domingo, maio 26

DIVINA MENTIRA

                                        Judas Isgorogota¹

 Pobrezinha da mãe que teve um filho poeta
E o viu cedo partir para as bandas do mar,
Nunca mais que ele volte à mansão predileta,
Nunca mais que ela deixe, um dia, de chorar!…

 É como a água de um lago, inteiramente quieta,
A alma de toda mãe que vive a meditar:
— O mais leve sussurro é-lhe um toque de seta,
— A mais leve impressão basta para a assustar!…

 Eu, por sabê-la assim, quando lhe escrevo, digo:
 “— Minha querida mãe, não se aflija comigo.
E eu vou passando bem… Jesus vela por mim…”

 É que assim ela, a humana expressão da bondade,
Contente por saber que vou sem novidade,
Jamais há de pensar que eu vá mentir-lhe assim!…


Judas Isgorogota. Acervo de Herman Fonseca de Melo, neto do poeta.


¹ Pseudônimo de Agnelo Rodrigues de Melo, poeta e Jornalista brasileiro. Nasceu em Lagoa da Canoa, Alagoas em 15 de setembro de 1901. Viveu em Maceió, mudou-se aos 23 anos para o Rio de Janeiro e depois para São Paulo onde ganhou projeção internacional e veio a falecer em 1979. Publicou 15 livros de poesias, uma novela e cinco de poesias infantis. Parte de sua obra poética traduzida para vários idiomas (francês, inglês, alemão, espanhol, italiano, húngaro, árabe, checo e lituano). Com toda essa bagagem é quase um desconhecido em sua terra.

segunda-feira, maio 13

A NOTÍCIA DA ABOLIÇÃO (REEDIÇÃO)


Etevaldo Amorim *

Os jornais são sempre uma boa fonte de pesquisa para quem se interessa em desvendar os segredos do passado. Simples episódios noticiados rotineiramente podem se transformar em peça chave para dirimir qualquer dúvida do pesquisador. Do mesmo modo, a narrativa pormenorizada de um fato oferece ao leitor a possibilidade de compreender melhor a história e tirar dela os melhores ensinamentos.
Assim se dá com o jornal O Trabalho, fundado em Pão de Açúcar no dia 4 de junho de 1882, por Achilles Mello e Mileto Rego. Folheando suas páginas, pode-se saber, com riqueza de detalhes, o modo como os pão-de-açucarenses ficaram sabendo da assinatura da Lei Áurea pela Princesa Izabel.
Os repórteres do jornal misturavam-se à multidão que aguardava a chegada do navio naquela manhã do dia 22 de maio de 1888. Quase 10:00 horas, todos os olhares se voltam para o morro do Faria, onde o rio altera levemente o curso para a esquerda. Eis que surge o vapor Maceió, da Companhia Pernambucana, atraindo a atenção de todos, desejos de confirmar a notícia que circulava oficiosamente, inclusive por cartas procedentes de Penedo, de que a Princesa Regente havia assinado a tão esperada Lei desde o dia 13 daquele mês.
O tempo que levou o vapor para cumprir o percurso até o porto, pouco mais de quatro quilômetros, parecia uma eternidade, tal era a ansiedade dos que ali esperavam a comunicação oficial do fato político que se tornaria um dos mais importantes de todo o Século XIX no Brasil. Entre passageiros e cargas, desembarca também a mala do Correio.
Em frente à Travessa da Matriz, no local que corresponde hoje ao Iate Clube Pão de Açúcar, explodem no ar diversas girândolas, mandadas soltar pelo Juiz Municipal Dr. Luiz Gonzaga de Almeida Araújo. Pouco mais abaixo, na saída da então denominada Travessa Gutemberg (atualmente João Antônio dos Santos, mas que já se chamou João Pessoa e José da Silva Maia), mais foguetes patrocinados pelos pretos saudavam a chegada do vapor.
O foguetório, ainda que intermitente, durou até a noite. Às dezenove horas, na Casa da Câmara, que funcionava no mesmo sobrado em que se hospedou D. Pedro II em 1859, reuniram-se as autoridades judiciárias, o Presidente da Câmara e um grande número de pessoas, inclusive muitos negros, acompanhados de uma animada banda marcial.
O Presidente da Câmara, Sr. Manoel Themóteo de Amorim pediu silêncio e leu o telegrama que recebeu do Presidente da Província, Manuel Gomes Ribeiro (Barão de Traipu), que, como 1º Vice-Presidente, sucedera Antônio Caio da Silva Prado, que deixou Alagoas para presidir a Província do Ceará. A mensagem, que reproduzia Circular enviada a todas as Províncias pelo Ministro da Agricultura - Deputado Rodrigo Augusto da Silva,confirmava que fora sancionada a Lei que concedia liberdade plena a todos os escravos brasileiros. Ao terminar a leitura, irromperam em aplausos e vivas aos Deputados, à Princesa Regente e ao Ministério de 10 de Março. Esse Gabinete, o penúltimo do Império, que chefiava o Governo no Sistema Parlamentarista de então, era composto pelo Ministro da Fazenda, Senador João Alfredo Correia de Oliveira, que o presidia; pelo Deputado José Fernandes da Costa Pereira, Ministro do Império; pelo Deputado Antônio Ferreira Vianna, Ministro da Justiça; Deputado Rodrigo Augusto da Silva, Ministro da Agricultura; Senador Luiz Antônio Vieira da Silva; Senador Thomaz José Coelho de Almeida, Ministro da Guerra e Senador Antônio da Silva Prado, Ministro dos Estrangeiros.
Em meio a esta cerimônia, uma cena comovente: Havia na Câmara um quadro com os retratos do Deputado Joaquim Nabuco e do Dr. José Mariano. Um dos pretos quis saber quem eram e, quando lhe disseram que eram os dois famosos abolicionistas pernambucanos, ajoelhou-se diante do quadro e, na sua linguagem rude, agradeceu-lhes o benefício que fizeram a ele e a todos os que há pouco viviam sob o jugo da escravidão.
Dali saíram todos em passeata a percorrer as ruas da cidade. Muitas casas reforçavam a iluminação demonstrando regozijo e apoio à manifestação, enquanto outras permaneciam em penumbra, evidenciando franca oposição.
Em frente ao sobrado onde morava o Dr. Jovino da Luz, uma pequena parada para ouvir dele uma bela poesia. Este foi um dos mais importantes intelectuais de Pão de Açúcar. Na época com trinta e três anos, além de poeta, já era doutor em Filosofia pela Universidade Gregoriana de Roma. Logo depois o cortejo pára em frente à casa do Dr. Francisco José da Silva Porto, digno Juiz de Direito da Comarca, ele que fora nomeado em 18 de junho de 1883 pelo Presidente da Província Dr. Euthíquio Carlos de Carvalho Gama. Ouviram dele um eloqüente discurso que terminou dando vivas à Princesa Regente, aos Conselheiros Dantas e João Alfredo e a Joaquim Nabuco.
Entrando pela Travessa da Matriz (hoje Rua Padre José Soares Pinto), outra parada para ouvir a fala do Juiz Municipal, que fez uma retrospectiva da luta abolicionista iniciada em 1830 com a proibição do tráfico negreiro. Depois de percorrer outras artérias da jovem cidade (Pão de Açúcar fora guinada a essa condição em 1877), a passeata seguiu pela Rua do Comércio (hoje Av. Bráulio Cavalcante) para ouvir mais um discurso, desta vez do Capitão João Alves Feitosa Franco.
Por fim, em frente à redação do jornal O Trabalho, na Travessa Gutemberg nº 12-A, ouviu-se novo discurso do Juiz Municipal Dr. Gonzaga Araújo, que ressaltou o papel da imprensa na luta contra a escravidão. Foram então lembrados os nomes de Joaquim Nabuco, Quintino Bocaiúva, José do Patrocínio e outros. Falou ainda o Professor Soares de Mello, assegurando que a verdadeira liberdade da Nação brasileira se conquistava naquela data, pois que se tornavam todos os homens iguais perante a Lei.
Dali foram todos para a Rua da Praia (Av. Ferreira de Novaes) onde se concentravam os festejos dos pretos. Deram vivas ao Imperador, à Princesa Regente, ao Gabinete de 10 de Março e aos abolicionistas de um modo geral. Os negros, como que para retribuir o apoio das autoridades e de todos os partidários da sua causa, ofereceram-lhes um bem preparado chá, de que todos compartilharam com incontida satisfação.
Já passava das dez horas da noite quanto terminou essa pequena cerimônia. Então os libertos, e somente eles, começaram a tradicional dança do Côco, que demorou até as cinco da manhã.
O jornal também noticia, por seu correspondente, o reflexo da boa nova em Traipu. Naquela vila, que logo se tornaria cidade, havia apenas quarenta e um escravos. Mesmo assim, sabedores de que estava sendo discutido o Projeto que culminaria na Lei Áurea, retiraram-nos para fora da vila, tencionando mantê-los por mais tempo sob seu domínio.
Recebida a notícia oficial da promulgação da Lei de 13 de Maio, o Juiz Municipal Dr. Miguel de Novaes Mello, que viria a ser, em 1892, o primeiro Prefeito de Pão de Açúcar, tratou de divulgá-la a todos os habitantes de sua jurisdição.
A exemplo do que ocorreu em Pão de Açúcar, os abolicionistas locais organizaram uma passeata, com banda de música e cerca de seiscentas pessoas. Durante a caminhada, alguns discursos: do Dr. Juiz de Direito da Comarca, além dos doutores Manoel Leopoldino Pereira Netto, Octaviano Rodrigues de Carvalho, Florentino de Barros Abreu e Araújo Jorge; do Capitão Mariano Joaquim Cavalcante e do Alferes Manoel Firmino Menezes Mattos.
Ao passar pela casa do Capitão Henrique Méro, a passeata, com a bandeira imperial à frente, foi saudada por uma salva de vinte e um tiros. Todos pararam para ouvi-lo.
Tal como fizeram os negros e abolicionistas destas duas pequenas localidades alagoanas, muitas outras, em todos os recantos do País, festejaram com todo o entusiasmo a libertação total dos escravos. E levaram dias e dias, pela dificuldade de comunicação. Como vimos, só nove dias depois se soube, de forma oficial, da assinatura da Lei. A rigor, demorou mais tempo do que a própria tramitação do Projeto no Congresso: três dias no Senado e dois dias na Câmara. O próprio Vice-Presidente Manoel Gomes Ribeiro, em relatório à Assembléia Provincial - relata:
“Este memorável acontecimento foi recebido em quase todos os pontos da Província com as maiores expansões de júbilo, tocando ao delírio o regozijo popular nesta capital, onde durante oito dias não cessaram as manifestações de contentamento, sendo sempre entusiasticamente saudados o Imperador, a augusta Princesa Imperial Regente, o Ministério e os mais salientes propugnadores da abolição.
Cabendo-me a gloriosa tarefa de pôr em execução na Província a áurea Lei, apenas tive conhecimento oficial de sua promulgação, dirigi-me por ofício ao Juiz de Direito e Câmara da Capital e por telegrama aos Juízes e Municipalidades das demais comarcas para que tivesse ela imediata publicidade e produzisse logo seus humanitários efeitos.
Assim, em toda a Província, conforme os intuitos da Lei, entraram sem grande demora na comunhão dos cidadãos brasileiros os 15.269 indivíduos que, em face da nova matrícula, ainda permaneciam em lastimável cativeiro.”
Alegra-nos saber que a sociedade brasileira (e alagoana, em particular) soube comemorar condignamente um fato de tamanha magnitude. A Lei 3.353, de 13 de maio de 1888 pôs fim a um período vergonhoso da história do Brasil. Com ela puderam obter a liberdade cerca de 720 mil escravos em todo o País. As conseqüências, seja do ponto de vista social, seja sob o aspecto econômico são dignas de estudo e de reflexão. Mas, esse já é outro assunto.

(*) É autor do livro Terra do Sol, Espelho da Lua. Este artigo foi publicado no caderno Saber do jornal Gazeta de Alagoas em 03 de maio de 2008.

Joaquim Nabuco

José Mariano

Jornal O Trabalho



Pão de Açúcar, 1888. Fotos: Adolpho Lindemann.
COLEÇAO PRINCESA ISABEL: FOTOGRAFIA DO SECULO XIX
Bia Correa do Lago, Pedro Correa do Lago


quinta-feira, maio 9

NOTÍCIAS CURIOSAS II


Deu no jornal O ORBE, Maceió, 24 de abril de 1885:

“ESTRADA DE FERRO
DAS
ALAGOAS

Estando interrompida a navegação a vapor para o Pilar, resolveu a administração desta estrada fazer parar todos os trens na SATUBA, ponto mais próximo do Pilar.
Os senhores passageiros que vierem a cavalo encontrarão sempre carros para animais, podendo conduzir no mesmo trem suas cavalgaduras.
O trem chega a SATUBA todas as manhãs às 8 horas e 20 minutos e volta da SATUBA todas as tardes às 3 horas e 50 minutos”

Antecedendo o aviso, a Companhia que explorava a navegação nas lagoas publica um aviso:

“A EMPRESA DE NAVEGAÇÃO
DAS LAGOAS
A VAPOR

Cientifica ao público que está suspenso o respectivo serviço (sendo hoje a última viagem) em vista do termo do contrato que mantinha.

Jaraguá, 17 de abril de 1885”


Maravilha! A empresa de navegação das lagoas, que era a mesma da de trens, procura, para usar um termo atual, “fidelizar” o cliente. Em vez de cavalgar do Pilar até Maceió, o cidadão, embarcando com seu animal na Satuba, teria assegurada a comodidade de se deslocar na Capital em sua própria montaria.


sexta-feira, maio 3

NOTÍCIAS CURIOSAS

Deu no JORNAL DE CAXIAS, edição de 30 de abril de 1898:


O Sertanejo, da cidade de Pão de Assúcar, em Alagoas, diz que consta que o bello sexo de todo orbe cathólico prepara-se para dirigir uma representação ao Papa, reclamando contra o prejuízo que o celibato dos padres tem trazido a seu seio e pedindo a abolição desse costume, por ser contrário às leis divinas e humanas.
Pois ainda não chegou essa ideia por aqui.”

Fonte: memoria.bn.br

terça-feira, abril 23

A LEGENDA DE UMA CONCHA


                                    Jayme d’ Altavilla

Entre algas e corais, lá no fundo do Oceano,
sossegada e feliz uma concha vivia;
e, ouvindo retumbar o clamor desumano,
do seu dorso ostentava a tersa fidalguia...

Uma noite, porém, num desespero insano,
o Mar tanto a impeliu que, à praia, no outro dia,
foi ter a concha, enfim, para auferir o dano
de irmanada viver à infinda Nostalgia.

Mas, embora infeliz, sob o Destino atroz,
guardou consigo, então, a ventura de outrora:
do mar, em tremulina, a enternecida voz.

Também do coração me impeliste a vagar...
mas eu guardo, inda assim, a tua voz sonora
como a concha guardou a linguagem do mar...

___________
Publicado no jornal O Semeador, Maceió,
31 de outubro de 1916.

sexta-feira, março 22

SABINO ROMARIZ


SABINO ROMARIZ Nascido em Penedo no dia 25 de março de 1873, Sabino Romariz era poeta e filho do poeta João Almeida Romariz e Dona Maria de Assunção Romariz. Logo cedo perdeu os seus pais, passando para a companhia de seus avos maternos, Capitão Sabino Alves Feitosa e dona Senhorinha Feitosa. Iniciou os estudos em Penedo e em seguida foi para o Colégio de Olinda, onde concluiu o curso de Humanidades. Ingressou no Seminário em Olinda, grande centro cultural da época, todavia, abandonou os estudos eclesiástivos. Com essa sua atitude de abandono da vocação teve sua mesada cortada pelo seu avô. Aí começa a sua peregrinação pelos caminhos do infortúnio. A sua alma de artista ficou ferida, indo encontrar lenitivo no vício e no álcool. Retoma a Maceió e ali começa a ensinar nos colégios “Vitória” e “2 de Outubro”. Com essa sua volta a Maceió, inicia a ativa vida literária. Retorna a Olinda e no Seminário passa a ensinar inglês e latim. O seu temperamento de artista marcado pela instabilidade o levou para a Paraíba, onde ensinou latim e francês. Era um jovem de uma cultura admirável. Ao lado do Magistério, Sabino Romariz exercia com brilhantismo, também, o jornalismo. Da Paraíba vai para o Rio de Janeiro onde foi lecionar inglês e francês no Colégio Alfredo Gomes. Ali fez exames para a Faculdade Livre de Direito. Publicou o poema – A MANSINHA – passando a conviver com Olavo Bilac, Carvalho Neto e Guimarães Passos. 
Fonte: http://www.penedofm.com.br 

CÉU 

Ninguém, ninguém, ao teu azul resiste, 
Céu do Brasil, bendito e peregrino; 
Onde feito de estrelas, como um hino, 
Fulge o Cruzeiro de fulgor em riste. 

É donde o sol aurifulgente assiste 
Ao murmúrio das águas cristalino; 
— o sol, um louro e rutilo beduíno, 
Longe da lua, pesaroso e... triste. 

Para cantar-lhe essa agonia, afino 
Pelas florestas minha lira êxul, 
E pelas aves o estro adamantino. 

E, olhos cravados neste céu do sul, 
— Bardo e soldado, canto o meu destino 
Vivido ao pálio de teu céu azul. 
 ________ 
Publicado na revista O MALHO, Rio de Janeiro, 27 de setembro de 1910. 


MINHA ESTRELA 

Nasci pobrezinho, qual ave do bosque; 
Eu tenho uma estrela que Deus me guiou,
Um cetro supremo e sublime de artista 
E nem por impérios tal estrela eu dou. 

Eu trago na fronte tão loiro diadema,
Mais loiro e mais lindo que a luz das manhãs!
O sol me desperta em meu leito de espinhos,
As flores dos campos são minhas irmãs.

Debalde a riqueza me cobre de insultos,
A inveja tropeça na linha em que vou,
Eu tenho uma estrela radiante de Artista,
É um timbre infinito – foi Deus quem timbrou. 

 E sou órfão de amores, sou pobre de afetos,
Não tenho cadinhos, jamais, de ninguém,
Eu tenho uma estrela suprema de Artista
E tenho uma glória que muitos não têm.

sábado, março 16

HORMINO LYRA


Poeta, romancista e ensaísta, HORMINO ALVES LYRA nasceu em Pão de Açúcar, Alagoas, em 3 de agosto de 1877. Fez seus estudos secundários no Ginásio São João em Penedo, onde exerceu as funções de censor e lecionou com substituto de várias cadeiras.
Em princípio, pensou dedicar-se à vida eclesiástica. Entretanto, não obstante a sua crença religiosa, percebeu que não tinha vocação para o sacerdócio. Prestou, então, concurso para a Fazenda e para os Correios e Telégrafos. Aprovado em ambos, preferiu o segundo, sendo admitido como Telegrafista.
Escreveu para vários jornais e revista como O Malho e Revista da Semana.
Suas principais obras são: Dona Ede(romance), em 1913; O 14 (contos), também em 1913; O Barão do Triunfo, 1941, separada da Imprensa Nacional (memória); Crisol (poesia), 1960. Troveiro, 1960 (poesia).
Foi casado com Marieta de Mello Carvalho (filha do Coronel Augusto Álvaro de Carvalho e de D. Maria Luiza de Mello Carvalho), falecida em 5 de janeiro de 1961.
Hormino Lyra faleceu no rio de Janeiro em 13 de setembro de 1970.

É dele este soneto:

MEMÓRIAS

Nasci em Pão de Açúcar, Alagoas,
de um par, cuja lembrança me enternece.
Lá vejo o rio, vejo umas coroas
que vão crescendo enquanto a estiada cresce.

Ouço as modinhas, zingador, que entoas
no barco teu que o São Francisco desce.
Lembro a rendeira, a modo numa preço,
trocando os bilros, mastigando loas.

Alva... Chove ouro, tudo colorido.
Despertam aves mil com alacridade
entre os ramos de velho tamarindo.

Angelus... Tange o sino lentamente.
Ainda sinto a poesia da saudade
num ar que empolga o espírito da gente.
___

MEMÓRIA
                        Hormino Lyra

Nasci em Pão de Açúcar, Alagoas,
Lá vejo um outeirinho que floresce,
Beirando o rio. Vejo o areal, canoas,
E a serra que por fim desaparece.

Ouço as modinhas, zingador, que entoas,
Dizendo os versos com o fervor de prece.
Trocando os bilros, mastigando loas,
Lembro a rendeira que alva renda tece.

Manhã. Chove ouro, tudo colorindo.
Os pássaros, mal desce a claridade,
Estão piando no velho tamarindo.

Ângelus. Tange o sino. E e som dolente,
Triste como a tristeza da saudade,
Sensibiliza o coração da gente.
___________
Revista Fon Fon, Rio de Janeiro, Edição de Natal

de 1945.

Hormino Lyra

A POESIA DE PÃO DE AÇÚCAR



PÃO DE AÇÚCAR


Marcus Vinícius*


Meu mundo bom

De mandacarus

E Xique-xiques;

Minha distante carícia

Onde o São Francisco

Provoca sempre

Uma mensagem de saudade.


Jaciobá,

De Manoel Rego, a exponência;

De Bráulio Cavalcante, o mártir;

De Nezinho (o Cego), a música.


Jaciobá,

Da poesia romântica

De Vinícius Ligianus;

Da parnasiana de Bem Gum.


Jaciobá,

Das regências dos maestros

Abílio e Nozinho.


Pão de Açúcar,

Vejo o exagero do violão

De Adail Simas;

Vejo acordes tão belos

De Paulo Alves e Zequinha.

O cavaquinho harmonioso

De João de Santa,

Que beleza!

O pandeiro inquieto

De Zé Negão

Naquele rítmo de extasiar;

Saudade infinita

De Agobar Feitosa

(não é bom lembrar...)


Pão de Açúcar

Dos emigrantes

Roberto Alvim,

Eraldo Lacet,

Zé Amaral...

Verdadeiros jaciobenses.

E mais:

As peixadas de Evenus Luz,

Aquele que tem a “estrela”

Sem conhecê-la.


Pão de Açúcar

Dos que saíram:

Zaluar Santana,

Américo Castro,

Darras Nóia,

Manoel Passinha.


Pão de Açúcar

Dos que ficaram:

Luizinho Machado

(a educação personificada)

E João Lisboa

(do Cristo Redentor)

A grandiosa jóia.


Pão de Açúcar,

Meu mundo distante

De Cáctus

E águas santas.

______________

Marcus Vinícius Maciel Mendonça(Ícaro)

(*) Pão de Açúcar(AL), 14.02.1937

(+) Maceió (AL), 07.05.1976

Publicado no livro: Pão de Açúcar, cem anos de poesia.


*****


PÃO DE AÇÚCAR


Dorme, cidade branca, silenciosa e triste.

Dum balcão de janela eu velo o seu dormir.

Nas tuas ermas ruas somente o pó existe,

O pó que o vendaval deixou no chão cair.


Dorme, cidade branca, do céu a lua assiste

O teu profundo sono num divino sorrir.

Só de silêncio e sonhos o teu viver consiste,

Sob um manto de estrelas trêmulas a luzir.


Assim, amortecida, tú guardas teus mistérios.

Teus jardins se parecem com vastos cemitérios

Por onde as brisas passam em brando sussurrar.


Aqui e ali tu tens um alto campanário,

Que dá maior relevo ao pálido cenário

Do teu calmo dormir em noite de luar.

____

Ben Gum, pseudônimo de José Mendes

Guimarães - Zequinha Guimarães.






PUBLICAÇÕES

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Pão de Açúcar, Cem Anos de Poesia