domingo, janeiro 17

CEM ANOS DO FUTEBOL EM PÃO DE AÇÚCAR

No Brasil e em muitos outros países o Futebol é o esporte mais praticado, mais popular e, cada vez mais, um interessante negócio que movimenta milhões de dólares.
A sua chegada em solo brasileiro se deu através de estudantes brasileiros na Europa. No caso de São Paulo, por Charles Miller; no Rio de Janeiro, por Oscar Cox; na Bahia, por José Ferreira Filho e, em Pernambuco, em fins do ano de 1903, pelas mãos de Guilherme de Aquino Fonseca, pernambucano que estudava na Inglaterra.
Segundo o cronista esportivo Givanildo Alves (um alagoano de Rio Largo radicado em Recife), coube ainda a Guilherme de Aquino Fonseca fundar o Sport Club do Recife, em 13 de maio de 1905, que abraçou o novo esporte, diferentemente do seu rival Clube Náutico Capibaribe, que recusara os seus apelos alegando que o Náutico “era destinado exclusivamente à prática de esportes aquáticos e que, além disso, o futebol não era esporte e sim troca de pontapés”.
Alguns anos depois, em 1909, o novo Presidente Ernesto Pereira Carneiro, “para não ver mais os rapazes do Náutico misturados aos do Sport, treinando futebol na Campina do Derby, como os jornais vinham noticiando quase todos os dias, resolveu introduzir o futebol no Náutico.” – Givanildo Alves, em História do futebol em Pernambuco.
Ainda naquele mesmo ano, no dia 24 de julho, aconteceu o primeiro jogo entre Náutico e Sport, no British Club, em que este perdeu por 3 x 1, segundo relata Givanildo Alves, enquanto transcreve a notícia do Jornal Pequeno:

“Os forwards do Sport Club ontem estavam infelizes nos seus passes, dando isso motivo a que a bola sempre caísse em poder dos half-backers do Náutico”, acrescentando ainda: “há muito aqui no Recife não tínhamos o prazer de assistir a uma festa tão concorrida e que pela sua própria natureza entusiasmasse tanto os espectadores. Decididamente, o futebol é um grande diplomata!”

Em Alagoas, segundo Lauteney Perdigão - conhecido pesquisador e profundo conhecedor das coisas do esporte, o futebol teria chegado “no ano de 1908, trazido pelos filhos de famílias poderosas que estudavam o curso superior na capital pernambucana; entre eles estavam o próprio varão do quase vitalício governador Euclides Malta.” – (Douglas Apratto Tenório – A Metamorfose das Oligarquias).
Em Pão de Açúcar tudo indica que aconteceu da mesmíssima forma. A capital pernambucana experimentava o futebol, recém apresentado pelo estudante Guilherme. Além disso, muitos ingleses ali residiam e estimulavam a sua prática. Filhos das famílias mais abastadas de Pão de Açúcar estudavam em Recife.
Esta notinha social, inserta na página 3 da edição de 19 de dezembro de 1909 do jornal A IDÉIA, nos leva a crer que a introdução do futebol em Pão de Açúcar tenha se dado através desses estudantes. Senão vejamos:

“Viajantes
Do Recife chegou no dia 14 o Dr. Luiz Machado, trazendo em sua companhia os esperançosos estudantes:
Augusto de F. Machado, Luiz de F. Machado, Júlio Evangelista, Antônio Alves Feitosa, Antônio de F. Machado, José Alves Feitosa e Júlio de Freitas Machado.”

Provavelmente em gozo de férias, é de se supor que esses jovens – entre catorze e dezesseis anos, logo iniciaram ou incentivaram a prática futebolística nas nossas várzeas ou nas nossas coroas, ou mesmo no meio da rua (quem sabe na nossa hoje conhecida Avenida Bráulio Cavalcante, na época desprovida de qualquer urbanização), já que, na edição de 23 de janeiro de 1910, o mesmo semanário noticia:

“FOOT BALL
Louvamos a idéia de alguns moços pão-de-açucarenses terem organizado um “Sport Club”, pois é mais um passo que damos para o progresso material de nossa terra.
Entretanto, lamentamos a falta de união que existe entre estes jovens, pois já consta que, levados pelo orgulho, cada um quer ser o primeiro.
Desejamos que olvidem-se essas diminutas discrepâncias e o “Sport Club” tenha uma vida duradoura.”

Note-se que o nome da nova agremiação era exatamente igual à do Recife: “SPORT CLUB”, numa clara reprodução da idéia concebida na capital de Pernambuco.
Tal era o entusiasmo que, no Carnaval daquele ano, a novidade foi a presença dos rapazes do Futebol. Aproveitando a popularidade da festa, os adeptos do novo esporte fizeram uma boa divulgação, desfilando pelas ruas da cidade, conforme noticiou a imprensa local:

“O foot-ball club merece especial atenção pela originalidade que patenteou. De frack e cartola, marchava a dois de fundo, músicos a retaguarda e, num recolhimento profundo, cantava de vez em quando e litanias plangentes de sabor rigorosamente fúnebre.”
Ao aparecerem na rua, muitas pessoas se levantaram de chapéu na mão, aguardando, respeitosas, a passagem dos restos de algum infeliz patrício. Alguns oficiosos, então, encarregavam-se de avisar que aquilo era o foot-ball club.
Deram a nota os rapazes do foot-ball.”
(A IDÉIA, 13 de fevereiro de 1910)

Apenas para reforçar a nossa premissa, lembramos que, em 1930, ocorreu a fundação de outro famoso clube de futebol em Pão de Açúcar: o Ypiranga Esporte Clube, cuja Diretoria assim se compunha: Júlio de Freitas Machado (Presidente), Antônio de Freitas Machado (Vice-Presidente), José Mendes Guimarães-“Zequinha Guimarães” (Diretor Esportivo), Odilon Pires de Carvalho (Tesoureiro), Antônio Tavares (Secretário), Lauro Marques de Albuquerque (Orador Oficial) e Odilon Rodrigues (encarregado do material esportivo e do campo) – Gervásio Francisco dos Santos, UM LUGAR NO PASSADO.
Lá estavam os outrora estudantes (Júlio e Antônio), ainda empenhados na consolidação do futebol em sua terra natal.
Nesses cem anos, muito progrediu esse esporte, principalmente após o surgimento, na década de 1960, dos dois maiores Clubes: Jaciobá Atlético Clube e Centro Sportivo Internacional, revelando craques e dividindo a cidade em disputas ferrenhas e apaixonadas
Na edição de 4 de abril de 1972, o jornal O CLARIM, pelo seu colunista esportivo José Alves da Silva (Zé Papaió), num trabalho de pesquisa entre os torcedores, escalou duas seleções pão-de-açucarenses de todos os tempos: a primeira, de 1950 a 1960, tinha a seguinte formação: Roque, Zé Baixo, Chico Preto, Luiz de Vitória, Albertino, Elísio Tri, Geremias, Zé de Ercília, Vavá, Manoel Gustavo e Germínio. A segunda, situada entre 1961 e 1971, formava assim: João Jorge, Deustete, Irineu, Tempero, Murilo, Guri, Carlos, Romeu, Jair, Bobito e Edilson.
Desde então, muitos outros bons jogadores surgiram, atuando pelos dois principais clubes da cidade e, também, em agremiações de outras cidades alagoanas e de outros Estados, como o CRB, CSE de Palmeira dos Indios, Capelense, Ipanema e outros. Foi o caso de Irineu, Berêu, Fernandinho, Cananô, Nei Braga e tantos outros.
Saudemos, então, os pioneiros do “esporte bretão” nas terras de Pão de Açúcar, augurando que a sua prática seja promotora da paz, da união e da fraternidade entre os seus praticantes e torcedores.

CENTRO SPORTIVO INTERNACIONAL
JACIOBÁ ATLÉTICO CLUBE

sexta-feira, novembro 27

DUAS PEQUENAS OPERAÇÕES

(OBSERVAÇÃO DE DOIS CASOS DE AMIGDALOTOMIA COM APLICAÇÃO DE COCAÍNA, pelo Dr. Antônio Militão de Bragança)

Lendo em um dos números da Revista de Medicina, de Paris, a descrição de um caso de amigdalotomia praticada pelo Dr. Millard, no hospital de Beaujon, na qual empregou o ilustre médico a cocaína como anestésico, por minha vez lembrei-me de, oportunamente, estudar e apreciar os efeitos surpreendentes de tão precioso agente terapêutico.
De posse desse alcalóide, proporcionando-me ultimamente a clínica dois doentes afetados de amigdalite crônica, operei a ambos e tive então ocasião de observar os resultados da anestesia cocaínica.
O primeiro operado foi um menino de sete anos de idade, filho do do Sr. Capitão Antônio Luiz da Silva Tavares. A tonsila direita apresentava um volume extraordinário, ocupando quase todo o istmo da garganta. A esquerda estava ligeiramente hipertrofiada.
Fiz, com intervalos de cinco minutos, quatro aplicações com um pincel embebido em uma solução de Cloridrato de Cocaína a 20% em toda a superfície de ambas as amígdalas e, seis minutos depois da última aplicação, a anestesia era completa. Imediatamente pratiquei a secção da tonsila direita, sendo a dor acusada pelo pequeno doente quase nula.
O segundo operado foi um rapaz de quinze anos de idade, filho do Sr. Manoel José d’ Oliveira. Ambas as amígdalas estavam enormemente hipertrofiadas.
Como no caso precedente, fiz as aplicações da mesma solução de Cloridrato de Cocaína. Anestesiadas as hipertrofiadas tonsilas, pratiquei sucessivamente a sua extirpação, não acusando o paciente a menor dor. Em ambos os casos servi-me do amigdalótomo de Loryenne.
A observação do Dr Millard refere-se a uma rapariga de quinze anos de idade, cujas amígdalas estavam hipertrofiadas a tal ponto que se tocavam de cima a baixo, obstruindo completamente o istmo da garganta. Feitas as aplicações da solução anestésica, procedeu o ilustre médico do hospital de Beaujom a amigdalotomia, não demonstrando a doente o menor indício de sofrimento.
Estas observações, feitas em pessoas de sexo e idade diferentes, provam exuberantemente as propriedades analgésicas da cocaína, deixando prever os resultados brilhantes que pode colher a cirurgia com o emprego desse alcalóide em muitas outras operações de garganta.
Brevemente apreciarei a influência anestesiante da cocaína em algumas operações de olhos que tenho de praticar.
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Pão de Açúcar(AL), 28 de setembro de 1885.
(Publicado no jornal O TRABALHO, edição de 3 de outubro de 1885).
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ANTONIO MILITÃO DE BRAGANÇA
Nasceu em 31 de julho de 1860 em Laranjeiras/SE, filho de Dr. Francisco Alberto de Bragança e Possidônia Maria de Santa Cruz .
Formou-se na Faculdade de Medicina da Bahia em 15 de dezembro de 1883, defendendo a tese “Paralisias Consecutivas às Moléstias Agudas”. Recém formado, vai ao Rio de Janeiro por breve espaço de tempo e volta para Laranjeiras onde monta consultório na rua Direita.
Informado da inexistência de médico em Pão de Açúcar (AL), transfere-se para lá onde permanece por 7 anos naquela cidade ribeirinha. Em 1892 regressa a Laranjeiras.
Em 1898 foi Delegado de Higiene em Laranjeiras. Participa em 1910 da fundação da Sociedade de Medicina de Sergipe.
Em 1911, violento surto de varíola atinge Laranjeiras e quase a despovoa, tal o número dos que fugiram para a Capital, a este tempo melhorada em seus aspectos sanitários e com maiores recursos de atendimento. Dr. Militão de Bragança escreve “A Varíola em Laranjeiras”, trabalho muito rico em detalhes clínicos, epidemiológicos e profiláticos. A pandemia de gripe espanhola arrasa Laranjeiras em 1918, com centena de mortes, conforme o registro dos serviços públicos. Militão de Bragança é infatigável nessa luta.
Urbanizou, com recursos próprios, a primeira praça de Laranjeiras, que recebeu o nome de Dona Possidônia. Praticava também o oftalmologia e dele se conta, sem comprovação, que teria secretamente prestado atendimento médico a Virgulino Ferreira da Silva, vulgo Lampião, retirando-lhe de um dos olhos um graveto que havia penetrado acidentalmente. Progressista e inovador, incluiu-se entre os primeiros a importar gado indiano e introduzi-lo nos rebanhos sergipanos.
Compositor, compôs, entre outras: “Saudades de Philomena” (mazurca), “Minha simpatia” (valsa), “Idealizando” (mazurca). Faleceu aos 89 anos de idade, no dia 27 de março de 1949, em Aracaju. É patrono da cadeira 2 da Academia Sergipana de Medicina.
( by Ac.Lúcio Antonio Prado Dias, da Academia Sergipana de Medicina - 2006)

quinta-feira, novembro 26

SONHO


Foto: Arquivo Roberto Silva(Propriá-SE).
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F. Palmares

É delicioso o luar.
A branca casaria e as torres das igrejas de Propriá destacam-se poeticamente à claridade argentina da deusa da noite. Silenciosa, a cidade formosa contempla o poético rio S. Francisco, o velho Opara, que corre veloz a seus pés, rumo ao Atlântico.
As vagas espumantes e fosforescentes beijam-lhe o curvo e extenso cais. Argentinas e fosforescentes águas, de ardentias fabulosas e vagalumes incandescentes, correndo a princípio pelas brechas profundas das altas serras azuis do alto Sertão; depois, seguindo brilhantes, reverberam ao luar, formando as cascatas sem rival, os lagos transparentes e estreitos canais, por onde passam com maior velocidade, vêm depois de mil voltas, roçar-se neste sinuoso cais.
No porto, uma flotilha de canoas de diversos tamanhos, coloridas, de traquetes derribados e presas as suas amarras em pequenas âncoras de três pontas, balouça-se rangendo as vergas e cavernas, cujos sons formam o que quer que é de rude arpejo de plangente violão dedilhado por hábil tocador.
Sobre os bancos das canoas descansam os seus tripulantes, seminus, prontos a partirem.Por momentos, ouve-se o badalar sonoro, vibrante do sino da velha Matriz a tocar nove horas.
A iluminação dentro das toldas das canoas, passando através das vigias, imprimem n’ água traços luminosos; são as primeiras canoas que partem.
Recolhem-se as amarras e os canoeiros, ao som do rém-rém produzido pela roçagem dos remos nas cavidades das popas, nostálgicos, cantam belas canções que falam d’ amor e evocam o pálido e frio luar.
Das alturas, Diana ilumina a esplêndida paisagem.
O rém-rém e as modinhas continuam, diminuindo pela distância, até perderem-se ao longe.
Nada mais se vê e se ouve, então, do que o ciciar das vagas a quebrarem-se de encontro às pedras do cais da Veneza Sergipana, e o rico luar espargindo, sobre a casaria branca e silenciosa da cidade, seus límpidos raios.

(Propriá-SE, fevereiro de 1910). A IDÉIA, 17 de fevereiro de 1910.
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Por conta das comemorações do CENTENÁRIO do jornal A IDÉIA, impresso em Pão de Açúcar(AL), cuja edição inaugural circulou em 14 de novembro de 1909, estamos reproduzindo algumas crônicas e poemas desse importante periódico.
Esta crônica de F. Palmares (que pode ser um pseudônimo) exalta as características das cidades ribeirinhas, tal como está retratada na foto que a ilustra.Vemos o porto de Propriá repleto de canoas, a ponto de, não havendo mais espaço para que se colocassem junto à margem, postavam-se lado a lado, exigindo que os passageiros e tripulantes passassem por outras canoas até conseguirem saltar à terra.(Etevaldo)

sábado, novembro 14

CENTENÁRIO D’ A IDEIA


No dia 14 de novembro de 1909 circulava a primeira edição do jornal A IDEIA, tendo como proprietários Hypólito de Souza (Redator-Chefe) e Álvaro Machado (Redator-Gerente).
Portanto, há cem anos, na jutentude dos seus vinte e poucos anos, esses dois pão-de-açucarenses faziam prevalecer o que já era uma característica de Pão de Açúcar e de outras cidades ribeirinhas do São Francisco, sustentar um veículo de comunicação, com oficinas gráficas e tudo o mais, a despeito de todas as adversidades.
Definindo-se como “órgão literário, nocicioso e humorístico”, era publicado semanalmente, tendo como colaboradores os mais destacados literatos da época: Damasceno Ribeiro, Júlio Almeida, Ovídio Cabral, Álvaro Machado e outros, que se ocultavam sob pseudônimos como “K. Lunga”, “Armando”, “Dom Riozinho”... Na sua coluna dedicada à poesia, denominada “Escrínio Poético” e, depois, “Fonte de Castália”, desfilavam Damasceno Ribeiro, Júlio Almeida, Hypólito de Souza, Theóphanes Brandão, Ephifânio da Fonseca Dória, Nina Falcão, Rosália Sandoval, Mário Florival, dentre outros.
A partir de 27 de março de 1910, Hypólito de Souza deixa a sua redação e a partir de 3 de junho do mesmo ano passa a ser propriedade de A. Machado & Cia.

Embora não seja A IDEIA o pioneiro do jornalismo pão-de-açucarense – o primeiro foi o JORNAL DO PÃO D’ ASSÚCAR, fundado por José Venustiniano Cavalcante (pai de Bráulio Cavalcante), em 1874, é nossa obrigação comemorar este seu CENTENÁRIO, desejando que o seu exemplo possa ser seguido pelas novas gerações, especialmente nesses tempos de enormes facilidades tecnológicas.

domingo, outubro 4

ADEUS, MERCEDES SOSA



Morreu, neste domingo (4), a cantora argentina Mercedes Sosa, aos 74 anos, depois de permanecer internada por 11 dias em um hospital na cidade de Buenos Aires.
Haydé Mercedes Sosa nasceu no dia 9 de julho de 1935, na cidade de San Miguel de Tucumán. Com uma carreira de 60 anos, transitou por diversos países do mundo, dividiu o palco com inúmeros e prestigiosos artistas e deixou uma grande discografia.

Ganhou destaque muito nova, com quinze anos de idade, após se apresentar em uma competição de uma rádio da sua cidade natal e conseguiu um contrato de dois meses. O timbre marcante levou Mercedes a gravar o primeiro disco Canciones con Fundamento, em 1965, com um perfil de folk argentino. Mas foi em 1967 que se consagrou internacionalmente após gravar o sucesso Cantata Sudamericana e Mujeres Argentinas, com Ariel Ramirez e Feliz Luna. A música foi em homenagem à chinela Violeta Parra.
Já atuou com diversos músicos, como Milton Nascimento, Fagner e Silvio Rodríguez.
Toda essa preocupação inclusive fica evidente em seu repertório, tornando-se uma das grandes expoentes da Nueva Canción, movimento musical nos anos 60, com raízes africanas, cubanas, andinas e espanholas. Caetano Veloso, Gilberto Gil e Chico Buarque são representantes.
Possui um dueto com Beth Carvalho, cada uma cantando no seu idioma, na música So le piedo a Dios, além da parceria que fez com Fagner na música Años, de 1981.

Años
Mercedes Sosa
Composição: Pablo Milanés

El tiempo pasa nos vamos poniendo viejos
Yo el amor no lo reflejo como ayer
En cada conversación cada beso cada abrazo
Se impone siempre un pedazo de razón
Passam os anos e como muda o que eu sinto
O que ontem era amor vai se tornando outro sentimento
Porque anos atrás tomar tua mão roubar-te um beijo
Sem forçar o momento fazia parte de uma verdade
El tiempo pasa nos vamos poniendo viejos
Yo el amor no lo reflejo como ayer (como ayer)
En cada conversación cada beso cada abrazo
Se impone siempre un pedazo de razón
Vamos viviendo viendo las horas
Que van pasando las viejas discusiones
Se van perdiendo entre las razones
A todo dices que si a nada digo que no para poder construir
Esa tremenda armonia que pone viejo los corazones
Porque el tiempo pasa nos vamos poniendo viejos
Yo el amor no lo reflejo como ayer
En cada conversación cada beso cada abrazo
Se impone siempre un pedazo de temor
Vamos vivendo vendo as horas
Que vão passando as velhas discussões
Vão se perdendo entre as razões
A tudo dizes que sim a nada digo que no para poder construir
Esa tremenda armonia que pone viejo los corazones
El tiempo pasa nos vamos poniendo viejos
Yo el amor no lo reflejo como ayer
En cada conversación cada beso cada abrazo
Se impone siempre un pedazo de razón
Porque el tiempo pasa nos vamos poniendo viejos
Yo el amor no lo reflejo como aye

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Gracias A La Vida
Mercedes Sosa
Composição: Violeta Parra

Gracias a la vida que me ha dado tanto
Me dio dos luceros que cuando los abro
Perfecto distingo lo negro del blanco
Y en el alto cielo su fondo estrellado
Y en las multitudes el hombre que yo amo
Gracias a la vida que me ha dado tanto
Me ha dado el oído que en todo su ancho
Graba noche y día grillos y canarios
Martirios, turbinas, ladridos, chubascos
Y la voz tan tierna de mi bien amado
Gracias a la vida que me ha dado tanto
Me ha dado el sonido y el abecedario
Con él, las palabras que pienso y declaro
Madre, amigo, hermano
Y luz alumbrando la ruta del alma del que estoy amando
Gracias a la vida que me ha dado tanto
Me ha dado la marcha de mis pies cansados
Con ellos anduve ciudades y charcos
Playas y desiertos, montañas y llanos
Y la casa tuya, tu calle y tu patio
Gracias a la vida que me ha dado tanto
Me dio el corazón que agita su marco
Cuando miro el fruto del cerebro humano
Cuando miro el bueno tan lejos del malo
Cuando miro el fondo de tus ojos claros
Gracias a la vida que me ha dado tanto
Me ha dado la risa y me ha dado el llanto
Así yo distingo dicha de quebranto
Los dos materiales que forman mi canto
Y el canto de ustedes que es el mismo canto
Y el canto de todos que es mi propio canto
Gracias a la vida, gracias a la vida

sábado, setembro 26

IV BIENAL DO LIVRO DE ALAGOAS

A nossa apresentação na IV BIENAL INTERNACIONAL DO LIVRO DE ALAGOAS foi acompanhada de um texto que foi distribuído aos presentes D. PEDRO II E A NAVEGAÇÃO NO BAIXO SÃO FRANCISCO

Por Etevaldo Amorim

Ao ensejo das comemorações do sesquicentenário da visita do Imperador D. Pedro II à Cachoeira de Paulo Afonso, cabe ressaltar não apenas o fato histórico em si, mas principalmente os seus efeitos sobre a vida dos ribeirinhos do São Francisco.

Reportando-nos àquele ano de 1859, desejamos tecer algumas considerações sobre a navegação no curso Baixo do rio, desde a sua foz, em Piaçabuçu; até Piranhas, ponto limitante para as condições de navegabilidade, dada a existência de um obstáculo natural, a Cachoeira de Paulo Afonso.

A nossa abordagem começa com a descrição das condições encontradas pelo Imperador. Apenas canoas rústicas, feitas muitas vezes de um só tronco de tamboril, vinhático ou cedro, conforme se refere o engenheiro alemão Henrique Halfeld quando da viagem pelo São Francisco, nos anos de 1852 a 1854, cujo resultado do levantamento foi publicado no famoso Atlas publicado em 1860.

Eis sua descrição:

“A navegação é feita no rio por grandes canoas de 60 a 70 palmos de comprimento, 8 a 10 palmos de largura e 4 a 5 palmos de altura que, para carga, sendo ela muita, são unidas ou ajoujadas, duas ou mais.”

Referindo-se às canoas de tolda,

“uma coisa notável é o cômodo para os viajantes. A chamada tolda, na proa, faz com que a canoa grande ofereça a forma de uma chinela ou tamanco. As velas são de grandes dimensões, duas para cada uma destas canoas, com as quais só viajam com vento à proa rio acima”. A virações ou ventos só caem de 9 para 10 horas da manhã e sopram com cada vez mais crescida violência até às 11 e 12 horas da noite, impulsando as embarcações como se fossem movidas a vapor, cortando a sua proa com grande ruído as atuas contra a correnteza mais forte do rio em espumantes ondas jogadas a cada lado das suas bordas, até a alta noite, quando aparece a chamada calada, que põe tudo em silêncio”.

“Também usam de pôr a canoa à toa descendo pelo rio, trazendo um arbusto na popa, cujo peso com a corrente das águas a faz seguir em direção do canal mais profundo”.

Esse recurso é também citado por outros visitantes que visitaram a região, a exemplo de George Gardner, Vieira de Carvalho e Avé Lallemant. É que, sendo as velas usadas apenas para viajar rio acima (com vento favorável), estas se revelavam inúteis quando se pretendia descer. Fechavam-se os panos e, à custa de muito suor e sono, entravam os remadores a zingar, noite adentro, entoando modinhas e versos do cancioneiro popular.

Com o advento da Lei nº 19, de 9 de março de 1836, foi aprovada a concessão à Empresa Mornay & Cia, que obteve o privilégio de estabelecer, com exclusividade e por 14 anos, a navegação nos rios e barras da Província das Alagoas, mas só em 1852 o Governo da Província era autorizado a auxiliar financeiramente companhias de vapores costeiros da Bahia, que tocariam os portos de Jaraguá (Maceió) e Penedo, na margem esquerda do rio São Francisco.

Outra legislação (Lei nº 317, de 23 de abril de 1857) faria com que fosse estendida a qualquer companhia ou empresa o direito de estabelecer a navegação a vapor no rio São Francisco e, no mesmo ano, o Governo Imperial foi autorizado a auxiliar, com 30:000$000 anuais, qualquer companhia que se organizasse para explorá-la.
A Província de Sergipe, por sua vez, respaldada pela Resolução nº 533, de 8 de julho de 1858, permitia-se auxiliar à empresa de navegação a vapor projetada por Luiz Caetano da Silva Campos e João Francisco Fróes, para que atuassem desde a foz até a vila de Pão de Açúcar.

Em que pesem todas essas providências legais, nada de prático se verificava no sentido de efetivamente iniciar a navegação a vapor nesse trecho. Tanto que o Imperador, tão logo o vapor Apa transpôs a barra, recebeu logo a bordo o Presidente da Província das Alagoas, Conselheiro Manoel Pinto de Souza Dantas, com o qual conversou sobre a navegação. Em seu diário, D. Pedro II anotaria “e essa gente nem ainda cuidou de regularizar a navegação do rio São Francisco.”

Tanto que o vapor Pirajá, utilizado pelo Imperador e sua comitiva para a viagem à cachoeira, foi o primeiro a alcançar o ponto máximo navegável no Baixo São Francisco. Entretanto, somente em 7 de setembro de 1867, por força dos Decretos nºs 3.749, de 7 de dezembro de 1866 e 3.920, de 31 de julho de 1867, de inspiração do Barão de Penedo, teve início a navegação naquele trecho, pela Companhia Costeira Baiana, através de dois vapores: Paulo Afonso e Jequitaya.

Assim, a partir de 4 de maio de 1879 começou a operar o vapor Sinimbu, da Companhia Pernambucana, mediante contrato firmado entre o Governo Geral e os Srs. José Maria Gonçalves Pereira e o Tenente-Coronel Antônio Ulysses de Carvalho. Outro contrato com o Governo Provincial (assinado em 28 de maio de 1879 pelo Presidente Cicinato Pinto da Silva), devidamente autorizado pela Lei Provincial nº 785, de 6 de junho de 1878, com regulamentação dada pelo Decreto nº 7.123, de 4 de janeiro de 1879. A empresa recebia, anualmente, subvenção de 40:000$000 Rs do Governo Geral e 6:000$000 Rs dos cofres do governo alagoano.

Já por volta de 1888, a Companhia Pernambucana utilizava também o vapor Maceió, sendo, já na primeira década do Século XX, substituído pela lancha Moxotó até o seu naufrágio em 10 de janeiro de 1917, ocorrido entre os povoados Ilha do Ferro (Pão de Açúcar-AL) e Bonsucesso (Poço Grande-SE), em que pereceram dezoito pessoas, entre passageiros e tripulantes. Aliás, essas embarcações traziam, cada uma a seu modo, um caráter fatídico. O vapor Sinimbu era famoso pelas suas rodas laterais, em conseqüência, foram freqüentes os acidentes com passageiros, tragados pelas mesmas, ocorridos no momento do embarque ou desembarque. Esses navios foram depois vendidos à empresa Peixoto & Cia, que os substituiu pelos vapores Comendador Peixoto e Penedo.

O vapor Penedo - também conhecido por “Penedinho” - operou até finais da Década de 1950. Por sua vez, o vapor Comendador Peixoto atuou até finais da década de 1960. A partir da década de 1950, entraram em operação as lanchas da Empresa Fluvial Tupã (de Sebastião e Luiz Barreto), com sede em Neópolis, Sergipe. De nomes: Tupigy, Tupy e Tupã faziam linha duas vezes por semana, de Penedo a Piranhas, no auge do tráfego de mercadorias e passageiros. O decênio 1970 ficou marcado pelo declínio da navegação no Baixo São Francisco, em virtude da construção de estradas que permitiam o melhor escoamento da produção e propiciavam maior rapidez. Em 1979, a lancha Tupã fez a sua última viagem, dando lugar a pequenas embarcações que faziam linhas curtas em pequenos trechos, pondo fim à longa história de conquistas e avanços dos modos de navegar no “Velho Chico”.

quinta-feira, junho 18

DISCURSO



Exmº Sr. Cônsul-Geral dos Estados Unidos da América, no Brasil, Earl Irving,
Exmº Sr. Prefeito do Município de Pão de Açúcar, Jorge Silva Dantas,
Exmº Sr. Vice-Prefeito, Antônio Carlos Melo Machado...

Ao ensejo de tão ilustre visita, incumbiu-me o Sr. Prefeito de levar aos presentes uma breve explanação acerca da importância deste velho sobrado em que agora nos encontramos.
Quem o vê assim alquebrado e maltratado pelo tempo, não pode imaginar o quão pujante foi o seu passado e que tenha ele sido testemunha dos primeiros passos da florescente Vila do Pão d’Assúcar, concebida pela Lei Provincial Nº 233, de 3 de março de 1854.
Construído pelo Major João Machado de Novaes Melo, desde logo transformou-se em Casa da Câmara, que viria a ser instalada a 7 de agosto daquele mesmo ano. Desde então, foi palco de muitos eventos e abrigo às mais diversas e ilustres personalidades. Exemplo disso, e sem dúvida o acontecimento mais importante, foi a passagem do Imperador D. Pedro II que, demandando a Cachoeira de Paulo Afonso, aqui pernoitou nos dias 17 para 18 e 22 para 23 de outubro de 1859.
A certa altura do seu diário de viagem, no dia 17, diz o Imperador:

“Esquecia-me de dizer que havia junto ao lugar de desembarque, que arranjaram com algumas tábuas e coqueiros, uma música de rebecas e outros instrumentos que tocavam o Hino da Independência feito na Bahia, que era cantado por pessoas que me seguiram até chegar à Casa da Câmara, que está sofrivelmente arranjada.”

Adiante, já no dia 18, diz, descrevendo a cidade:

“Há uma bela rua direita longa e larga, e outra perpendicular também direita, porém menos longa e larga. Só vi uma casa de sobrado, a da Câmara, onde me hospedei”.

Já o Livro de Memórias da Viagem de Sua Majestade Imperial às Províncias do Norte, registra, no dia 17:

“Depois de permitir que todas as pessoas presentes lhe beijassem a mão, chegou várias vezes à janela do sobrado para agradecer às ovações que o povo na rua lhe fazia. Às 22:00 horas, recolheu-se ao seu aposento”.

Vale registrar ainda, para melhor ilustrar a sua magnitude, a visita do Presidente da Província de Alagoas, o Dr. José Bento da Cunha Figueiredo Junior, ocorrida dez anos depois, o qual, a exemplo do Imperador, também aqui pernoitou, nos dias 5 para 6 e 6 para 7 de janeiro de 1869. O sobrado já era então residência do Juiz de Direito Dr. Paes Barreto.

Passado tanto tempo, e se prestando a outras finalidades, vislumbra-se agora a chance de este velho casarão servir de novo à causa pública, por especial deferência dos herdeiros de “Seu Nozinho Andrade”, seus proprietários, tendo à frente o Sr. Elmano Machado Gonçalves, que se propõem a ceder o prédio ao Município.

Tem agora a Municipalidade, sob o comando do Prefeito JORGE DANTAS, a missão de restaurar e utilizar esta Casa no interesse da cultura pão-de-açucarense, seja por seus próprios meios, seja com a oportuna e imprescindível ajuda de qualquer outra entidade.
Quando isso acontecer, aqueles que amam e lutam por esta terra no presente e cultuam o seu passado agradecerão penhoradamente.

OBRIGADO!
__________
Discurso proferido pelo Secretário de Administração, Dr. Etevaldo Alves Amorim, no dia 6 de setembro de 1997, aproximadamente às 18:00 horas, por ocasião da visita a esta cidade do Cônsul dos Estados Unidos da América, Mr. Earl Irving (Consulado do Recife).

A POESIA DE PÃO DE AÇÚCAR



PÃO DE AÇÚCAR


Marcus Vinícius*


Meu mundo bom

De mandacarus

E Xique-xiques;

Minha distante carícia

Onde o São Francisco

Provoca sempre

Uma mensagem de saudade.


Jaciobá,

De Manoel Rego, a exponência;

De Bráulio Cavalcante, o mártir;

De Nezinho (o Cego), a música.


Jaciobá,

Da poesia romântica

De Vinícius Ligianus;

Da parnasiana de Bem Gum.


Jaciobá,

Das regências dos maestros

Abílio e Nozinho.


Pão de Açúcar,

Vejo o exagero do violão

De Adail Simas;

Vejo acordes tão belos

De Paulo Alves e Zequinha.

O cavaquinho harmonioso

De João de Santa,

Que beleza!

O pandeiro inquieto

De Zé Negão

Naquele rítmo de extasiar;

Saudade infinita

De Agobar Feitosa

(não é bom lembrar...)


Pão de Açúcar

Dos emigrantes

Roberto Alvim,

Eraldo Lacet,

Zé Amaral...

Verdadeiros jaciobenses.

E mais:

As peixadas de Evenus Luz,

Aquele que tem a “estrela”

Sem conhecê-la.


Pão de Açúcar

Dos que saíram:

Zaluar Santana,

Américo Castro,

Darras Nóia,

Manoel Passinha.


Pão de Açúcar

Dos que ficaram:

Luizinho Machado

(a educação personificada)

E João Lisboa

(do Cristo Redentor)

A grandiosa jóia.


Pão de Açúcar,

Meu mundo distante

De Cáctus

E águas santas.

______________

Marcus Vinícius Maciel Mendonça(Ícaro)

(*) Pão de Açúcar(AL), 14.02.1937

(+) Maceió (AL), 07.05.1976

Publicado no livro: Pão de Açúcar, cem anos de poesia.


*****


PÃO DE AÇÚCAR


Dorme, cidade branca, silenciosa e triste.

Dum balcão de janela eu velo o seu dormir.

Nas tuas ermas ruas somente o pó existe,

O pó que o vendaval deixou no chão cair.


Dorme, cidade branca, do céu a lua assiste

O teu profundo sono num divino sorrir.

Só de silêncio e sonhos o teu viver consiste,

Sob um manto de estrelas trêmulas a luzir.


Assim, amortecida, tú guardas teus mistérios.

Teus jardins se parecem com vastos cemitérios

Por onde as brisas passam em brando sussurrar.


Aqui e ali tu tens um alto campanário,

Que dá maior relevo ao pálido cenário

Do teu calmo dormir em noite de luar.

____

Ben Gum, pseudônimo de José Mendes

Guimarães - Zequinha Guimarães.






PUBLICAÇÕES

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Pão de Açúcar, Cem Anos de Poesia