quarta-feira, novembro 11

VIRGÍLIO MAURÍCIO — GENIAL E POLÊMICO

Por Etevaldo Amorim
Considerado uma das mais destacadas personalidades do meio artístico brasileiro nas primeiras décadas do século XX, este alagoano se notabilizou pelo seu talento para a pintura, revelado ainda na sua juventude em Maceió como discípulo do talentosíssimo Rosalvo Ribeiro.

VIRGÍLIO MAURÍCIO DA ROCHA nasceu em Lagoa da Canoa, então município de Traipu, a 4 de abril de 1892. Filho do Coronel Antônio Maurício da Rocha e de D. Maria José de Melo Rocha, tinha como avós paternos Manuel Maurício da Rocha e Jardulina Maria da Conceição e, maternos, Bruno José de Melo e D. Rita da Fonseca Barbosa.
O pintor Virgílio Maurício. Foto: Revista da Semana, Ano XIX. Nº 12, RJ, 27 de abril de 1918, p. 21.

Cel. Antônio Maurício da Rocha e D. Maria José de Melo Rocha, pai e mãe de Virgílio Maurício. Fonte: Revista Genealógica Latina, Vol. 8, 1956.

Seu pai, o Coronel Antônio Maurício da Rocha, que foi Deputado Provincial, era comerciante muito conhecido e acreditado em Lagoa da Canoa. Em 1897, mudou-se para Maceió estabelecendo-se em Jaraguá, na Rua do Saraiva, no ramo de comissões e consignações, incumbindo-se de transações de compra e venda de açúcar, algodão, couros e cereais. Em 1899, tornou-se proprietário da Loja Louvre, na Rua do Comércio, 130. Essa loja era vizinha do famoso Café Colombo (que ficava na esquina da Rua do Comércio com a Rua Tibúrcio Valeriano, antigo Beco São José). Antes, chamava-se Casa Silva Cravo & Cia, até ser inaugurada no dia 24 de agosto de 1896, já tendo como proprietário José Custódio & Cia. Em 1º de agosto de 1907, constituiu nova sociedade mercantil, em sociedade com Aureliano Barbosa, denominada Maurício & Cia, localizada na Rua do Comércio, 122.


A Loja Louvre em 1905, essa com o poste à frente, de propriedade do Coronel Antônio Maurício da Rocha, pai de Virgílio Maurício. Foto: Maceió antiga: Disponível em: www.facebook.com/MaceioAntiga/photos.

Em 1905, o menino Virgílio entrava no 1º Ano do Colégio Diocesano, sob a direção dos Irmãos Maristas, obtendo excelente aproveitamento nos exames. Ali já participava nas atividades culturais e religiosas, como na visita do Bispo D. Antônio Brandão ao colégio, no dia 29 de novembro de 1905, em que recitou “O Livro e a América”, de Castro Alves.
Em 15 de maio de 1910, aconteceu, nos salões do Lyceu Alagoano, uma exposição de pintores e pintoras discípulos de Rosalvo Ribeiro. Virgílio Maurício expôs ali os trabalhos: “Velho octogenário”, “Demócrito”, “Depois de caça”, “Lavando a boneca”, “Perfil”, “Estudo”, “Praia estrangeira”, “Neve”, “Pôr do sol”, “Paisagem”, “Rosas amarelas”, “Limões portugueses”, “Malvaiscos”, “Os cormorans” e “Ataque a um comboio”. Ao lado dele estavam: Joaquim Brígido, Armênia Coelho, Maria José Mafra, Dulce de Vasconcelos, Laura Duarte, Lucila de Vasconcelos, Nina Viana, Alice Duarte, Maria Almeida (Dandy). (Fonte: jornal O Norte, órgão do Partido Civilista das Alagoas).
Seguiu, no dia 5 de julho de 1910, para o Rio de Janeiro, onde já iniciara o Curso de Medicina[i].
Em 1911, cinco dos seus quadros já tinham sido expostos em Paris e no Rio de Janeiro, obtendo valorosas premiações. (Fonte: Gutenberg, 19 de fevereiro de 1911), mas sua primeira exposição em Maceió aconteceu na Sede da Sociedade Perseverança e Auxílio, cujo vernissage se deu a 23 de março de 1911, tendo a ela comparecido Eusébio de Andrade, Guedes Lins, pelo Jornal de Alagoas; Augusto Andrade, Gilberto Andrade, Alípio Goulart; Luiz Monteiro; Carlos Rubens, pelo Correio de Maceió; Lima Júnior, pela Argos; Messias de Gusmão, Galba Paiva, pelo Correio da Noite; e Menezes Júnior, pelo Gutenberg.Entre os dias 25 de março e 10 de abril, realizou-se a Exposição propriamente dita, a cuja abertura compareceu e a presidiu o Governador do Estado, Euclides Malta, e outras altas personalidades da sociedade maceioense. Foram adquiridos os seguintes quadros: “Praça da República”, pelo Dr. Goulart de Andrade; “Praia de Paquetá”, pelo Dr. Guedes de Miranda; “Rio Petrópolis”, pelo Cel. Manoel de Mello Barbosa; “Copacabana”, pela Srtª Izaura Alves; “Jardim Botânico” e “Quinta da Boa Vista”, pelo Governador Euclides Malta. A tela “Ataque a um comboio” não foi exposta porque estaria prometida ao Marechal Hermes, que pretendia adquiri-lo para ornamentar a Sala Nobre do Clube Militar.

Parte da exposição num dos Salões da Sociedade Perseverança e Auxílio dos Empregados do Comércio, em Maceió. Foto: O Malho, Ano X, Nº 458, Rio de Janeiro, 24 de junho de 1911, p. 44.


Em 1912, realizou concorridíssima exposição em Belo Horizonte, ocasião em que foi vivamente prestigiado pela elite cultural mineira. Um dos seus quadros, o “Praia do Icarahí”, foi adquirido pelo Governo do Estado de Minas Gerais, por intermédio do Secretário do Interior, Dr. Delfim Moreira (que depois se tornaria Presidente da República, na condição de Vice-Presidente, após o falecimento do Titular Rodrigues Alves).

Vernissage da exposição de Virgílio Maurício em Belo Horizonte. À frente, da esquerda para a direita: Borges Fleming; Jorge Modesto; Gustavo Penna; Correia e Castro; Virgílio Maurício, de branco; Augusto de Lima; Horácio Guimarães. Em pé, na mesma ordem: Renato de Lima; Carneiro de Castro; Egberto Prado Lopes; Heraldo Lima; Celso Wernech; Costa Junior; José das Neves; A. de Paula Lima. Fonte: O Malho Nº 499, Ano XI, Rio de Janeiro, 6 de abril de 1912.

Também nesse ano, em 8 de junho, fez exposição em Belém, do Salão Nobre do Teatro da Paz, ao final da qual cedeu 21 quadros, entre eles o “Ataque ao comboio” por 10:000$000 Rs (dez contos de réis) à Intendência de Belém e ofereceu para o Palácio do Governo do Pará o quadro “Calma da tarde”, que figurou na Exposição de Belas Artes de São Paulo. A 12 de julho chegou ao Recife.
Ainda em 1912, realiza nova Exposição em Maceió com enorme concurso de visitantes. O Jornal do Recife de 5 de setembro informa que ele teve, em Alagoas, “o melhor acolhimento, tendo-lhe dedicado uma edição especial o Correio de Maceió”.
A 8 de setembro, embarca no vapor inglês Avon para a Paris (Jornal do Recife, 5 de setembro de 1912), anunciando que pretendia concluir o quadro “Retirada da Laguna”, inspirado no romance de Visconde de Tounay, cujo tema é um episódio da Guerra do Paraguai.


Exposição de quadros de Virgílio Maurício em Maceió. Sentados, da esquerda para a direita: Cônego José Maurício, Secretário do Bispado de Maceió, irmão do pintor; Cel. Antônio Maurício da Rocha, seu pai; Srª Marieta Fonseca, esposa do Governador; Governador Clodoaldo da Fonseca; Virgílio Maurício; Dr. Helvécio Limoeiro, Secretário Particular do Governador; Leonino Corrêa e Cypriano Jucá. Foto: O Malho, RJ, Nº 521, Ano XI, 7 de setembro de 1912.

Em 1913, Virgílio Maurício expôs no Salon des Artistes Français, no Grand Palais de Paris, sob a presidência de Beaumetz, conquistando medalha de bronze com o quadro “Aprés de réve” e sendo felicitado pelos artistas Léon Bonnat, Carolus Duran. Expôs: “L’heure de souter”, “Dans de réve”, “Aprés le réve” e “More, le garçon boucher”.
Em 26 de setembro de 1914, embarca em Bordeux, França, chegando ao Brasil no dia 12 de outubro, a bordo do paquete Flandre, em sua primeira viagem à América do Sul. Esse navio, da Compagnie Générale Transatantique, veio especialmente para trazer os brasileiros e argentinos que desejavam sair da Europa, no início da Primeira Grande Guerra.
No dia 11 de novembro de 1914, Virgílio Maurício volta a Maceió, mas passa a residir do Recife, onde, em 1915, inaugura seu atelier no nº 54 da Rua de Santa Cruz, bairro de Boa Vista. O jornal A Província (5 de maio de 1916) noticia que o artista está pintando, em seu atelier no Recife, um novo quadro a que chamou de “Após o baile” e informa que uma rapariga rumaica se prestou a ser modelo. Do mesmo modo, o jornal carioca A Lanterna, dirigido por Costa Rego, também diz que o quadro foi pintado publicamente, “confundindo seus inimigos”. Foi ali que, em 1917, ele recebeu a visita do General Dantas Barreto, que houvera sido Governador do Estado de Pernambuco e era também homem de letras. Ele se interessava pelo quadro “Após o baile” e outros que retratavam paisagens do Recife: “Praia de Olinda”, “Tacaruna”, “Um trecho de Dois Irmãos”, “Estudos de Monteiro”, “Fortaleza do buraco – dois estudos”. (Jornal do Recife, 29 de janeiro de 1917).
Em 1923, Virgílio Maurício passou a fazer parte das bancas examinadoras do Instituto Moderno de Educação e Ensino, em Minas Gerais, nomeado pelo Conselho Superior de Ensino, educandário dirigido pelo professor Henrique del Castilho. Entre os seus colegas de Banca está o também jornalista Pereira Rego[i], um dos fundadores do jornal O Globo, juntamente com Irineu Marinho.


Professores do Instituto Moderno de Educação e Ensino, em Belo Horizonte. Na fila da frente, da esquerda para a direita: Prof. Mário França; Prof. Jayme de Barros Gomes; Virgílio Maurício; Dr. João Alfredo Pereira Rego, Inspetor do Governo Federal; `Prof. Henrique del Castilho – de branco, Diretor do Instituto; Prof. Souza Lima e Prof. Alípio de Barros. No plano superior, na mesma ordem: Prof. Oliveira Braga; Prof. Lopes Cançavo; Prof. Eurico de Miranda Gomes; Prof. Ferreira de Abreu; Prof. Luiz Quirino de Magalhães Gomes; Prof. Goertz; Prof. Vellozo Rebello; Prof. Francisco Malta; Prof. Anníbal Costa e Prof. Aldimir São Paulo. Foto: Revista Fon-Fon, Ano XVII, Nº 1, Rio de Janeiro, 6 de janeiro de 1923, p. 41.


No dia 8 de agosto de 1925, um sábado, no Salão Nobre do Club Juiz de Fora, Virgílio Maurício proferiu Conferência sobre o famoso escultor mineiro “O Aleijadinho”. Belmiro Braga[i], que faria a sua apresentação ao público, mas não podendo fazê-lo por motivo de viagem, justifica-se em carta, da qual se extrai as seguintes impressões:
“... não é de hoje que sou um grande devoto de tua alma e de teu talento e eu sinto não ter ocasião de dizer em público o que vales como pintor exímio da pena e do pincel. Lê aos meus patrícios estas duas rápidas linhas e recebe as palmas que antecipadamente aqui te envio.  – Abraços do coração do admirador e amigo. ”
Em 1926, realiza uma Exposição no Rio de Janeiro, em que são exigidos 65 quadros. Nesse mesmo ano, forma-se em medicina pela Faculdade do Rio de Janeiro, que havia interrompido em maio de 1912, quando da sua mudança para a Europa.
Em 1932, foi recebido em audiência pelo General Carmona (António Óscar de Fragoso Carmona – 1860-1951), Presidente da República de Portugal. Em Lisboa, foi homenageado pelo Sindicato Nacional de Imprensa, oferecendo-lhe, em sua sede social, um posto de honra. Nessa ocasião, foi saudado pelo escritor e bibliógrafo Albino Forjaz de Sampaio (1884-1949) e por Maria Amélia Teixeira, diretora da revista Portugal Feminina.
ACUSAÇÕES
Seu nome frequentou as colunas dos jornais e revistas do seu tempo com tal profusão que seria capaz de aturdir o mais perspicaz dos pesquisadores, particularmente pela diversidade de opiniões a seu respeito, estabelecendo-se um confronto entre as manifestadas por seus admiradores contra aquelas propaladas por seus críticos, que chegaram até a o acusarem de plagiário.
Diziam, por exemplo, que o seu quadro “Cabeça de velho” era, na verdade, de autoria de Rosalvo Ribeiro. E que Rosália Sandoval, grande poetisa alagoana, teria visto o mestre Rosalvo “retocar” a famosa tela. (Fonte: semanário A.B.C, Ano II, Nº 58, Rio de Janeiro, 15 de abril de 1916.
Do quadro “Assalto a um comboio”, adquirido pela municipalidade de Belém, diziam ser uma cópia do famoso quadro do pintor francês Eduardo Detaille: “L’Assant”.
O pintor Guttmann Bicho, em carta publicada no vespertino Sete Horas, o acusava de comprar quadros de artistas menos conhecidos e neles apor a sua assinatura.
Em contraposição a essas acusações, que não nos é possível aqui apurar se são verdadeiras ou apenas fruto de intriga ou despeito, acorrem em sua defesa muitos cronistas e críticos de arte.
O jornalista Gustavo Barroso, sob o pseudônimo de Jotaenne, emite opinião sobre ele na revista Fon-Fon, de 28 de abril de 1917:
“Virgílio Maurício, o autor de “Aprés le réve” e “L’heure du Gôuter”, que os catálogos franceses estampam, montou seu atelier no Recife e, sem que ali tenha aparecido qualquer artista misterioso, e sem a possibilidade de virem quadros da Europa, pintou uma tela famosa – “Aprés le bal”. Os seus amigos viram-no pintar. Visitantes ilustres surpreenderam-no de palheta na mão, os pinceis osculando as carnes nuas duma figura de mulher em tamanho natural. Toda a capital pernambucana conhece a criatura que lhe serviu de modelo e reconhece nas formas pintadas as formas verdadeiras, salvo as modificações artísticas e imprescindíveis. Da rua do Crespo à da Imperatriz, dos Afogados à Lingueta. Da Madalena ridente e sossegada à Olinda vetusta e monacal, ninguém ignora os fatos aqui sucintamente expostos”.
Ronald de Carvalho, em O Jornal, Rio de Janeiro, 27 de outubro de 1919, p. 6:
“Pesados os argumentos, balanceadas as manifestações pró e contra o Sr. Virgílio Maurício, que restará no conceito de um espírito imparcial, sereno e amigo da verdade? De um lado, a sua obra, de outro um acervo de negações que vão, desde a desconfiança honesta e natural, até a injúria pessoal, párvula e mesquinha. Eu não procuro defender nem atacar o artista em questão, quero deixar patente que só um desejo de justiça move a minha pena, preparada há muito tempo para aplaudi-lo ou vergasta-lo impiedosamente, caso tudo quanto se propala a seu respeito se verifique. ”
Ainda sobre ele falou o cronista Oscar Lopes, n’O Paiz:
“Não há, nunca houve na vida artística do Brasil, fenômeno mais interessante, mais complicado, mais perturbador, e, certas vezes, mais apaixonantes das opiniões do que o que envolve, como uma estranha e disparatada atmosfera, a um tempo de tempestades furibundas e gloriosas iluminações solares, a personalidade de Virgílio Maurício, festejado entusiasticamente por uns como o pintor felicíssimo de alguns quadros de mestre e, por outros, dura e violentamente atacado por lhe emprestarem todo o desplante e toda a criminosa audácia do maior mistificador da nossa época.”
Sobre ele falou o jornalista Costa Rego, em sua coluna de 19 de junho de 1911, no Correio da Manhã:
“Onde o jovem artista brasileiro se revela muito discreto e fiel é nos seus estudos de modelo vivo. Ele não procura poses e atitudes falsas. Seus nus são de um apuro esmerado: não têm exageros de tintas; são, antes, servidos de uma sobriedade excelente, sem efeitos de luz desastrados. Não foram demasias os encômios que Gonzaga Duque, um dos nossos mais reputados críticos de arte, lhe dispensou”.
Romeu de Avelar[ii] também escreveu sobre ele n’O Pharol, jornal mineiro de Juiz de Fora, em 19 de agosto de 1922:
“Virgílio Maurício é, quer queiram quer não, um dos vultos mais concretos de pintores que o Brasil tem tido. Mais tarde, quando morrer o homem, os seus detratores serão os primeiros a colocar-lhe sobre a cabeça silenciosa a palma do acanto – glorificadora inútil da posteridade! ”
RELACIONAMENTO COM A IMPRENSA E A SOCIEDADE

Um fato há que ser ressaltado: Virgílio Maurício sabia muito bem divulgar o seu trabalho. Desde os tempos de Maceió, utilizava-se da amizade com jornalistas para pôr em evidência a sua arte.
Por vezes, em viagem, como na que empreendeu ao Estado do Pará, em 1912, ao parar o vapor “Alagoas” em São Luiz, visitou o jornal Pacotilha, o que motivou a notícia da sua passagem, na edição de 6 de junho daquele ano.
Doutra feita, estando em Portugal, ofereceu ao ganhador um artístico bronze, num jogo entre o Vasco da Gama e o Futebol Clube do Porto, chamado à época de “Portuense”, no Estádio Lima, na cidade do Porto, no dia 19 de julho de 1931, em que o time carioca perdeu por 3 x 1, sob a assistência de 18 mil pessoas.



Virgílio Maurício, em Maceió, entre os jornalistas Leonino Corrêa e Cypriano Jucá. Fonte: O Malho, Nº 522, Ano XI, Rio de Janeiro, 14 de setembro de 1912.

À época da publicação do seu livro Algumas Figuras, reuniu-se com um grupo de amigos, entre eles o poeta, escritor e jornalista Álvaro Moreyra, pai do também jornalista Sandro Moreyra e da jornalista da Rede Globo Sandra Moreyra, falecida ontem.


Virgílio Maurício, em Maceió, entre os jornalistas Leonino Corrêa e Cypriano Jucá. Fonte: O Malho, Nº 522, Ano XI, Rio de Janeiro, 14 de setembro de 1912.

Por ocasião do seu aniversário de 27 anos, a viúva Almirante Velho[i] (Ernestina dos Santos Velho), ofereceu-lhe alegre recepção em sua residência, na Sorocaba, nº 64, em Botafogo. Ao piano, as senhoritas Elvira Leni de Souza e Julinha Dias; em harpa, a virtuosa senhora Sinay; ao violino Júlio Nascimento; Mimi Andrade, executou composições francesas. Após o concerto, a dança até de manhã: presentes: Senhoritas Palmyra Leal de Souza; Julieta Velho, Julinha Dias, Mimi de Andrade, Eugênia Keller, Marieta Velho, Sulamita da Cunha, Celina de Aquino e Castro e Miryan Sinay. Senhoras: Viúva Almirante Velho, Madame Ministro Navarro, madame Andrade Leal de Souza. Cavalheiros: Comandante Velho Sobrinho, Comandante Leal de Souza, Clyto de Souza Lima, Luciano Saldanha, Gomes Barbosa, Dionísio Dutra, Eurico Mattos, Pontual Machado, Manoel Souza Lima, Antônio Reis Keller, Júlio Nascimento, etc.


Recepção a Virgílio Maurício (5º em pé, da esquerda para a direita) na residência da Madame Viúva Almirante Velho (Antônio Francisco Velho), por ocasião do seu aniversário, em 4 de abril de 1919.O 7º é Pontual Machado. Fonte: Revista Fon-Fon, Ano XIII, Nº 16, Rio de Janeiro, 19 de abril de 1919, p. 37.

No dia 5 de agosto de 1923, Virgílio Maurício ofereceu um almoço, no Palacete Hotel, ao colega jornalista Victor Hugo Aranha, Secretário do jornal carioca Gazeta de Notícias. Lá estavam: o Mal. Carneiro da Fontoura, Chefe de Política; o Dr. Wladimir Bernardes, que se tornaria no ano seguinte sétimo Presidente da CBD-Confederação Brasileira de Desportos; o Senador alagoano Euzébio de Andrade; os poetas Amadeu Amaral, Olegário Mariano, Osório Duque Estrada e Coelho Netto; Claudio de Souza; os jornalistas Cândido Campos, Porto da Silveira; Álvaro Moreyra; Georgino Avelino; Belisário de Souza; e Dr. Maurício Sobrinho, médico primo do Virgílio Maurício.


Da esquerda para a direita: Dr. Antônio Eugênio Arêa-Leão; Virgílio Maurício; Dr. Joaquim Vidal; Dr. Duarte Pinto; Dom José Maurício da Rocha - bispo de Corumbá, irmão de V. M.; Dr. Raul Leitão da Cunha; o Engenheiro Miguel Maurício da Rocha, também irmão de V. M. Fonte: Revista da Semana, Ano XXV, nº 48, Rio de Janeiro, 22 de novembro de 1924, p. 29.

Não raro, deixava-se ouvir ao piano, como em uma homenagem que o governador catarinense Hercílio Luz prestou a Dom Joaquim de Oliveira, Bispo de Florianópolis, no dia 4 de dezembro de 1921. Na ocasião, executou “Adágio da Sonata Clair de Lune”, de Beethoven e um “Estudo para a Rhapsódia” de Listz.
O ÚLTIMO ANO.
Ainda no início do ano de 1937, foi acometido de uma infecção no olho esquerdo, que o afastou de suas atividades artísticas e literárias por um bom período, conforme noticia o JORNAL PEQUENO, de 12 de janeiro daquele ano; funda a revista O MENSÁRIO DA ARTE, em São Paulo e participa da exposição do Grupo Almeida Junior, no Palácio das Arcadas, em São Paulo.
Faleceu no dia 14 de dezembro de 1937, na Casa de Saúde São Lucas, em Belo Horizonte, no momento em que se submetia a uma operação.
Findava assim uma vida, pode-se dizer breve; mas intensamente vivida desse filho de Lagoa da Canoa. Aliás, essa terra alagoana, hoje um município de 18.343 habitantes, revelou grandes artistas e literatos: além do próprio Virgílio Maurício, os seus irmãos: Dom José Maurício da Rocha, bispo de Corumbá e Bragança Paulista; Miguel Maurício da Rocha, Matemático e professor da Escola de Minas de Ouro Preto e banqueiro (Acionista e Diretor do Banco da Lavoura em São Paulo. Esse Banco foi, na década de 1970, dividido em dois: Banco Real e depois Santander; e Bandeirante, depois Unibanco e depois Itaú); Agnelo Rodrigues de Melo, jornalista e poeta, que usava o pseudônimo de Judas Isgorogota; e o músico Hermeto Pascoal.
Nas suas múltiplas atividades, foi jornalista e crítico de arte, escrevendo para os jornais A Gazeta (SP), A Época (RJ); A Batalha; A Gazeta (SP), A Época (RJ), A Batalha, entre outros. Foi ainda Diretor da sucursal paulista da revista O Mundo Ilustrado.
Escreveu os livros: Algumas Figuras, Outras Figuras, O Trapézio da Vida, Da Mulher, Ouvindo a Ciência e Treze Meses em Portugal.
Pouco lembrado em sua terra, registre-se que há uma rua com seu nome (Rua Virgílio Maurício da Rocha na Chã do Bebedouro).


PARTE DE SUA OBRA:

Cabeça de velho. Fonte: revista Fon-Fon.

Amolando a foice. Gazeta de Notícias, 04.05.1912.

Couraceiros franceses. Revista FON-FON, Ano VIII, Nº 48, Rio de Janeiro, 28 de novembro de 1914, p. 27.
Recebendo a visita do mestre francês Jean Paul Laurens em seu atelier à Rue de Beaux-Arts, em Paris. Fonte: Revista Fon-Fon, Nº 46, Rio de Janeiro, 15 de novembro de 1914, p. 60.

Atelier de Virgílio Maurício, vendo-se o famoso quadro “Depois do baile”. Revista da Semana, Ano XIX, Nº 12, Rio de Janeiro, 27 de abril de 1918, p. 21.


Depois do Banho

DIVA, quadro de V. M_Jornal Pequeno_25.04.1936,


Mulher francesa. O Malho, Ano X, RJ, 5 de agosto de 1911. p. 47.

Virgilio Maurício, “Après le revê” - Depois do sonho, 1912, Pin. Est. SP

Virgílio Maurício. L'heure de gouter, tela, 1914, Pinacoteca de SP

Virgílio Maurício. L'heure de gouter, tela, 1914, Pinacoteca de SP

Sinfonia de pedras. Revista da Semana, ano XXXIV, nº 13, 11 de março de 1933.



 Saudade.




5 de agosto de 1923. Flagrante do almoço, no Palacete Hotel, oferecido por Virgílio Maurício (2º sentado, da esquerda para a direita) ao também jornalista Victor Hugo Aranha (4º na mesma ordem). O 5º é Joaquim Osório Duque Estrada e o último é Álvaro Moreyra. O 3º em pé, da esquerda para a direita, é o poeta Olegário Mariano. Foto: Para Todos, 4 de agosto de 1923, p. 37.





[i] Ernestina dos Santos Velho, viúva do Almirante Antônio Francisco Velho, falecido em 15 de fevereiro de 1915. Ele era um dos remanescentes da Guerra do Paraguai e participou da célebre “passagem de Humaitá”. Fonte: A Noite, 15 de fevereiro de 1915.



[i] Belmiro Ferreira Braga, grande poeta mineiro nascido em Vargem Grande (Juiz de Fora), atual município de Belmiro Braga, a 7 de janeiro de 1872 e falecido em 31 de março de 1937.

[ii] Nome literário de LUIZ DE ARAÚJO MORAIS, escritor, jornalista e historiador alagoano, nascido em São Miguel dos Campos a 23 de março de 1893 e falecido em Leopoldina, a 20 de dezembro de 1972.



[i] João Alfredo Pereira Rego, jornalista e advogado, faleceu no Rio de Janeiro a 1º de junho de 1943, atropelado por um ônibus quando, descendo de um bonde, atravessava a Rua 13 de Maio, esquina com a Avenida Almirante Barroso, em direção à sede do jornal O Globo. Segundo notícias da época, ele, já agonizante, teria feito um último pedido: um beijo de uma jovem que tentava socorre-lo. Esse fato real foi aproveitado pelo dramaturgo Nelson Rodrigues que, em sua peça “O Beijo no Asfalto”, colocou um homem em lugar da moça.




[i] Em 1910, estava no 2º ano de Medicina. Notícia publicada no jornal Pharol, Rio de Janeiro, 11 de julho de 1911, registra a sua visita à redação daquele jornal, como “acadêmico de Medicina”, em companhia dos colegas Paulo Alvin Rezende e Alexandre de Oliveira e Salles.



segunda-feira, outubro 12

BALÕES NO CÉU DE MACEIÓ

Por Etevaldo Amorim

Mesmo depois de Santos Dumont conseguir a dirigibilidade dos balões, os voos em balões convencionais, os chamados aeróstatos, continuaram a acontecer e, em muitos casos, por mera exibição.
Foi assim que, num final da tarde do dia 23 de fevereiro de 1908, lá pelas 17:50 h, a aeronauta portuguesa Laurinda Silva, subiu aos céus de Maceió a bordo de um balão denominado Granada.
A ascensão teve lugar na Praça Euclides Malta, atual Sinimbu, tendo como ponto de partida a área interna do Lyceu de Artes e Ofícios. O balão, que seguia o modelo inventado pelos irmãos franceses Joseph Michel e Jacques-Èienne Montgolfier, era propriedade do Sr. Magalhães Costa, também aeronauta.
O fotógrafo amador Luiz da Rosa Machado, gerente da Empresa telefônica, foi extremamente feliz ao registrar esse fato. Postado na margem esquerda do riacho Maceió (hoje Salgadinho), de costas para o mar, ele revelou a Maceió do início do Século XX. Mostra, em primeiro plano, o riacho passando sob a Ponte dos Fonseca; mais além a estação da Companhia de Trilhos Urbanos e o Lyceu de Artes e Ofícios. Ao fundo, o morro da Jacutinga, destacando-se o Farol, o mastro de sinais semafóricos e, entre estes, a casa do faroleiro.
Segundo o jornal Gutenberg, vários fotógrafos amadores registraram o fato, mas nenhum tão feliz como Rosa Machado. O seu trabalho ficou exposto na redação do jornal Gutenberg por vários dias.
O balão atingiu a altura de 950 metros, indo cair nas imediações do Matadouro Público, depois de atravessar a cidade de Norte a Sul.
Uma nova subida chegou a ser anunciada para o dia 8 de março, dessa feita tendo como partida a Praça dos Martírios. Porém, alegando motivos de segurança, Laurinda desistiu e se desligou da empresa do Balão Granada.
Pça dos Martírios, Maceió, 1908. Preparativos para ascensão do balão
Granada. Revista do Brasil (BA), 15/08/1908, p. 7.Foto: L. Machado.

O jornal Gutenberg, de 29 de fevereiro, tirou uma onda com a situação, simulando uma carta pretensamente escrita por um dos irmãos Montgolfier:
“O público alagoano já admirou a intrepidez assombrosa dessa a quem ele, num momento de alto entusiasmo, denominou Rainha dos Ares. Desse modo, guarda e conservará a melhor impressão.
O que se faz mister a apresentar-se o Sr. Capitão Magalhães Costa que, a julgar pela leitura dos jornais do Norte e do Sul do país, é um aeronauta de tirocínio. Suba agora Sua Senhoria. Não lhe são absolutamente estranhas as ascensões pois que ele, ao que se diz, já as tem feito em número de 59.
A cidade de Maceió bem merece expectar uma dessas arriscadas sortes do intrépido navegador do espaço.
O Capitão Magalhães Costa bem poderia fazer na terra alagoana a sexagésima ascensão.
O público maceioense já sabe que a Srª Laurinda Silva é de uma coragem espantosa a orçar pelas raias da mais perfeita loucura.Venha agora, Sr. Redator, a ascensão do bravo Capitão aeróstata Magalhães Costa! A Rainha dos Ares já nos deu um sucesso.
Que nos diz a isso o maquinista do balão, o álacre Sr. Romero?
De certo concordará e dirá ao Capitão:
— Ahora se marchará usted, Guilherme! Como non?!
— Bueno! Concluirá o povo.
E aqui fico. Atenciosamente.
(a) Montgolfier.”
Com a desistência de Laurinda, a empresa escalou o árabe Felippe Manuel, que dela já fazia parte, para uma ascensão no dia 15.
No dia marcado, Praça cheia de gente, subiu o Sr. Felippe. O balão subiu rapidamente até bem acima do sobrado do Sr. Pontes de Miranda. Daí em diante, foi baixando até quase tocar na chaminé da usina da Nova Empresa Luz Elétrica. E diz o Gutenberg: “O aeróstato baixava, como de fato baixou, num dos sítios da Cambona, perto dos Martírios, pouco além dos biombos do Paulo. ” [i]
No trajeto, enroscou nas palhas dos coqueiros, momento em que, estando o a cestinha do piloto bem perto do solo, este saltou e saiu ileso. Aliviado do peso, o balão voltou a subir e seguiu na direção do Flexal para depois cair na lagoa do Bebedouro.

Laurinda Silva e o Balão Granada. Foto Luiz da Rosa Machado. Fonte: Revista O Malho,
Ano VII, Nº 291, 11 de abril de 1908, p. 25. Disponível em: memoria.bn.br



Guilherme Antônio Magalhães Costa. Fonte; Revista Fon-Fon,
Ano VIII, nº 3, 17 de janeiro de 1914, p. 14. 











[i]Biombos do Paulo” eram casebres de propriedade do Sr. Paulo José de Azevedo, situados na Rua Coronel Paes Pinto, atualmente denominada Dr. Francisco de Menezes, por onde passa a linha férrea.











Guilherme Antônio Magalhães Costa. Fonte; Revista Fon-Fon, Ano VIII, nº3, 17 de janeiro de 1914, p. 14. Disponível em: memoria.bn.br.


Foto: revista O Malho, Ano VII, Nº 291, 11 de abril de 1908, p. 25. Disponível em: memoria.bn.br.




quarta-feira, outubro 7

PROTESTANTISMO EM PÃO DE AÇÚCAR - AS ORIGENS

Por Etevaldo Amorim

O vapor Maceió, da Companhia Pernambucana, cumprindo a viagem regular de todas as semanas, aporta em Pão de Açúcar no dia 19 de julho de 1887 trazendo entre os passageiros o Reverendo John Rockwell Smith com sua esposa e filhos, entre eles o pequeno James, de 5 anos. Desembarca na jovem cidade do sertão sanfranciscano com a mesma disposição com que desembarcara no Recife catorze anos antes.
O tempo decorrido no percurso entre o porto e a cidade, caminhando sobre o extenso areal, teria sido suficiente para relembrar o seu desembarque do paquete a vapor Ontário, em 15 de janeiro de 1873, depois de uma viagem de trinta e três dias. O jovem missionário de 27 anos, nascido em Lexington, Kentucky, EUA, a 29 de dezembro de 1846, fora graduado pelo Union Theological Seminary, na Virginia, dois anos antes.  Ainda a bordo, fez pregação para a tripulação e passageiros, inclusive para um grupo de náufragos do "EIRE" (navio irmão do "ONTARIO"), que naufragara a 60 milhas da costa na madrugada do dia 2 de janeiro de 1873.
Na Capital pernambucana, residindo num sobrado de número 31 da Rua do Imperador (hoje 15 de novembro), enfrentou muitas dificuldades, inclusive com a novo idioma, mas foi aos poucos lançando a semente da Igreja Evangélica no Nordeste. Sua atuação obteve credibilidade, a ponto de conseguir o reconhecimento das autoridades do Governo de Pernambuco, conforme se lê nessa edição de A Província, Recife, 11 de abril de 1878, p. 4:

EDITAL

4ª Secção – Secretaria da Presidência de Pernambuco, 6 de abril de 1878.
Por esta Secretaria, se faz público, de conformidade com o Aviso do Ministério dos Negócios do Império, de 10 de fevereiro de 1864, que, nos termos dos Artigos 52 e 58 do Decreto nº 3.068, de 17 de abril e Aviso Circular nº 483, de 10 de outubro de 1863, foi registrado hoje nesta Repartição o título de Ministro da Religião Evangélica, conferido ao Reverendo John Rockwell Smith.
O Secretário Interino
Francisco Amynthas de Carvalho Moura”

Agora estava ele naquela pequena cidade do Sertão de Alagoas, e já no dia 18 de agosto procederam à organização da Igreja. Nesse dia o Rev. Smith pregou sobre Mateus, Capítulo 28, Versículo 18:

18. E, aproximando-se Jesus, falou-lhes, dizendo: ‘Foi-me dada toda a autoridade no céu e na terra’.
19. Portanto, ide, fazei discípulos de todas as nações, batizando-os em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo;
20. Ensinando-os a observar todas as coisas que eu vos tenho mandado; e eis que eu estou convosco todos os dias, até a consumação dos séculos. ”

Amparado nessas palavras, o Rev. José Francisco Primênio da Silva[i], que compunha a comitiva evangelizadora, batizou 16 adultos e 13 menores. Logo mais, à noite, o Dr. Smith batizou mais três adultos e mais três menores na noite seguinte. A organização da Igreja em Pão de Açúcar foi noticiada pelo jornal A Imprensa Evangélica – São Paulo, edição de 22 de outubro de 1887:
Nova igreja. Na cidade de Pão de Assúcar, Província das Alagoas, acaba de ser inaugurada, pelos rvds. Smith e José Primênio, uma igreja evangélica com 35 membros, sendo 18 adultos e 17 menores. ”

Entretanto, a palavra dos protestantes não era de todo desconhecida dos pão-de-açucarenses. O Jornal do Penedo, em sua edição de 18 de outubro de 1878, p. 4, já advertia os católicos da Região sobre o “perigo” protestante:
           
AVISO AOS CATÓLICOS. Consta-nos, com toda a certeza, que a Bíblia anunciada à venda nesta cidade é protestante, cuja herética seita, inimiga acérrima do catolicismo, não cessa de esforçar-se para perturbar-nos na pacífica posse da verdadeira Religião; vimos avisar aos Católicos que se previnam contra os esforços dessa malévola propaganda, não lendo nem comprando os seus livros heréticos que não podem ser incorridos sem incorrer na grave censura de excomunhão maior. Penedo, 10 de setembro de 1878. Um católico.
           
Em 14 de junho de 1879, o mesmo jornal penedense estampava em primeira página:

“PREVINAM-SE OS PROPRIAENSES. Soubemos, por intermédio de pessoa fidedigna, que um emissário protestante, munido de seus raquíticos folhetos e bíblias truncadas, partiu ultimamente desta cidade para a de Propriá, a fim de fazer ali propaganda. Os habitantes daquela leal cidade previnam-se com tempo e entreguem ao devido desprezo o lobo vestido em peles de cordeiro. ”

Em 25 de julho do mesmo ano, a imprensa regional dava grande repercussão à presença de pregadores evangélicos, como nessa nota do Jornal do Penedo, edição de 25 de julho de 1879, p. 2, citando O Paulo Affonso, publicado em Pão de Açúcar:

PROTESTANTISMO. Sob esta epígrafe, noticiou O Paulo Affonso (um dos órgãos da imprensa moralizada do País), haver aportado à Pão de Açúcar um hóspede perigoso, enviado pela SEITA protestântica, curvado ao peso de suas Bíblias falsificadas, que embalde procurou ali impingir como ortodoxas. E acrescenta a mesma Gazeta que o povo pão-de-açucarense, fino como lagoya, não se deixou facilmente pregar o mono por aquele audaz emissário, repelindo suas artimanhas com a devida energia, segundo lhes ditava a própria consciência de verdadeiros crentes.
Saudando, pois, cordial e sinceramente aos nobres católicos daquela ilustre cidade, e em modo especial ao seu digníssimo Pároco, que tão bem se houve nesta conjuntura, ajuntaremos o que mais de uma vez temos repetido: Triste e inglória é a missão do lobo vestido em peles de cordeiro!

Assim também o jornal pão-de-açucarense O PAULO AFFONSO, em sua edição de 6 de julho de 1879, p. 4 anunciava:

PROTESTANTISMO. Ultimamente esteve nesta cidade um enviado da seita protestante procurando vender bíblias falsas e distribuindo “memorandos” que negam os dogmas mais santos da nossa religião. Felizmente, esse correio do erro, percorrendo duas vezes as ruas, voltou para casa por não ter encontrado quem o assistisse.
É digno de louvor a atitude dos católicos desta cidade, repelindo, como repelirão as artimanhas daquele discípulo de Luthero.
O nosso Pároco, por sua vez, na ocasião da missa conventual, avisou aos seus paroquianos para que se prevenisse e não fizessem compras das ditas Bíblias, em vista do anátema que pesa sobre a pessoa que a lê. ”

O Jornal do Penedo, edição de 21 de maio de 1880, diz que os protestantes eram Martiniano e Jerônymo. Este último, hospedado em casa do Tenente José Rodrigues da Cruz, promovia cultos evangélicos aos domingos.              O pároco concitou os fiéis católicos a que “fugissem do Jerônymo e não quisessem saber de seus livros malditos”. E relata o correspondente, de nome Fontenelle:

Porém esses, de que já falamos, com outros, entenderam que essas falsas noções daquele enviado deviam destruir a fé que pelos nossos antepassados nos foi legada; e dessa maneira, fazendo eles uma guerra acérrima, deram lugar a que uma certa parte da população tenham encarregado-se em número de duzentas e às vezes de mais de trezentas pessoas, nos dias de culto, a toque de zabumba e pífanos, de embaraçá-los em suas infernais orações. Ainda no domingo último, o povo que tinha à frente aquela música campestre, cheio de prazer ou delírio, ao troar de numerosos foguetes e dando vivas a nossa Santa Religião, saiu pelas ruas à procura dos Luteranos, a fim de embaraçarem a celebração do culto e tomarem seus livros para exterminá-los. Finalmente encontraram os tais pregadores em casa do Sr. Vicente Patrício de onde esses puderam evadir-se para a casa do Sr. Cel. João Machado; e graças à prudência de diversas pessoas gradas desta cidade, deixou aquela noite de haver um sério conflito.

O Jerônymo seria, por certo, Jerônymo Lucas Acácio de Oliveira, que militou na região do São Francisco; e o coronel João Machado era João Machado de Novaes Mello, o Barão de Piaçabuçu.
Já em janeiro de 1884, aconteciam cultos evangélicos, os únicos em Alagoas, inclusive com depósitos de Escrituras Sagradas, conforme anúncios estampados no jornal “Imprensa Evangélica”, órgão oficial da Igreja Presbiteriana, editado em São Paulo, com publicação no primeiro e no terceiro sábado de cada mês. Notícias de jornal, com esta do Gutenberg, de 5 de outubro de 1887, p. 3, dão conta de que, já àquela época, havia cultos evangélicos em Maceió, na Rua São José nº 2; em Quebrangulo e em Pão de Açúcar, “nos Meirus – Sítio Amorim”.  Também havia cultos na Igreja Presbiteriana, Rua da Água Negra, na Levada. Em 1905, na Rua do Bom Conselho, 58, também na Levada. Depois, já em 1909, situava-se na Rua Barão de Maceió, 101.
A reação às novas doutrinas se espalharam pelo país. No jornal O Apóstolo, folha católica publicada no Rio de Janeiro, edição de 2 de outubro de 1887, reproduz notícia de O Trabalho, publicado em Pão de Açúcar, nos seguintes termos:

PROTESTANTISMO. Na cidade de Pão de Açúcar (Alagoas), acha-se um ministro protestante tão perverso quanto ignorante. Abusando da boa fé do povo, perturbando as consciências e pregando as mais perigosas doutrinas, tem arrebanhado alguns tolos que, acreditando nas palavras do filho de Luthero, têm sido rebatizados por aquele lobo voraz. E continua: Esse procedimento é a última palavra da abjuração daqueles que haviam recebido, desde o berço, o cunho da fé segundo as doutrinas da nossa Igreja Católica Apostólica Romana. Abjuraram o batismo da igreja de seus pais. Sua alma, sua palma. ”

Segundo Vicente Themudo Lessa[ii], durante a permanência dos missionários em Pão de Açúcar, a intolerância se fez sentir na pitoresca cidade do S. Francisco. Relata ele, nos Anais da 1ª Igreja Presbiteriana de São Paulo:

Contava-me D. Carolina Smith que, à noite, se via obrigada a proteger com toldos e coberturas o leito dos seus meninos para resguardá-los das pedras que varavam o telhado. ”

Ficaram hospedados na própria Casa de Orações, na Rua da Praia 54, hoje Av. Ferreira de Novaes.  A Madame Susan Carolina Porter Smith, para não ver o esposo ser hostilizado na rua, sempre o acompanhava, atitude esta que inibia a ação de intolerantes.

Ainda segundo Vicente Themudo Lessa:

"Possuía o Dr. Smith vasta cultura teológica. seus conhecimentos se fortaleciam na sua rica biblioteca, acrescida constantemente. No púlpito, instruía os fiéis em sermões profundamente doutrinários. O pecado e suas consequências era um dos seus temas prediletos. Calvinista rígido. Figura empolgante.Olhos de foto como os do reformador... Pregava longos sermões, de cinquenta minutos pelo menos".

A atuação da Igreja Presbiteriana[iii] em Pão de Açúcar teve prosseguimento com a chegada do Reverendo Juventino Marinho da Silva, em dezembro de 1891. Partindo do Recife “com o fim de tomar conta da igreja ali, na qualidade de evangelista, conforme resolveu o presbitério de Pernambuco, ali permaneceu até o início de 1894[iv]. O jornal Imprensa Evangélica, reproduzindo notícia de O Trabalho, de Pão de Açúcar, da conta da chegada do novo pastor, que substituiria Francisco Philadelpho Pontes.
No dia 15 de outubro de 1899, conforme notícia do jornal O Puritano, editado no Rio de Janeiro em 9 de janeiro de 1902, foi fundada uma Sociedade Auxiliadora das Senhoras da Igreja Presbiteriana de Pão de Açúcar. Por convocação do Reverendo Lourenço de Barros[v] e dos irmãos Major Emílio de Moraes e José Corrêa de Albuquerque, reuniram-se trinta e duas senhoras, que elegeram a seguinte Diretoria: Presidente: Aurora de Souza Albuquerque; Vice-Presidente: Carolina Damasceno Ribeiro; 1ª Secretária: Olívia Augusta de Campos; 2ª Secretária: Benvinda da Silva Rabelo; Tesoureira: Esther de Campos; Oradora Oficial: Euridyce de Moraes; e Oradora Substituta: Eliza Campos. Nesse mesmo ano, a 17 de novembro, um domingo, foi batizada a senhora Laurinda da Luz, esposa de Antônio Pereira da Luz.
Somente a 10 de março de 1903 aconteceu a leitura dos Estatutos da Igreja (já então denominada Presbyteriana Independente), organizado pelo Reverendo Martinho de Oliveira, que se encontrava em visita a Pão de Açúcar desde o dia 2 daquele mês. Nessa ocasião, foram batizadas as crianças: Elyseu, Perolina,  Carolina e Aurelina, filho e filhas do diácono João Bezerra Lima Filho; Emílio, Antônio e Elisa, filhos e filha do diácono Antônio Damasceno Ribeiro; e Aurora, filha do presbítero Corrêa. No dia 22 de janeiro, o missionário Marinho embarcou para Penedo no vapor Sinimbu.
No dia 9 de maio de 1903, aconteceu o primeiro casamento na Igreja Presbiteriana de Pão de Açúcar (O Puritano, edição de 4 de junho de 1903). Casaram-se, na residência dos pais da noiva, Júlio Rabello da Silva e Olívia de Campos, tendo como oficiante o presbítero Emílio de Moraes, e como testemunhas, pela noiva: o diácono Antônio Damasceno Ribeiro e Eliza de Campos e, pelo noivo: o presbítero José Corrêa de Albuquerque e Alice Damasceno Moraes. O correspondente Odilon Moraes conclui informando que, no dia 11, seguiu o jovem casal para Belém do Pará.
Já no início da década de 1920, existia um templo construído em Pão de Açúcar. Essa notinha do jornal Diário de Pernambuco (17 de setembro de 1922, p. 6), falando do Reverendo J. R. Smith e da disseminação da doutrina protestante em Alagoas, citando algumas cidades como Pão de Açúcar, Vitória (atual Quebrangulo), Rio Largo e Maceió, assim se refere:

“Nos outros lugares citados e notadamente em Pão de Açúcar, onde há o mais belo e amplo dos templos evangélicos de Alagoas, também a congregação dos fiéis vai aumentando consideravelmente, graças a um trabalho pertinaz de propaganda oral e escrita fartamente subsidiada pelo ouro dos yankees.”

Desde então, muitas outras Igrejas se instalaram em Pão de Açúcar, com designações as mais diversas, tais como: Assembleia de Deus; Igreja Batista; Igreja Universal do Reino de Deus; Salão do Reino das Testemunhas de Jeová; Ministério Pentecostal Celebrai ao Senhor; e a Igreja Pentecostal Refúgio Contra Ventos e Tempestades.
Denominações à parte, todas elas devem àqueles pioneiros o direito à livre manifestação religiosa, conquistado à custa desses primeiros esforços de evangelização.


Rev. J. R. Smith

Susan Carolina Porter

Juventino Marinho

Francisco José Primênio

Emílio José de Moraes


Antônio Damasceno Ribeiro
(Acervo de Roberto Menezes de Moraes)

Emílio Damasceno Ribeiro
(Acervo de Roberto Menezes de Moraes)

Odilon Damasceno Ribeiro

Vicente Themudo Lessa

Templo da Igreja Presbiteriana Independente. Pão de Açúcar, 1946.
(Foto: João Damasceno Lisboa)

Um encontro no Rio de Janeiro. Em pé. 1. Nicolau Covino, casado com Eurydice Damasceno de Moraes; 2. Laurindo; 3. Emílio Damasceno Ribeiro; 4. Presbitero Paulo Provenza; 5. Otoniel Amaral; 6. Não identificado. Sentados: 1. Reverendo Walter; 2. Revdo. Vicente Themudo Lessa; 3. Reverendo Odilon de Moraes; 4. Else Gravestein Borges de Moraes, mulher de Odilon de Moraes; 5 e 6: dois pastores estrangeiros. (Acervo de Roberto Menezes de Moraes)












[i] Ex-professor público em Alagoas. Filho Francisco José da Silva (falecido em 9 de junho de 1881) e de Anna Joaquina, nascida a 2 de maio de 1819 na vila de Taquaritinga , Capitania de Pernambuco e falecida a 17 de janeiro de 1892. Era filha do Capitão José Quaresma Cavalcante e neta paterna do velho judeu português Francisco Quaresma de Mafra (Imprensa Evangélica, 27 de fevereiro de 1892, p. 8). Primênio, em 1884 já ministrava conferências em Maceió, como uma anunciada para a Rua Boa Vista, nº 103, no jornal Diário da Manhã, edição de 14 de dezembro de 1884, p. 3.
[ii] Vicente Rêgo Themudo Lessa, pastor protestante nascido no engenho Estrela do Norte, município de Palmares-PE em 22 de janeiro de 1874 e falecido 19 de novembro de 1939, era pai do escritor Orígenes Lessa (autor do romance O Feijão e o Sonho, que virou novela das seis na Globo em 1978) e avô do jornalista Ivan Lessa, que atuou por muito tempo no jornal alternativo O Pasquim.
[iii] MEMBROS DA IGREJA PRESBITERIANA INDEPENDENTE DE PÃO DE AÇÚCAR DESDE SUA FUNDAÇÃO: José Antônio da Silva; Maria José dos Santos; Emílio José de Moraes – Presbítero; João Bezerra Lima – Presbítero; José Correia de Albuquerque – Presbítero; Antônio Damasceno Ribeiro – Diácono; João Bezerra Lima Filho – Diácono; Emygdio Bezerra Lima – Diácono; Carolina Damasceno Moraes; Aline Damasceno Moraes; Eurydice Damasceno Moraes; Odilon Damasceno Moraes; Hercílio Damasceno Moraes; Giralcina Damasceno Moraes; Maria da Glória S. de Souza; Aurora de Souza de Albuquerque; Carolina Aurelina de Souza; Regisvinda Marques de Albuquerque; Joaquina Bezerra Lima; Libânia Bezerra Lima; Thereza de Jesus Lyra; Olívia Augusta de Campos; Elisa Campos; Esther Campos; Maria Rosa Leal; Hermelinda Leal; José Rodrigues da Cruz; Maria Bárbara; Maria Bezerra Lima; João Damasceno Moraes; Antônio Damasceno Ribeiro; Osias Damasceno Ribeiro; Maria Ignez de Lima (Maria Ignez C. da Silva), esposa de Emydio B. Lima; Neomésia de Moraes Leal; Elyseu de Moraes Leal; Esther de A. Souza; João Hipólito de Souza; Gedálio Bezerra Lima; Antônia Rosa de Albuquerque; Delfina Rosa de Moraes Ribeiro, batizada por Tehemudo Lessa em 1904; Mathilde Duarte de Albuquerque; Antônio Pereira da Luz; Laurinda da Luz; Sabina Rabello; Bemvinda Rabello; Maria da Glória Rabello; Ernestina Rabello; Laura Bezerra Lima; Otília Bonfim; Athayde José dos Santos; Isabel Soares Pinto; Miguel Gonçalves Lima; Jugurta Gonçalves Lima; José Venâncio Filho; Palmira Oliveira; Odilon Rodrigues de Melo; Antônio Alves da Silva; Maria Luiza da Silva; Temístocles Costa; Amélia Costa Sarmento; Antônia Duarte de Albuquerque.
[iv] Imprensa Evangélica, edição de 5 de dezembro de 1891.
[v] No dia 21 de julho de 1902 partia o Reverendo Lourenço de Barros de Pão de Açúcar para Manaus, deixando a família em Pão de Açúcar.


A POESIA DE PÃO DE AÇÚCAR



PÃO DE AÇÚCAR


Marcus Vinícius*


Meu mundo bom

De mandacarus

E Xique-xiques;

Minha distante carícia

Onde o São Francisco

Provoca sempre

Uma mensagem de saudade.


Jaciobá,

De Manoel Rego, a exponência;

De Bráulio Cavalcante, o mártir;

De Nezinho (o Cego), a música.


Jaciobá,

Da poesia romântica

De Vinícius Ligianus;

Da parnasiana de Bem Gum.


Jaciobá,

Das regências dos maestros

Abílio e Nozinho.


Pão de Açúcar,

Vejo o exagero do violão

De Adail Simas;

Vejo acordes tão belos

De Paulo Alves e Zequinha.

O cavaquinho harmonioso

De João de Santa,

Que beleza!

O pandeiro inquieto

De Zé Negão

Naquele rítmo de extasiar;

Saudade infinita

De Agobar Feitosa

(não é bom lembrar...)


Pão de Açúcar

Dos emigrantes

Roberto Alvim,

Eraldo Lacet,

Zé Amaral...

Verdadeiros jaciobenses.

E mais:

As peixadas de Evenus Luz,

Aquele que tem a “estrela”

Sem conhecê-la.


Pão de Açúcar

Dos que saíram:

Zaluar Santana,

Américo Castro,

Darras Nóia,

Manoel Passinha.


Pão de Açúcar

Dos que ficaram:

Luizinho Machado

(a educação personificada)

E João Lisboa

(do Cristo Redentor)

A grandiosa jóia.


Pão de Açúcar,

Meu mundo distante

De Cáctus

E águas santas.

______________

Marcus Vinícius Maciel Mendonça(Ícaro)

(*) Pão de Açúcar(AL), 14.02.1937

(+) Maceió (AL), 07.05.1976

Publicado no livro: Pão de Açúcar, cem anos de poesia.


*****


PÃO DE AÇÚCAR


Dorme, cidade branca, silenciosa e triste.

Dum balcão de janela eu velo o seu dormir.

Nas tuas ermas ruas somente o pó existe,

O pó que o vendaval deixou no chão cair.


Dorme, cidade branca, do céu a lua assiste

O teu profundo sono num divino sorrir.

Só de silêncio e sonhos o teu viver consiste,

Sob um manto de estrelas trêmulas a luzir.


Assim, amortecida, tú guardas teus mistérios.

Teus jardins se parecem com vastos cemitérios

Por onde as brisas passam em brando sussurrar.


Aqui e ali tu tens um alto campanário,

Que dá maior relevo ao pálido cenário

Do teu calmo dormir em noite de luar.

____

Ben Gum, pseudônimo de José Mendes

Guimarães - Zequinha Guimarães.






PUBLICAÇÕES

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Pão de Açúcar, Cem Anos de Poesia