitérios

Por onde as brisas passam em brando sussurrar.


Aqui e ali tu tens um alto campanário,

Que dá maior relevo ao pálido cenário

Do teu calmo dormir em noite de luar.

____

Ben Gum, pseudônimo de José Mendes

Guimarães - Zequinha Guimarães.






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Pão de Açúcar, Cem Anos de Poesia