segunda-feira, junho 25

O BAIXO SÃO FRANCISCO NA ROTA DA COMISSÃO GEOLÓGICA


Por Etevaldo Amorim
Muitos foram os cientistas e autoridades que se utilizaram do curso Baixo do rio São Francisco demandando a região sertaneja e, especialmente, a Cachoeira de Paulo Afonso. George Gardner, naturalista britânico, em 1838; Vieira de Carvalho e Halfeld, em 1854; o naturalista alemão Avé Lallemant e o Imperador D. Pedro II, em 1859; José Bento da Cunha Figueiredo Júnior, em 1869; e, em 1879, técnicos da Comissão Hidráulica também estudaram e descreveram aquela Região com impressionante riqueza de detalhes.
Alguns desses viajantes produziram belos registros fotográficos dessa Região. Abílio Coutinho, integrante da Comitiva de José Bento da Cunha Figueiredo Junior, Presidente da Província das Alagoas, em 1869, retratou muitas localidades e paisagens desde Penedo até Piranhas. Adolpho Lindemann, fotógrafo francês estabelecido em Penedo, também fez, em 1888, registros de diversas cidades ribeirinhas. Agora, com a publicação do Museu J. Paul Getty, está disponível uma coleção de fotos de um dos maiores fotógrafos brasileiros, contratado pela Comissão Geológica do Império do Brasil.
Charles Frederick Hartt-
auto-retrato
Essa Comissão era chefiada pelo canadense (naturalizado americano) Charles Frederick Hartt. Ele veio ao Brasil pela primeira vez em 1865 como geólogo da Comissão Thayer (sob o patrocínio de diversas corporações científicas americanas e principalmente por Nathaniel Thayer), comandada por Louis Agassiz. Em 1870, liderou a expedição Morgan, cujo nome era devido ao coronel Edwin B. Morgan, um dos diretores da Universidade de Cornell, que doou dois milhões de dólares para realizar pesquisas no vale do Amazonas.
Estava o Império sob o Governo do “Gabinete de 7 de março”, chefiado pelo Visconde do Rio Branco (José Maria da Silva Paranhos, pai do Barão do Rio Branco, de mesmo nome). O Ministro da Agricultura, Comércio e Obras Públicas, Dr. José Fernandes da Costa Pereira Júnior (Campos dos Goytacazes, 20/01/1833 — Rio de Janeiro, 10/12/1899), pensou em estabelecer no Brasil uma exploração regular e sistemática do seu vasto território. Assim, em Aviso[i] dirigido ao Dr. Charles Frederick Hartt, em 30 de abril de 1875, comunica os objetivos e o nomeia para Chefe da Comissão:
O governo imperial resolveu mandar proceder aos estudos preparatórios para o levantamento de uma carta geológica do Império. Esses estudos deverão habilitá-los a conhecer, dentro de alguns anos, a estrutura geológica do país, a sua paleontologia, a riqueza dos seus minerais e facilidade de explorá-los”.
Nesse mesmo expediente, o Ministro autoriza o Dr. Hartt a contratar os ajudantes de que necessitar, inclusive um fotógrafo para acompanhá-lo em suas excursões. Ele então, confirmando a notória sabedoria, convidou Marc Ferrez.
O próprio Hartt o confirma em documento referido por Edgard Roquette-Pinto, no Diário de Notícias (RJ), de 16 de julho de 1938, p. 15:
Em 1874, tive a honra de receber do Sua Excelência o Conselheiro José Fernandes da Costa Pereira um pedido oficial de fazer uma proposta relativa à exploração sistemática da Geologia do Império, e foi ao Rio de Janeiro, no fim do ano, submetido logo ao Governo Imperial um plano para esse fim. Não havendo verba suficiente, Sua Excelência o Ministro propôs que eu começasse em uma escala mais modesta do que a da minha proposta. E no dia 1º de maio de 1875, fui nomeado Chefe da Comissão, sendo nomeado ajudante o Engenheiro Elias S. Pacheco Jordão. Geólogos auxiliares os senhores Orville A. Derby e Richard Rathburn, e Praticante o Sr. Francisco José de Freitas. Tendo o Governo me dado o direito de contratar um fotógrafo, escolhi o Sr. Marc Ferrez, da Côrte.”
Com efeito, em Portaria do Ministério da Agricultura, de 30 de abril de 1875, foram nomeados os seus membros: Chefe: Carlos Frederico Hartt; Richard Rathbum; John Casper Branner; Orville A. Derby e dois engenheiros brasileiros, Francisco José de Freitas e Elias Fausto Pacheco Jordão (1849-1901), este último o primeiro brasileiro a estudar Engenharia Civil na Universidade de Cornell, onde se doutorou em 1874, no mesmo ano do doutoramento de Orville Derby[ii]. Dela faziam parte, ainda, Frank de Yeaux Carpenter (Engenheiro Civil, formado na U. de Cornell) e Herbert H. Smith e Luther Wagoner.
Marc Ferrez[iii], recém-chegado da Europa onde fora readquirir materiais e equipamentos para recuperar o seu atelier destruído por um incêndio, aceitou o convite, com o objetivo empreender estudos e trabalhos preparatórios para o levantamento da Carta Geológica do Império do Brasil. Partiu do Rio de Janeiro a 10 de junho de 1875, a bordo do paquete Pará, chegando ao Recife em 18 de julho.
Depois de minuciosos estudos na capital pernambucana e adjacências, especialmente dos arrecifes, a Comissão decidiu explorar a Cachoeira de Paulo Afonso. Com efeito, a 16 de setembro, partiram para Penedo no vapor nacional Ipojuca. Para tanto, o Presidente da Província de Pernambuco, João Pedro Carvalho de Morais, determina à Companhia Pernambucana que ofereça passagem para a Comissão até Penedo, oficiando à Presidência das Alagoas que lhe ofereça transporte até Piranhas. Do mesmo modo, ordenou ao Arsenal de Guerra que lhe fornecesse barracas, que seriam úteis aos seus membros nos acampamentos.
Possivelmente já em preparativos para a viagem, obteve uma bela vista da cidade, em que aparecem algumas igrejas e o seu porto.
Penedo, 1875. Foto: Marc Ferrez
Embora já houvesse linha regular de vapores, a viagem de Penedo a Piranhas foi feita de canoa. De fato, para a realização de suas pesquisas, era de todo conveniente que a Comissão pudesse dispor do seu próprio meio de transporte para cumprir o percurso , cerca de 30 léguas (180 km).
A embarcação utilizada foi uma rústica canoa de tolda, de tamanho médio, equipada com um “pano-de-asa”, como era popularmente conhecido. Esse tipo de pano não era mais que um par de velas latinas, presas a um único mastro.
Morro do Chaves, abaixo de Propriá, 1875. Foto Marc Ferrez
Impulsionada pelo vento forte que soprava do mar, a canoa da Comissão chegou ao Morro do Cal, que então já se tornara conhecido por “Morro do Chaves”, em alusão ao proprietário daquelas terras, o Tenente-Coronel João José de Medeiros Chaves, político e grande latifundiário de  Propriá (falecido nessa cidade,  a 29 de janeiro de 1890, aos 70 anos). Nesse local acha-se assentada a base sergipana da ponte sobre o rio São Francisco, ligando Propriá (SE) a Porto Real do Colégio (AL). Marc Ferrez registrou ali uma bela vista do morro, em cuja fotografia anotou: “Camadas do terreno cretáceo fortemente inclinadas no morro do Chaves, perto de Propriá no rio S. Francisco”.
Propriá (SE), 1875. Foto Marc Ferrez (montagem)
Porto Real do Colégio, 1875. Foto: Marc Ferrez
Vista de Traipu, 1875. Foto: Marc Ferrez
Antes de seguir viagem, Ferrez não deixou de capturar imagens da margem alagoana, anotando “O rio São Francisco visto rio acima do lado oposto a Propriá”, que corresponde a Porto Real do Colégio. Adiante, passando ao largo, fez uma tomada de Traipu, com seu imponente templo dedicado a Nossa Senhora do Ó.
Morro de Belo Monte, 1875. Foto: Marc Ferrez
Beirando a margem esquerda, algumas léguas acima, mais uma foto. Desta vez, da encosta do morro do Belo Monte, então chamado Lagoa Funda, em que se pode avistar os combros da Terra Firme, próximo à Restinga, bem próximo do Limoeiro, já em território de Pão de Açúcar.
Pão de Açúcar, AL, 1875. Ao fundo, o morro do Cavalete. Foto: Marc Ferrez.

Chegando a Pão de Açúcar, os membros da Comissão acamparam mesmo ali à beira do rio. Anotação na própria foto indica: "Vista do morro do Cavallete, Pão d'Assucar, no rio São Francisco, olhando-se rio acima". Nela aparecem oito pessoas, sendo três da Comissão: o Professor Hartt e os engenheiros brasileiros Francisco José de Freitas e Elias Fausto Pacheco Jordão. Nota-se ainda, junto à proa e abaixo da tolda, uma réplica em miniatura da própria canoa. Foi, talvez, a partir dessa foto que Ferrez teve a ideia de subir até o alto do Cavalete, de onde se tem vista privilegiada de todo o entorno, tanto rio abaixo, alcançando até o Limoeiro, além do morro do Farias; como rio acima, vislumbrando o morro do Belmonte, entre o Bonsucesso e a Ilha do Ferro, onde naufragaria, 42 anos depois, a lancha Moxotó.
Marc fez, primeiro, algumas tomadas da Serra de Pão de Açúcar, também conhecida por Serra do Meirus. Na sequência, uma bela foto da Vila, que se tornaria cidade dois anos depois; outra em que focaliza o leito do rio e, finalmente, uma outra em que se vê a margem direita, pertencente à então Província de Sergipe, vendo-se o Morro do Saco Grande. 
Pão de Açúcar vista do morro do Cavalete, 1875. Foto: Marc Ferrez
O rio São Francisco visto do morro do Cavalete. Foto: Marc Ferrez
Margem direita do rio S. Francisco vendo-se o morro do Saco Grande.
Foto: Marc Ferrez
Detalhe da Serra do Meirus, Pão de Açúcar, 1875. Foto: Marc Ferrez

Virando-se para o Poente, o perspicaz fotógrafo dirige a sua lente para o leito do São Francisco, tendo-se uma sucessão de morros de ambos os lados: Pau-Ferro, Mampirá, Algodão, estes na margem alagoana. Completando o restante do percurso, obteve ainda imagens do cânion e da própria Cachoeira. 
Vista do São Francisco a montante do morro do Cavalete. Foto: Marc Ferrez
Cânion do São Francisco pouco abaixo das cachoeiras. Foto: Marc Ferrez
Vista das principais cachoeiras em Paulo Affonso, 1875. Foto: Marc Ferrez

Segundo se lê na "Biografia do Professor Americano Carlos Frederick Hartt" - 1878, feita pelo estudante Carlos Alberto Menezes, "Ferrez tirou as mais belas fotografias que se conhece e que foram mais tarde premiadas na Exposição da Filadélfia."
Os membros da Comissão encerraram os trabalhos em 1º de junho de 1877, durando apenas dois anos. Hartt, no entanto, para salvar o material coletado, conseguiu seu funcionamento até dezembro daquele ano.

OS MEMBROS DA COMISSÃO

Marc Ferrez em 1870, com 27 anos
MARC FERREZ
Marc Ferrez nasceu no Rio de Janeiro a 7 de dezembro de 1843. Era filho de Zépherin Ferrez e Alexandrine Ferrez. Faleceu em 12 de janeiro de 1923. Segundo Gilberto Ferrez, foi durante essa viagem que Ferrez contraiu uma doença no fígado, da qual nunca se curou. Fonte: http://brasilianafotografica.bn.br/?p=6305.

ELIAS FAUSTO PACHECO JORDÃO
Elias Fausto Pacheco Jordão
O Dr. Elias Fausto Pacheco Jordão nasceu em São João do Rio Claro (SP) em 18 de fevereiro de 1849, filho de José Elias Pacheco Jordão e de Maria Marcolina. Seu pai foi deputado provincial em São Paulo.
Após o curso primário em Rio Claro, matriculou-se no Seminário Episcopal, na capital paulista, mas não se adaptou ao clima e mudou-se para Itu. Residiu um breve período no Rio de Janeiro e mais uma vez voltou para Itu, onde estabeleceu uma casa de comércio. Para completar os estudos superiores, viajou para os Estados Unidos e formou-se em engenharia civil na Universidade de Cornell, em 2 de julho de 1874. Fonte: CPDOC, Fundação Getúlio Vargas.

Orville Derby
ORVILLE ADELBERT DERBY
Orville Adelbert Derby Nasceu a 23 julho 1851 em Kelloggsville, Cayuga, New York. Filho de John C. Derby (1808-1890) e Malvina Adéia Lindsay (1818-1898). Chegou ao Brasil em 1870, integrando a Comissão Morgan, organizada pelo Presidente da Universidade de Cornwell, Ittaca, Estados Unidos.
Faleceu em 27 de novembro de 1915, cometendo suicídio em seus aposentos no Hotel dos Estrangeiros, no Rio de Janeiro. Naturalizado brasileiro pouco antes de morrer, era considerado o maior geólogo da América Latina. Fonte: A Rua, RJ, 27 de novembro de 1915, p.2
John Casper Branner
JOHN CASPER BRANNER
John Casper Branner nasceu em New Market, Tennessee, em 4 de julho de 1850. Formou-se em Cornell em 1882 e recebeu seu Ph.D na Universidade de Indiana em 1885. Era filho de Michael T. Branner e Alsey Baker. Em 22 de junho de 1883, casou-se com Suzan Dow Kennedy, com quem teve os fihos John Kennedy Branner, George Carper Branner e Elsie Branner.
Faleceu aos 72 anos, em Palo Alto, Califórnia (EUA)

Richard Rathbun
RICHARD RATHBURN
 Richard Rathburn ou Richard Rathbun (25/01/1852 – 16/07/1918)) nasceu em Buffalo, Nova York , filho de Charles Rathburn e sua esposa Marey (née Furey). Ele foi educado em Buffalo antes de se juntar à empresa de pedreiras de seu pai, Whitmore e Rathbun, por quatro anos. Em 6 de outubro de 1880, casou-se com Lena Augusta Hume, em Eastport, Maine.
Ele morreu em 16 de julho de 1918, de doença cardíaca resultante da febre amarela que sofrera 40 anos antes, [1] e foi sepultado no Cemitério Rock Creek . [2] Ele deixou sua esposa e seu único filho, o arquiteto Seward Hume Rathbun .

FRANK DE YEAUX CARPENTER. Nasceu Highland on Hudson, Estado de New York, Estados Unidos da América a 1º de setembro de 1848. Filho de Robert Carpenter e Júlia Carpenter.
Logo depois de formado, trabalhou na Comissão Geológica dos Estados Unidos. Em 1877, veio para o Brasil se incorporar à Comissão do Império, a convite de Hartt. Infelizmete, a Comissão já estava no fim. Mesmo assim, atuou como seu geógrafo e publicou livro a respeito da Comissão. Fonte: Revista Novo Mundo, New York, Vol. IX, Nº 99, 1879.
Em 1878, estando o seu professor Hartt à beira da morte, vítima da Febre Amarela, foi Carpenter que esteve com ele à sua cabeceira. Poucos dias depois foi ele, Carpenter, quem caiu doente. Conseguiu, porém, restabelecer-se. Retornando aos Estados Unidos, faleceu em sua terra natal a 19 de dezembro de 1883, com apenas 35 anos. Fonte: Revista de Engenharia, http://memoria.bn.br/DocReader/709743/1287.


HERBERT HUNTINGDON SMITH
 Herbert Huntingdon Smith ou Herbert Huntington Smith (Manlius, Nova York, 21 de janeiro de 1851 - Tuscaloosa, Alabama, 22 de março de 1919). Filho de Charles Smith e de Julia Maria Huntington.
Foi um naturalista americano e conchologista amador que trabalhou na flora e fauna do Brasil. Escreveu o Brasil, as Amazonas e a costa (C. Scribner's Sons, 1879) e Do Rio de Janeiro a Cuyabá: Notas de um naturalista (1922).
Ele primeiro foi ao Brasil em 1870 na expedição Morgan liderada por Charles Frederick Hartt. Ele voltou para ficar em Santarém de 1874 a 1876, e depois passou um ano explorando os rios Amazonas e Tapajós.
A morte de Smith foi trágica. Em sua caminhada para trabalhar no Museu de História Natural do Alabama, o naturalista surdo, que sofrera recentemente um surto de gripe, foi atropelado por um trem. O local no campus da Universidade do Alabama era conhecido por muitos anos como "Smith's Crossing".

JOHN LUHER WAGONER
John Luther Wagoner, geólogo, nasceu em Yadkin County, North Carolina, USA, a 16/02/1839 e faleceu a 2 de Janeiro de 1911. Foi sepultado no Macedonia Baptist Church Cemetery, Ronda, Wilkes County, North Carolina, USA. Filho de William Wagoner e Fanny Waggoner; Casou-se com Mary Jane Money Waggoner, com quem teve os filhos William Lee Waggoner. Chegou ao Brasil em 12 de maio de 1874, segundo Diário do Rio de Janeiro, 13 de maio de 1874, p. 3. Em 1876, substituiu Pacheco Jordão na Comissão. No ano seguinte era substituído por Frank Carpenter.

NOTA:
Caro leitor,
Este Blog, que tem como tema “HISTÓRIA E LITERATURA”, contém postagens com informações históricas resultantes de pesquisas, em geral com farta documentação e dotadas da competente referência bibliográfica. Por esta razão, solicitamos que, caso algumas delas seja do seu interesse para utilização em qualquer trabalho, que faça uso tirando o maior proveito possível, mas fazendo também o necessário registro de autoria e a citação das referências. Isso é correto e justo. Segue abaixo, como exemplo, a forma correta de referência:
AMORIM, Etevaldo Alves. O Baixo São Francisco na Rota da Comissão Geológica. Maceió, Junho de 2018. Disponível em: http://www.blogdoetevaldo.blogspot.com.br/. Acesso em: dia, mês e ano.





[i] A Nação, RJ, 14 de maio de 1875, p. 2.
[ii] Fonte: CPRM – Companhia de Pesquisas de Recursos Minerais (Serviço Geológico Brasileiro – Ministério das Minas e Energia).
[iii] Marc Ferrez nasceu no Rio de Janeiro, a 7 de dezembro de 1843, filho de Zépherin e Alexandrine Ferrez, e faleceu em 12 de janeiro de 1923

segunda-feira, março 12

O COMENDADOR CALAÇA E A IGREJA DO BONFIM

Por Etevaldo Amorim

O Comendador Calaça. Acervo de Mada-
lena Haber Calaça Pontes.
Nascido em Penedo-Alagoas, em novembro de 1811, “filho de pais honrados e dignos”[i], ficou órfão ainda muito jovem. Tendo que se dedicar ao trabalho para prover sua própria subsistência, recebeu apenas a instrução primária, com noções de gramática e aritmética, em sua terra natal. Dedicou-se ao comércio e à criação de gado, escolhendo para tanto mudar-se para os sertões de Água Branca, então pertencente ao município de Mata Grande.

Foi lá que o Imperador Pedro II o encontrou, em 1859, quando da sua viagem à Cachoeira de Paulo Afonso. Profundo conhecedor de toda aquela região, o Major Calaça lhe serviu de guia e o abrigou na Fazenda do Talhado, no percurso mais difícil da excursão. Desde Piranhas, último ponto navegável do Baixo São Francisco, onde deixara o vapor Pirajá, o Imperador e sua numerosa comitiva seguiram a cavalo e estiveram sob sua orientação segura e confiável.

O nome, na verdade um apelido, lhe teria sido dado ainda menino, por se parecer, no gênio trêfego, com um homem “Fulano de Tal Calaça”. Calaça significa “posta de carne”.

As informações acerca da flora e da fauna da região, fornecidas pelo Major, muito impressionaram Dom Pedro. E mais ainda o agradou a maneira simpática com que tratou a todos, a sua abnegação na tarefa de preparar tudo de modo a oferecer o máximo conforto possível naquelas circunstâncias. Sobre isso ele registraria em seu diário:

...o sr. Calaça apanha a água da chuva, e é bem boa a que nos dá para beber assim como tem uma casinha bem arranjada e limpinha para estas alturas, cujas paredes ele mesmo pintou, não tendo posto vidraças nas janelas por conselho econômico da mulher. Antes de vir há 3 anos habitar aqui, tinha casa de negócio na Água Branca. Mas tanta gente o procurava para arranchar-se em sua casa que, por bem entendida economia, não sei se houve conselho da Penelope, fugiu para aqui onde cuida do seu milho, arroz, feijão etc., da sua vaquinha e cabrinha, e enfim vive mais sossegado da bolsa, esperando eu poder agradecer-lhe o bom agasalho, d’um modo que há de ser grato a seu coração de bom pai de família; em todo caso, lembrar-se-á de que não lhe fui pesado somente.[ii]

Como parte da recompensa, Calaça seria agraciado, em 14 de março de 1860 (data de aniversário da Imperatriz Tereza Cristina), com o título honorífico de Oficial da Ordem da Rosa.[iii]
O Imperador D. Pedro II .


Àquela época, enquanto já tinha o seu filho mais velho, Manoel José Gomes Calaça Junior, nomeado Professor Público em Água Branca, sentia a dor cruciante pela perda de sua querida filha, fruto do seu primeiro casamento de que ficara viúvo muito cedo. A respeito dela, o jornal maceioense Orbe, na edição de 9 de fevereiro de 1898, revela um fato deveras triste e que muito fez sofrer aquele dedicado pai. Diz o jornal:

“...sendo casada durante anos, morreu donzela, assassinada vilãmente e traiçoeiramente pelo próprio marido, depois de haver-lhe devorado a fortuna que levara pela herança materna, não pequena para aqueles tempos”.

Ante a fraqueza das autoridades, o assassino conseguiu fugir e, assim, ficar impune a tamanha brutalidade.

Do seu segundo casamento, com a Srª Izabel Gomes de Sá, teve sete filhos, sendo quatro homens e três mulheres, tendo conseguido dar a todos esmerada educação. São eles: Manoel José Gomes Calaça Junior, professor público; Francisco José Gomes Calaça e Aristóteles Ambrosino Gomes Calaça, ambos Engenheiros; e Populo Gomes Calaça, padre. Uma das filhas era Delfina Senhorinha Gomes Calaça, que se casou com Valério Gomes da Silveira Novaes.

Desse encontro resultou grande amizade entre o Imperador e aquele prestimoso sertanejo, que perdurou por toda a vida. Tanto que, de regresso à Bahia, onde deixara a Imperatriz Tereza Cristina, e em visita ao famoso Ginásio Baiano, sob a direção do renomado professor Abílio César Borges (Barão de Macaúbas), ali encontrou o jovem Francisco Calaça, de cuja educação se encarregaria. Determinou, então, que o diretor do colégio o mandasse a Água Branca despedir-se da família antes de seguir para a Europa a fim de ingressar no curso de Engenharia Civil na tão celebrada Escola de Pontes e Calçadas, em Paris. Formado Engenheiro, em 1868 aos 25 anos de idade, logrando classificar-se em segundo lugar na sua Turma, o Dr. Francisco José Gomes Calaça retornou ao Brasil, onde ocupou importantes cargos nas obras do Governo Imperial.
Campus do IFAL, em Maceió, construído no local onde existia
a casa do Comendador Manoel José Gomes Calaça.


Logo que o filho fixou residência em Maceió, em 1877[iv], para ocupar o cargo de Fiscal da Alagoas Railway, o Major Calaça, entendendo já ter cumprido a sua missão, e também cansado da lida, vendeu tudo o que tinha em Água Branca, mesmo que por preço menor do que de fato custava, e se foi para a Capital, investindo os recursos auferidos em prédios para alugar. Instalou-se no arrabalde do Poço, numa chácara que, segundo Félix Lima Júnior em seu livro Maceió de outrora, tinha um casarão colonial com um belo renque de palmeiras imperiais, que ia do portão até a entrada da casa. Isso tudo foi demolido para a construção da Escola Industrial, depois Escola Técnica Federal, depois CEFET e atualmente denominado IFAL – Instituto Federal de Educação de Alagoas.

Para atender a uma antiga necessidade de sua nova comunidade, Calaça resolveu arcar com a construção da capela do Senhor do Bonfim, da qual havia apenas um projeto.

Com efeito, a construção foi iniciada a 31 de julho de 1882 (segundo o Orbe, de 6 de agosto de 1882, p.2), e, a 26 de janeiro de 1884, recebeu a bênção (Orbe, 20 de janeiro de 1884), passando a integrar a Paróquia de Nossa Senhora Mãe do Povo, de Jaraguá.
A capelinha do Senhor do Bonfim, construída pelo Comendador
Calaça.

Muito tempo depois, com o crescimento do bairro do Poço, a capelinha tornou-se pequena demais. Assim foi que o Rev.Pe. Hélio Lessa, que prestava assistência à comunidade, Bteve a ideia de ampliá‐la. Foi escolhido, então, o projeto do engenheiro‐arquiteto Joffre Saint’Yves Simon[v], com contrato firmado no ano de 1949 no valor de Cr$ 500.000,00 (Quinhentos Mil Cruzeiros). O novo templo[vi] era constituído por uma nave circular com 20 metros e 70 centímetros de diâmetro e uma parede concêntrica composta por 15 arcos, uma cúpula de 16 metros de diâmetro coroada por outra, toda envidraçada, com 4 metros de diâmetro, ostentando no topo o emblema da fé.

A altura total da cúpula, incluída a cruz era de 17 metros. Na fachada principal havia um amplo frontão, estilo grego, encobrindo o batistério, o pórtico e uma sala. Externamente, uma parede com arcos simulados, circundando a nave circular. O altar‐mor ficava em área situada por trás de um arco de grandes proporções e era iluminado por luz indireta (LIVRO DE TOMBO, s/d). Para ver a Igreja do Senhor do Bonfim atualmente, (clique aqui).


Tendo a sua mulher, Dona Izabel, falecido a 28 de abril de 1887, o velho Comendador, em que pese insistentes pedidos de seu filho para que fosse morar com ele, jamais quis deixar a sua antiga residência, apegado às boas lembranças de outros tempos, tendo apenas a companhia de uma velha criada. Entretanto, os temores do Dr. Calaça se justificaram quando, na noite de 27 de abril de 1897, o Sítio do Comendador foi invadido por um indivíduo, provavelmente com o intuito de roubá-lo. Alertados por seus gritos, os vizinhos acorreram para lá e o encontraram caído à porta do quarto, para onde se recolhera poucos minutos atrás. O criminoso tentou asfixiá-lo, não tendo conseguido. Estranhando que a empregada não o tenha alertado, foram à sua procura e deram com ela morta junto à porta do quintal, ao pé da escada.

Diz ainda o jornal Orbe, de 30 de abril de 1897, “Pessoas que vinham do Norte, perto de 9 horas, encontraram na altura de Cruz das Almas, um indivíduo a cavalo, correndo desesperadamente.” Seria o criminoso que fugia?!

Depois desse fato, o Comendador mudou-se para a casa do filho Engº Francisco Calaça, onde veio a falecer no dia 8 de fevereiro de 1898. Seu corpo foi sepultado na mesma capelinha de que foi construtor e benfeitor.

“Bom e expansivo, prestimoso e dedicado, a memória do honrado velho perdurará durante muito tempo no seio da sociedade alagoana, onde deixa gravado sobre o mármore o seu nome honrado e digno”.



[i] ORBE, Maceió, Al, 9 de fevereiro de 1898.
[ii] Anuário do Museu Imperial, Petrópolis, 194, p. 129/130. Ao citar Penpelope, o Imperador certamente se referia à rainha mulher de Ulisses, na mitologia grega.
[iii] Correio Mercantil, RJ, 14 de março de 1860.
[iv] Diário de Pernambuco, 17 de julho de 1920, p. 2.
[v] Natural do Acre, filho de Carlos Alberto Simon e de Rosalie Lanneretone Simon.
[vi] IX Congresso Norte-Nordeste de Pesquisa e Inovação. Instituto Federal de Educação do Maranhão. São Luis, 2014.

sábado, fevereiro 10

OS CARNAVAIS DE PÃO DE AÇÚCAR


       Álvaro Antônio Machado*
Adolescente, eu fazia, no final da década de 1960, a descoberta das belezas das festas da minha Pão de Açúcar e me encantava, particularmente, com os “carnavais” da minha terra. Isso mesmo, “carnavais”, porque no mesmo ano eram duas festas carnavalescas: uma denominada como tal, que acontecia no mesmo momento em todo o País; e outra chamada “micareme”, esta sim, uma entusiasmada festa carnavalesca que, pela animação e pela participação, parecia acontecer só em Pão de Açúcar ou, no mínimo, fazia da “terra de Jaciobá” a capital dessa folia fora de época.
O que me intrigava na micareme era sua proximidade com o carnaval propriamente dito. Quarenta dias depois das brincadeiras, dos batuques e da bebedeira da primeira festa, e a cidade já caía de novo na folia. Sim, porque a micareme começava logo após “romper a aleluia”, às vésperas do Domingo da Ressurreição, e se estendia até a madrugada da quarta-feira seguinte. Com uma agitação, um contentamento, uma presença popular que parecia fazer do carnaval uma mera preparação para a micareme.
É fato, também, que no carnaval havia algo que me indispunha e era motivo de mil recomendações de cuidados pelos meus pais: o entrudo, a brincadeira que dominava a manhã do domingo. Ela se caracterizava por grupos que circulavam pela cidade em busca de jovens ou adultos desavisados ou desprevenidos, para arrastá-los, sobre os ombros e em meio a enorme algazarra, para um banho forçado nas águas do “velho Chico”, jogados n’água da forma como estavam vestidos. 
Afora o entrudo, o carnaval era singelo enquanto a micareme se sobressaía como o grande festejo carnavalesco. Somente muito tempo depois encontrei uma explicação lógica para o estrondoso sucesso da micareme em Pão de Açúcar, que atraía visitantes e foliões de toda a redondeza. É que Pão de Açúcar, tal quais as cidades ribeirinhas do São Francisco, sempre manteve uma tradição de parir músicos de qualidade que, também no carnaval, faziam sucesso dentro e fora do município com suas bandas. Assim, elas eram muito disputadas no período do carnaval para abrilhantar a festança em outras cidades. Dessa forma, a rapaziada de “Seu” Nozinho, Brandão, Bubu, Irmãos Ramos e vários outros, cada qual no seu tempo, geralmente saía de Pão de Açúcar para tocar em outros lugares no carnaval e durante a micareme tocava em casa, abrilhantando a grande folia da terrinha.

Aos poucos, porém, essa tradição perdeu-se no tempo e restou apenas o carnaval propriamente dito, comemorado em Pão de Açúcar com bem menos destaque que antes da importação das bandas de axé e da substituição do frevo e das marchinhas por ritmos modernos descaracterizados.
Outrora era encantador chegar a época carnavalesca e naquela cidade interiorana tão longínqua, como num passe de mágica, surgirem os blocos que me embeveceram a infância e marcaram minha adolescência: Los Panchos, Bola Preta – precursor do Bola Branca e do Bola Vermelha, Os Cangaceiros, Boi Fubá, Os Bárbaros, A Boneca, As Lavandeiras, O Barracão, Dois Unidos, a Chaleirinha de Meirus; e as “escolas de samba” Sambistas de Urumarys e CIT (“Companhia Inimiga do Trabalho”). A ‘Sambistas de Urumarys’, em que eu figurava, literalmente, balançando o ganzá, trazia no nome uma homenagem aos primeiros habitantes da terra, os índios urumarys, de afinada sensibilidade poética e que deram o primeiro nome ao lugar: Jaciobá, que em tupi-guarani significa ‘espelho da lua’.
Grupo de foliões, tendo a frente Zé Negão (pandeiro) e João de
Santa (banjo)

As brincadeiras de rua, com direito a desfile na principal avenida da cidade, a Bráulio Cavalcante, onde o Rei Momo a tudo observava do seu palanque imperial, começavam ao cair da tarde e se estendiam até perto das onze horas da noite. Nesse período, enquanto uma banda tocava no centro da avenida fazendo a grande festa popular, uma tradição era mantida: a ‘visita’ dos blocos a residências previamente avisadas, onde os proprietários recebiam os foliões com bebidas e tira-gostos, uma forma divertida e inteligente de beber e comer sem pagar, melhor que isso, retribuindo a gentileza com a animação carregada pelas marchinhas e frevos cantados pelos blocos.
O Sr. Roberto Alvim no carnaval de 1968.

A cada ano os blocos exibiam fantasias distintas, mas sem perder a originalidade que caracterizava cada um deles, como os chapéus mexicanos de “Los Panchos”. Dentre todos os blocos e dentre todos os foliões, um indivíduo sempre se destacava: Roberto Alvim. De longe, para mim, o mais fidedigno folião da minha terra e da minha época. Ele parecia viver ‘esperando o carnaval chegar’. E quando chegava, carnaval ou micareme, “seu” Roberto encarnava o autêntico folião: galhofeiro, dançarino, divertido, detentor de contagiante alegria e exibindo-se sempre fantasiado com seu martelinho de plástico brandindo nas mãos e nas cabeças dos amigos.   
Grupo de foliões, tendo a frente Zé Negão (pandeiro) e João de
Santa (banjo)

Terminada a maratona de visitas, e já com os integrantes devidamente ‘calibrados’ pelas distintas bebidas ofertadas, era o momento de grande parte dos foliões (ou, pelo menos, os que ainda se punham de pé) brincar o carnaval no Iate Clube Pão de Açúcar, onde uma banda animava as quatro noites de folia.
E os dias de folia voavam, como sói acontecer nos momentos felizes de nossas vidas. O alvorecer da “quarta-feira ingrata” levava a banda que animava o carnaval do Iate Clube a sair tocando além dos muros da agremiação, puxando o último cordão de foliões pela “Rua da Frente”, como se tentassem evitar o acorde final de ‘Vassourinhas’. A despedida era coroada com os foliões menos alquebrados mergulhando nas águas do ‘velho Chico’, como se procurassem uma purificação para voltar à lida do cotidiano e esperar, ansiosos, o futuro carnaval ou a próxima micareme...

Bloco Los Panchos
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Álvaro Antônio Melo Machado, médico formado pela Universidade Federal de Alagoas; Sócio-efetivo do Instituto Histórico e Geográfico de Alagoas; membro da Academia Alagoana de Medicina e da Academia de Letras de Pão de Açúcar.

domingo, janeiro 21

ESCOLA DO PROFESSOR HAROLDO SALATIEL CANUTO

DO ALTO PARA BAIXO:
Primeira fila: 1. José Marques de Albuquerque; 2. Hélio Pastor Cruz (padre); 3. Erichson Ávila Almeida (Lito); 4. José Ramos de Souza (músico); 5. Luiz Machado Tavares (Eng. Civil); 6. Otávio Tavares Vieira (Eng. Agrônomo); 7. Virgílio Fonseca Filho (ex-combatente-1945); 8. Érico de Freitas Machado (Eng. Agrônomo); 9. Heitor Ávila Almeida; 10. Dermeval de Campos Lisboa; 11. Não identificado.
Segunda fila: 12. Danúbio Ferreira (barbeiro); 13. José Barbosa de Medeiros; 14. José de Freitas Lima (Oficial aviador reformado); 15. Antônio Maia Lima; 16. Antônio da Silva Maia Filho; 17. Ariston Rego Pinto; 18. Humberto Melo Barbosa; 19. José de Góis Cavalcante; 20. Salvador Mendes Guimarães (herói da 2ª Guerra Mundial).
Terceira fila: 21. Francisco Pastor Cruz; 22. Olavo de Freitas Machado (Eng. Agrônomo); 23. Francisco (filho de Pedro Merêncio); 24. Maria Vieira dos Anjos (filha de Inocêncio Vieira e d Otília dos Anjos); 25. Maria (sobrinha do Prof. Haroldo S. Canuto); 26. Evalda Vieira de Carvalho; 27. Angelita Oliveira; 28. Ivete Gonzaga; 29. Arício Rego Pinto; 30. Gessé de Góis Cavalcante.
Quarta fila: 31. Pedro Soares Vieira (filho de Inocêncio Vieira e d. Otília dos Anjos); 32. Heráclito Ávila Almeida; 33. Jugurta Gonçalves Lima; 34. Gervásio Francisco dos Santos (autor do livro Um Lugar no Passado); 35. Prof. Haroldo Salatiel Canuto (tabelião em Traipu); 36. José Pastor Cruz; 37. Massilon Gonçalves de Andrade; 38. Abel Machado Tavares (Eng. Civil); 39. Petronilo Nery da Fonseca.
A foto acima mostra uma geração de pão-de-açucarenses, na década de 1930, alunos da Escola do Professor Haroldo Salatiel Canuto, que se tornaria depois Tabelião em Traipu.

domingo, dezembro 3

MADRIGALENTE

Franco Jatubá[i]
Que não diriam todas as maldosas
flores, a rir, nas ramas viridentes,
se eu te beijasse a boca? Maldizentes,
talvez dissessem proibidas cousas...

Muito daria que dizer às rosas
e aos lírios, faladores, insolentes...
De nossas duas almas inocentes
fariam duas almas criminosas!

Deixa primeiro que o Sol morra. Apenas
a noite chegue, tatalando as penas
cheias d’orvalho e de melancolia,

nos beijaremos tanto, que dos ninhos
irão fugindo os doidos passarinhos,
cuidando ouvir a música do dia!

Alagoas, 1899.










[i] Pseudônimo de Francisco Remígio de Araujo Jatobá. Algumas referências o tratam como Francisco Remígio de Albuquerque Jatobá, adotando o sobrenome da mãe.
Nasceu em Murici – AL, a 20/01/1872, segundo o ABC DAS ALAGOAS. Entretanto, o jornal Gutenberg, de 2 de abril de 1907, noticiando a sua morte, diz que ele nasceu em Maceió.
Faleceu em Maceió - AL a 31/03/1907.
Poeta, jornalista, funcionário público.  Era filho de José Inácio de Araújo Jatobá (que foi administrador da Cadeia de Maceió) e da “modista” Bárbara Cordeiro de Albuquerque Jatobá. Era tio do também poeta Cypriano Jucá (filho da sua irmã Maria Grabriela e de Romualdo da Silva Jucá).
Iniciou seus estudos em Maceió, mas não chegou a completar os preparatórios. Funcionário da Alfândega de Maceió (1890), escriturário do Tesouro Federal, no Rio de Janeiro, nomeado em 1895 e demitido em 1903. Seus artigos foram reunidos em um volume, após sua morte.
Patrono da cadeira 28 da Academia Alagoana de Letras. No jornalismo, combateu a denominada Oligarquia Maltina.
Obra: O Brasil e o Insulto Argentino, Maceió, Imprensa Oficial/ Liv. Fonseca, 1907, sob o pseudônimo de Sargento Albuquerque (edição confiscada por ordem do Ministro das Relações Exteriores). Segundo Romeu de Avelar, que o incluiu na sua Coletânea de Poetas Alagoanos, o Barão do Rio Branco teria interferido junto ao editor para sustar a publicação.  É ainda de Romeu de Avelar a informação de que teria deixado inúmeros poemas inéditos e uma coletânea de contos orientais. Fundador e redator, em 1892, de O Labor (hebdomadário literário, instrutivo e recreativo dedicado à mocidade alagoana.) e do Correio de Maceió, e colaborador de O Gutenberge do Correio de Alagoas. Jucá Santos afirma que deixou inédito o livro de poesia Vale de Lagrimas, o poemeto O Sapo, o livro Beduínos (contos orientais), Judéia (contos bíblicos) e o drama Ódio de Família, de um prólogo e quatro atos, todos na guarda de sua irmã, os quais foram destruídos após a morte desta.

Fonte principal: ABC DAS ALAGOAS. BARROS, Francisco Reinaldo Amorim de.

domingo, novembro 19

POSSIDÔNIO CALAÇA, POETA AGUABRANQUENSE

Possidônio Calaça_foto_O Operário_Montes
Claros 31.01.1933.

Por Etevaldo Amorim


POSSIDÔNIO JOSÉ CALAÇA DO ESPÍRITO SANTO nasceu em Água Branca, Estado de Alagoas, a 17 de maio de 1877. Era filho do Capitão Januário Gomes do Espírito Santo e de D. Antônia Gomes Calaça[i]. Seus avós paternos eram Manoel José Gomes do Espírito Santo e Josepha Gomes de Sá; e, maternos, o Professor Manoel José Gomes Calaça Junior e Maria Alves Calaça.

Tinha como irmãos: Viridiana Calaça do Espírito Santo; Maria Calaça de Figueiredo, esposa do Cel. José Amâncio de Figueiredo; Antônio Calaça e José Calaça do Espírito Santo, este último cirurgião-dentista radicado em Januária.
Bacharelou-se em Ciências e Letras no Ginásio de Maceió.  Já em 1894, prestava os Exames de Preparatórios no Ginásio Nacional e na Escola Politécnica, no Rio de Janeiro, chegando a cursar o primeiro Ano da Faculdade de Medicina e, concomitantemente, o primeiro ano da Escola Politécnica.
Em 1897, passou a residir em Januária, Minas Gerais com a família, onde seu pai foi Coletor de Rendas. Ali, foi professor na Escola Normal Livre e exerceu também o jornalismo, tendo sido Gerente do Jornal A LUZ, que circulou naquela cidade mineira por volta de 1903; e foi Presidente do Diretório do Grêmio Literário Januarense.
Passou um tempo em Belo Horizonte como funcionário dos Correios e professor particular, como também o foi em Pirapora, por volta de 1916.
Como tantos outros poetas e boêmios daquele tempo, Possidônio morreu cedo, aos 55 anos, em Januária, Minas Gerais, a 20 de janeiro de 1932.
O Dr. Edmar Magalhães[ii], Promotor Público januarense que, quando criança, conheceu o poeta no ocaso da vida, o descreve como “todo curvo, resguardado com panos ao pescoço, colete, paletó de pachá preto, calças listradas e estreitas caindo sobre pés grossos, inchados, calçados com mais de uma meia, e de chinelo de trança de calcanhar alto.” E prossegue, reproduzindo a visão que tivera na venda do Sr. Alfredo Carneiro, “Trazia um chapéu largo à cabeça, e os seus bolsos eram volumosos, deixando aparecer a ponta de um lenço grande, cheio de quadrados vermelhos...
Já Antônio Vieira Barbosa, na Gazeta de Paraopebas (25/02/1940) reflete sobre suas lembranças de Possidônio, num encontro, em 1921, em casa comercia do professor Benedito Casqueiro. “Boêmio inveterado, desperdiçou em libações e noitadas com perda de sono os melhores anos da vida, quando, em plena madureza intelectual, pudera produzir com regularidade, dando-nos, ainda, as mais estremes cintilações do seu estro magnífico.”
                Possidônio, desprendido e desregrado, sem qualquer compromisso com o equilíbrio financeiro de sua vida, morreu pobre. Tanto que, tendo recebido, por herança, a vultosa quantia de Dez Contos de Réis, sem qualquer plano de investimento,  abandonou o quarto de solteirão que ocupava em casa de um parente e mudou-se para o melhor hotel da cidade. Quando o dinheiro acabou, e com a maior naturalidade, retornou à antiga moradia.

Eis alguns dos seus poemas:

SE EU AMO!! ..

Perguntaram-me um dia se eu amava,
Esperando a resposta com ardor...
E neste mesmo tempo eu meditava:
-Há quem possa existir sem ter amor?

Não amar, nesta vida, é impossível;
Impossível os passos dirigir...
Não pode homem nenhum, mesmo insensível,
Nem há de a natureza permitir.

Viver sem amor?! Ah! Nem sonhando;
Motivo para o amor não vai faltar


A SUBLIME EPOPÉIA

Em êxtase, desfolho o livro do infinito,
Em face ao mundo, ao tempo... e a tudo que extasia.
Reina em tudo o que vejo esplêndida magia
E imerso no cismar, atônito, me agito!

Contemplo a natureza, e a contemplar medito,
Por ver na criação mirífica harmonia!
Parece-me que Deus em tudo se anuncia,
Que tudo em Deus aclama altíssimo e bendito1

Do meu compreender, estreito ou limitado,
Eu busco perscrutar na atônita estreiteza,
Este grande universo, imenso, mal sondado....

Então, do peito meu, por ver tanta grandeza,
Parte, de íntima voz, do fundo d’alma o brado
Que diz: - Poeta é Deus – poema a natureza”

Mariana, 1906.

Publicado em O Malho, Ano V, nº 210,  Rio de Janeiro, 22 de setembro de 1906, p. 28.
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MEU BERÇO

Sou filho de Alagoas. Água Branca
é meu berço natal, a vilazinha,
                a terra em que nasci.
O horizonte, a meus olhos tira, arranca
o céu do berço meu, da pátria minha,
                Onde infante vivi.
Daqui não vejo o céu de minha terra,
essas matas virentes, o meu vale,
                O meu nativo lar.
O belo céu azul que a Pátria encerra,
Mas, que em mim a saudade sempre fale,
                Fazendo-me lembrar.
Sou filho de Alagoas, bela plaga,
Que São Francisco beija quanto passa
                No leito colossal,
O mesmo S. Francisco que hoje alaga
As terras que em limites ultrapassa
                No solo marginal.
É tão belo o torrão alagoano!
Que formosas manhãs! Um céu sorrindo
                Nos róseos arrebóis!
Inda mais... Deodoro e Floriano
Dizem, na voz da história ressurgindo:
                “És um berço de heróis!”

Publicada em Antologia Remissiva, de Prof. Napoleão Mendes de Almeida. Editora Annablume, São Paulo, 2003.





[i] Em registro de nascimento de uma filha natimorta Erotides Calaça do Espírito Santo, em 3 de maio de 1889 diz que o pai é o Capitão Januário Gomes do Espírito Santo (natural de Tacaratú-PE) e a mãe era Edeltrudes Calaça do Espírito Santo.
[ii] Vida Doméstica, RJ, novembro de 1944, p. 125.

A POESIA DE PÃO DE AÇÚCAR



PÃO DE AÇÚCAR


Marcus Vinícius*


Meu mundo bom

De mandacarus

E Xique-xiques;

Minha distante carícia

Onde o São Francisco

Provoca sempre

Uma mensagem de saudade.


Jaciobá,

De Manoel Rego, a exponência;

De Bráulio Cavalcante, o mártir;

De Nezinho (o Cego), a música.


Jaciobá,

Da poesia romântica

De Vinícius Ligianus;

Da parnasiana de Bem Gum.


Jaciobá,

Das regências dos maestros

Abílio e Nozinho.


Pão de Açúcar,

Vejo o exagero do violão

De Adail Simas;

Vejo acordes tão belos

De Paulo Alves e Zequinha.

O cavaquinho harmonioso

De João de Santa,

Que beleza!

O pandeiro inquieto

De Zé Negão

Naquele rítmo de extasiar;

Saudade infinita

De Agobar Feitosa

(não é bom lembrar...)


Pão de Açúcar

Dos emigrantes

Roberto Alvim,

Eraldo Lacet,

Zé Amaral...

Verdadeiros jaciobenses.

E mais:

As peixadas de Evenus Luz,

Aquele que tem a “estrela”

Sem conhecê-la.


Pão de Açúcar

Dos que saíram:

Zaluar Santana,

Américo Castro,

Darras Nóia,

Manoel Passinha.


Pão de Açúcar

Dos que ficaram:

Luizinho Machado

(a educação personificada)

E João Lisboa

(do Cristo Redentor)

A grandiosa jóia.


Pão de Açúcar,

Meu mundo distante

De Cáctus

E águas santas.

______________

Marcus Vinícius Maciel Mendonça(Ícaro)

(*) Pão de Açúcar(AL), 14.02.1937

(+) Maceió (AL), 07.05.1976

Publicado no livro: Pão de Açúcar, cem anos de poesia.


*****


PÃO DE AÇÚCAR


Dorme, cidade branca, silenciosa e triste.

Dum balcão de janela eu velo o seu dormir.

Nas tuas ermas ruas somente o pó existe,

O pó que o vendaval deixou no chão cair.


Dorme, cidade branca, do céu a lua assiste

O teu profundo sono num divino sorrir.

Só de silêncio e sonhos o teu viver consiste,

Sob um manto de estrelas trêmulas a luzir.


Assim, amortecida, tú guardas teus mistérios.

Teus jardins se parecem com vastos cemitérios

Por onde as brisas passam em brando sussurrar.


Aqui e ali tu tens um alto campanário,

Que dá maior relevo ao pálido cenário

Do teu calmo dormir em noite de luar.

____

Ben Gum, pseudônimo de José Mendes

Guimarães - Zequinha Guimarães.






PUBLICAÇÕES

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Pão de Açúcar, Cem Anos de Poesia