sábado, julho 30

PAIXÃO FURIOSA

Hormino Lyra[i]

Fazenda de Lagoa das Pedras, Sul de Alagoas, Município de Pão de Açúcar.
Manoel Lisboa, seu proprietário, tinha confiança ilimitada no vaqueiro.
João Lino, homem de trinta e quatro anos de idade, em verdade, era tipo sério; não mentia, nem contra si. Ganhou a confiança do fazendeiro e resolvia qualquer negócio em sua ausência.
Não se casou. Havia muito, acompanhava os passos da filha unigênita de Lisboa, e tinha a cisma de se casar com ela. Conhecia os negócios da fazenda de gado, e melhor partido não encontraria a moça.
Rosa, que inveja causaria a todas as rosas dos jardins, muito jovem, muito linda, de singeleza impressionante, não era namoradeira. Sisuda, gênio reconcentrado, vivia sempre ao lado da boa mãe, sem ter preocupação ainda com o problema social do casamento. Achava-se muito criança para resolver tão complicado caso.
Do mesmo modo não pensava Lino, tanto que uma vez, quando teve oportunidade, lhe falou jeitosamente acerca de seus desejos.
Assustou-se a moça com a conversa do vaqueiro, e não lhe deu resposta. Nunca tinha idealizado o homem que a devia possuir, mas, com certeza, não era aquele.
Molestou-se Lino com a falta de consideração da moça. O pai o considerava tanto, porque não haveria ela de imitar o bom exemplo do velho?! Não se conformou, e insistiu muitas vezes, até que lhe disse Rosa seria melhor mudar ele de assunto, e procurar outra. Ela, com certeza, não tinha pensado em casamento; mas, ainda quando pensasse, não entraria o vaqueiro em suas cogitações. Não perdesse tempo, porquanto era inabalável a sua resolução.
Voltou Lino, pouco tempo depois, a revolver o passado e, agora, mais impetuoso, tinha também sua resolução inabalável: casar-se com Rosa ou morrer. Ela, porém, sucumbiria com o vaqueiro, consoante lhe declarou formalmente.
Sorriu a moça e deu de ombros.
Nem os próprios pais sabiam do que se passava entre João Lino e a filha deles.
Uma tarde, estava ela à beira do “açude grande”, perto de casa, na hora em que costumava o vaqueiro estar na roça. Grande foi seu espanto quando o viu a dois metros de distância. Quis correr, mas ele lhe tolheu os passos. A moça jogou-se n’água irrefletidamente, e nadou. O mesmo fez o apaixonado, e abraçou-a. Submergidos, rodaram no leito viscoso do açude; e, quando da vida se lembrou o vaqueiro, a morte estava mais perto!
... ... ...
Durante a noite, passaram pensamentos fantásticos no cérebro dos infelizes pais da vítima: quem sabe se alguma onça tivera apanhado Rosa; e Limo fora em seu socorro, e sucumbira também nas garras da fera...Quem sabe algum marruá...Quem sabe? — Imaginara a pobre mãe...
Que plano conceberia o maldito vaqueiro para lhe raptar a filha idolatrada, sem que ninguém o percebesse, nem até desconfiasse... — conjecturara o cérebro vulcânico de Manoel Lisboa, a estalar de dor.
E algumas vezes cavalgaria ele o fogoso alazão, e andara à toa; e, no meio da estrada, bradara: — “Rosa!”. E o eco respondera: — “Rosa!”. E mais uma vez ressoara: — “Rosa!”. E mais longe e mais fraco: — “Osa!”. E ainda mais longe e quase imperceptível: — “Osa!”.
Noite de verão, noite sem luar, céu sem nuvens, e as boas estrelas, no firmamento, como se fossem amigas de novidades, pareciam querer descobrir o que de estranho aconteceu naquele triste recanto torrão alagoano.
Noite de aflições: lágrimas, gemidos, suspiros cá, dentro do santo lar; orquestras infernais de batráquios, assobios agudos das serpentes, mugidos rechinantes das vacas, berros plangentes dos bezerros, lá fora; e a “rasga mortalha”, com seus piares sinistros, a voar, sempre a voar, de espaço a espaço, cruzando a cumeeira da casa, a modo gargalhava escandalosamente para aumentar a aflição dos aflitos!
No dia seguinte, tranquilos, boiavam dois cadáveres no “açude grande”. Mistério!
*** *** ***
Dizem que o “açude grande” ficou mal-assombrado.
Quando a gente passa perto, dele, ouve, às vezes, suspiros prolongados e gemidos lastimosos, gemidos de dor que comovem o cristão.
É a cauta serpente com aspecto sorridente, boca semiaberta, olhos pregados na rã inerme, inabalável no propósito de a comer, e botar de vez em vez a língua fora, como que prelibando delicioso manjar; enquanto esta, apavorada com a presença e aproximação daquela, a pular de um lado para outro, a gemer, a contorcer-se, ali permanece carecida de ação, sem ânimo para se livrar do perigo, até que por fim a cobra a devora, com serôdio deleitamento. Espetáculo assombroso e repugnante; mas alguns supersticiosos moradores daquelas redondezas pensam que ali anda coisa; a alma penada da pobre Rosa perseguida pelo mau espírito do rude vaqueiro ainda atormentado pela paixão furiosa.
______________
Transcrito do Jornal Pequeno, Recife, 30 de novembro de 1931.



[i]
Poeta, romancista e ensaísta, HORMINO ALVES LYRA nasceu em Pão de Açúcar, Alagoas, em 3 de agosto de 1877. Fez seus estudos secundários no Ginásio São João em Penedo, onde exerceu as funções de censor e lecionou com substituto de várias cadeiras.
Em princípio, pensou dedicar-se à vida eclesiástica. Entretanto, não obstante a sua crença religiosa, percebeu que não tinha vocação para o sacerdócio. Prestou, então, concurso para a Fazenda e para os Correios e Telégrafos. Aprovado em ambos, preferiu o segundo, sendo admitido como Telegrafista.
Escreveu para vários jornais e revista como O Malho e Revista da Semana.
Suas principais obras são: Dona Ede (romance), em 1913; O 14 (contos), também em 1913; O Barão do Triunfo, 1941, separada da Imprensa Nacional (memória); Crisol (poesia), 1960. Troveiro, 1960 (poesia).
Foi casado com Marieta de Mello Carvalho (filha do Coronel Augusto Álvaro de Carvalho e de D. Maria Luiza de Mello Carvalho), falecida em 5 de janeiro de 1961.
Hormino Lyra faleceu no rio de janeiro em 13 de setembro de 1970.

CENTENÁRIO DE MEU PAI

Por Etevaldo Amorim

Agnelo Tavares Amorim. Foto Ideal. Santos-SP
Nascido a 31 de julho de 1916, na Vila Limoeiro, município de Pão de Açúcar, filho de João Tavares Amorim e Izabel da Rocha Amorim.
Criou-se ali, na pequenina Vila localizada à margem esquerda do rio São Francisco. Desde cedo, ajudava seu pai no trato da lavoura, especialmente o arroz, nas terras de vazante, nas lagoas e nas ilhas, onde também situaram frutíferas, como mangueiras, goiabeiras e coqueiros.
No início da década de 1940, foi para São Paulo em busca de oportunidades, retornando quatro anos depois para, em 1947, casar-se com d. Cecília e, de novo, partir para o Sul.
Morou em Santos e em Campinas, trabalhando na agricultura e também na indústria. Finalmente, retornou a Limoeiro em 1964. Faleceu em Pão de Açúcar, onde residia, em 20 de julho de 2002.
Homem simples, de pouca cultura e recursos, mas honesto e trabalhador. Amigo sincero, bom esposo e bom pai.
Eu que tenho falado, neste Blog, de tantas personalidades, não poderia deixar de tratar deste homem, que deu tanto de si em meu benefício. Por isso deixo aqui registrada a minha saudade e o meu orgulho de ser seu filho.

quinta-feira, julho 14

EMBAIXADOR ARAÚJO JORGE



Por Etevaldo Amorim
Arthur G. de Araújo Jorge. Fon-Fon, 22/06/1912.
Membro de tradicional família alagoana, Arthur Guimarães de Araújo Jorge nasceu em Mata Grande (então chamada Paulo Afonso) a 9 de setembro de 1884 (relatório do M. Re. Exteriores diz ser 29/09/1884). Assim se deu porque seu pai, o Dr. Rodrigo Adolpho de Araújo Jorge, exercia, desde 15 de novembro de 1882, o cargo de Promotor de Justiça daquela Comarca. Laços com família matagrandense talvez tenha por conta da mãe, Emília Guimarães de Araújo Jorge. Foram seus avós paternos: o Desembargador Silvério Jorge (Silvério Fernandes de Araújo Jorge) e Maria Victória Nascimento Pontes.
Em que pese esse nascimento circunstancial, é legítimo que o coloquemos entre as muitas e destacadas personalidades dessa cidade alagoana, tais como Dom Antônio Brandão (o primeiro bispo de Alagoas) e Augusto Malta (o famoso fotógrafo que revelou as mais belas e históricas imagens da cidade do Rio de Janeiro), entre tantas outras das famílias Malta, Brandão, Vieira, Damasceno, Ribeiro, Mendonça, Alencar, Barbosa, Gaia, Vilar...
Em 1896, já com a família em Maceió, prestou Exames de Preparatórios, seguindo depois para o Recife, onde ingressou na Faculdade de Direito. Na capital pernambucana, revelando desde cedo seus dotes literários, passa a colaborar com a Revista Jurídica, do Centro Acadêmico Teixeira de Freitas, da Faculdade de Direito. Aos dezenove anos, e sendo já um dos redatores d’A Cultura Acadêmica, obteve desta a edição, entre 1904 e 1905, de uma coletânea destes primeiros ensaios, sob o título de Problemas de Filosofia Biológica, trabalho com quatro títulos: A Biologia e a Físico-química, A Hereditariedade de Influência, Ensaio sobre a Biogênese, e O Gênio[i].
Formou-se em 1904 pela Faculdade de Direito do Recife e já no ano seguinte vai para o Rio de Janeiro. Por influência do Senador Bernardo de Mendonça[ii], que o indicou ao seu amigo Barão do Rio Branco (José Maria da Silva Paranhos Junior), ingressou na carreira diplomática, a 21 de junho de 1905, inicialmente como Secretário Auxiliar do Tribunal Arbitral Brasileiro-Boliviano, cujo árbitro brasileiro era o Dr. Carlos Augusto de Carvalho. No ano seguinte, era nomeado auxiliar do árbitro brasileiro no Tribunal Arbitral Brasileiro-Peruano. Deixou ambas as funções em agosto de 1907 para se tornar Auxiliar de Gabinete do Barão do Rio Branco, de quem seria um dos mais próximos e eficientes colaboradores. Inicialmente como Amanuense[iii], tornou-se Diretor na Seção de Negócios Políticos e Diplomáticos da Europa e, depois, cargo equivalente na Seção da América.
De pé, da esquerda para a direita: Euclides da Cunha, Arthur G. de Araújo Jorge, Graça Aranha, Eduardo Lorena, César Vergueiro,, Pecegueiro do Amaral, Gaspar Líbero, Paulo Quartin e César Tapajós. Sentados: Afonso Arinos, Barão Homem de Mello, Barão do Rio Branco e Gastão da Cunha. Fonte: O Malho, 26 de outubro de 1907.
Na foto acima, por ocasião de uma visita do Barão do Rio Branco a São Paulo, e sendo recepcionado por um grupo de estudantes paulistas (Eduardo Lorena, César Vergueiro, Garpar Líbero, Paulo Quartin e César Tapajós), nota-se Araújo Jorge ao lado de Euclides da Cunha, autor da esplêndida obra Os Sertões. É que, Euclides fora auxiliar do Barão do Rio Branco entre 1906 a 1909, quando chefiou expedições do Ministério das Relações Exteriores em questões de demarcação de fronteiras, razão da sua presença na foto. Mas há um fato curioso. Como se sabe, o famoso escritor e engenheiro foi assassinado pelo amante de sua esposa (Dilermando Cândido de Assis), a 15 de agosto de 1909. Inocentado, sob o argumento de que agiu em legítima defesa, Dilermando casou-se com a viúva Ana Emília Solon Ribeiro, com quem teve alguns filhos. Alguns anos depois, separaram-se, vindo Dilermando a se casar com Maria Antonieta de Araújo Jorge (conhecida por Marieta), precisamente uma irmã do nosso Araújo Jorge.

Em 1909, "por sugestão e patrocínio do Barão do Rio Branco", funda a Revista Americana, concebida como uma publicação internacional voltada ao intercâmbio de ideias e à aproximação entre os países americanos. Era uma publicação quinzenal de ciência e de arte. Os redatores eram Araújo Jorge, Joaquim Viana e Delgado de Carvalho. A partir de 1916, passou a ser dirigida também por Silvio Romero Filho.


Araújo Jorge (de branco) ao lado do colega Muniz de
Aragão. Fonte: Revista Fon-Fon, 10 de dezembro de 1910.

Com a morte do Barão, em 10 de fevereiro de 1912, continuou no Ministério das Relações Exteriores, passando a servir sob o comando do Dr. Lauro Muller, primeiro como 2º Oficial e, a partir de 1914, como 1º Oficial.
Naquele mesmo ano, jornais cariocas noticiam seu noivado com a Srtª Devanaguy Lakmy Silva, filha do médico do Exército Cincinato Henriques da Silva e de Ethelvina Baptista da Silva, ocorrido no dia 6 de maio de 1912, na Rua General Severiano, 164, em Botafogo, Rio de Janeiro, residência dos pais da noiva[iv]. Não se nota, entretanto, registro do casamento com essa jovem que se tornaria bailarina na Escola de Bailados do Teatro Municipal.[v] Casa-se, efetivamente, com a Srtª Helena dos Santos Caneco, filha do construtor naval Vicente dos Santos Caneco e de D. Catharina Teixeira dos Santos Caneco. A cerimônia se deu a 27 de outubro de 1917, às 10:00 h, na matriz de São Francisco Xavier, no Engenho Venho, Rio de Janeiro.
Araújo Jorge (ao centro) com colegas da Seção de Negócios do Ministério do Exterior. 
Fonte:  Fon-Fon 1919.
Sua carreira segue promissora. Em 1918, passa para a Seção de Negócios Econômicos e Comerciais, como Diretor, exatamente no período que se seguiu à Primeira Grande Guerra. Em 1925, passa a dirigir a Seção dos Limites e Atos Internacionais. Nesse ano, é designado “enviado extraordinário e Ministro Plenipotenciário em Missão Especial” para representar o Brasil nos festejos do 1º Centenário da Independência da Bolívia, comemorada no dia 6 de agosto.[vi]
E em 1927, foi designado Enviado Extraordinário e Ministro Plenipotenciário para Cuba e América Central, servindo de 9 de junho até 3 de setembro daquele ano. Em 19 de março de 1929, foi removido para a Legação Brasileira em Assunção, Paraguai, servindo de 30 de junho de 1929 a 22 de novembro de 1930.
Enquanto era Ministro Plenipotenciário do Brasil em Montevidéu, assistiu à vitória da Seleção Brasileira de Futebol na Copa Rio Branco, no Estádio do Centenário, diante de 50 mil pessoas. Esse era um confronto entre o nosso selecionado e o time uruguaio, a exemplo do que ocorria com a Copa Rocca, entre o Brasil e a Argentina. O Brasil venceu por 2 x 1 com dois gols de Leônidas da Silva. Ao final do jogo, Araújo Jorge foi ao Hotel Flórida, onde os brasileiros estavam hospedados, para cumprimenta-los[vii]


O Ministro Araújo Jorge (assinalado com X) oferece almoço ao Selecionado Brasileiro de Futebol, que venceu o Uruguai na disputa da Coma Rio Branco (dois anos após a realização da 1ª Copa do Mundo). Vê-se à esquerda o jogador Leônidas da Silva. O terceiro à direita é Domingos da Guia. Revista da Semana: 31 de dezembro de 1932.
A partir de 1933 foi Ministro em Berlim, chegando a 7 de outubro daquele ano. Assim que chegou à Alemanha, já na era Hitler, mas anterior à Guerra, instalou a Legação Brasileira e a própria residência num mesmo prédio, na Tiergartenstrasse, nº 25, inaugurando-a a 7 de setembro de 1933, próxima do antigo endereço, no número 4.

Nesse curto período, e a julgar pelas informações e comentários constantes de Cartas ao Ministro das Relações Exteriores (vide Cadernos do CHDD - Centro de História e Documentação Diplomática), da Fundação Alexandre de Gusmão, Ano 11, Número 21, segundo semestre de 2012), nota-se uma certa simpatia do nosso Ministro pelas restrições impostas pelo Governo Alemão à presença e atuação dos povos de origem judia naquele país, especialmente no aspecto econômico. O Brasil, àquela época, praticava o que se convencionou chamar de “diplomacia pendular”, definindo-se finalmente pelo apoio aos países liderados pelos Estados Unidos.
Araújo Jorge no momento em que deixava o Palácio Presidencial em Berlim,

após apresentar credenciais ao Presidente Hindemburg, a 18 de outubro de 

1911, REVISTA DA SEMANA_25/11/1933.

Deixando Berlim, em agosto de 1935, foi para o Chile promovido a Embaixador. Naquele mesmo ano, foi transferido para Portugal, cuja atuação se constituiu o ápice da sua carreira.

Antes de ir para Portugal, por Decreto de 29 de abril de 1935, foi nomeado Secretário da Presidência da República na vaga deixada pelo Ministro Ronald de Carvalho, período em que acompanhou o presidente Getúlio Vargas em sua viagem aos países do Prata.[viii]


Em 7 de dezembro de 1937, com seu apoio, a Sala do Brasil na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, foi reinaugurada, sendo esta uma das muitas ações de intercâmbio entre os dois países. Em 1941, recebeu, na Academia de Ciências de Lisboa, a Palma de Ouro de Primeira Classe. Em 1938, foi condecorado com a Grande Cruz da Ordem Militar de Cristo.

Muitos foram os Atos praticados pelo nosso embaixador no sentido da aproximação entre o Brasil e Portugal, entre eles, em Setembro de 1942, assinatura do Acordo Postal. A Revista A ORDEM, que tinha como Diretor Responsável Alceu Amoroso Lima (o Tristão de Ataíde), em artigo publicado em sua edição de junho de 1938, intitulado Um Embaixador do Brasil, assim se manifestou:


A uma sólida formação de inteligência aquele embaixador junta, como ninguém, o senso de oportunidades, o atrativo das maneiras, uma afabilidade sem artifícios que elimina as distâncias entre ele e os que buscam a sua convivência e acentua a graça e suaviza a malícia do seu caráter jovial.

Atuou como representante do Brasil em diversos Congressos Internacionais, tais como: 2º Congresso Científico Panamericano, realizado em Washington em 1915, onde apresentou duas importantes monografias: História Diplomática do Brasil Francês e História Diplomática do Brasil Holandês.

Segundo o Embaixador Lafaiete de Carvalho e Silva, Araújo Jorge “aliava as qualidades do espírito às do profissional sério e metódico”.
Em 1935, quando chega a Santiago, um jornalista chileno, Abel Valdés, o descreve como "um homem jovem de palavra fácil, semblante um pouco moreno, que expressa suas opiniões e pensamentos com a máxima claridade e com uma franqueza considerada, até agora, como pouco diplomática".

Profundamente interessado em nossa história diplomática, publicou numerosos trabalhos, notadamente os Ensaios de História Diplomática do Brasil no Regimen Republicano, concluídos em 1908 e editados em 1912, Ensaios de História e Crítica (1916), que englobam estudos sobre a História diplomática do Brasil francês no século XVI, a História diplomática do Brasil holandês (1640-1661), ou ainda sobre temas tão variados como Alexandre de Gusmão, as ilhas Malvinas e o direito da Argentina, Euclides da Cunha ou Guglielmo Ferrero. Quando o Itamarati decide publicar, na década de 1940, a íntegra da obra do barão, o nome de Araújo Jorge pareceu a escolha natural para preparar a Introdução, que o Senado Federal ora reedita, tornando acessível aos estudiosos de nossa história uma das melhores sínteses sobre a atividade diplomática de Rio Branco.[ix]


Em 20 de abril de 1963, no Itamarati, em solenidade presidida Presidente João Goulart, Grão Mestre da Ordem, ocorreu a cerimônia de entrega das primeiras condecorações da Ordem de Rio Branco, entre elas o Embaixador Arthur G. de Araújo Jorge, junto aos que serviram na Gestão do Barão do Rio Branco. (Diário Carioca, 14 de abril de 1963.)


O Diplomata Arthur Guimarães Araújo Jorge faleceu a 27 de fevereiro de 1977, com 92 anos, deixando a viúva, Embaixatriz Helena Caneco de Araújo Jorge, que faleceu no rio de janeiro a 21 de dezembro de 1982 aos 85 anos, e o único filho Raul Caneco de Araújo Jorge, Promotor Público atuante no Rio de Janeiro.



Cerimônia de Troca de Ratificações do Tratado de Condomínio da Lagoa Mirim e do Rio Jaguarão, no Ministério das Relações Exteriores, vendo-se sentados, a partir da direita: O Barão do Rio Branco; Gal. Rufino Domingues, Ministro do Uruguai e Frederico de Carvalho, diretor-geral da Secretaria do Exterior.  De pé, a partir da esquerda: Muniz de Aragão, Elmano Vieira, Amaral França, Cruz Gomes, Nin Frias e Araújo Jorge. Fon-Fon, 14/05/1910.


Dr. Araújo Jorge e Devanaguy Lakmy Silva. Fon-Fon, 22 de junho de 1012.

Devanaguy, bailarina do Municipal. Foto: Diário Carioca, 25 de outubro de 1933.

Casamento de Arthur Guimarães de Araújo Jorge e Helena dos Santos Caneco. O casal ao centro, tendo a sua esquerda (direita de quem olha): D. Emília Guimarães Araújo Jorge e o Dr. Rodrigo Adolpho de Araújo Jorge; e, à direita os pais da noiva: D. Catharina Teixeira dos Santos Caneco e Vicente dos Santos Caneco. Fonte: Revista Careta, 3 de novembro de 1917.

Lauro Muller Filho, Araújo Jorge, 1º Tenente Gensérico de Valconcellos,
Antônio de S. Clemente em viagem aos países do Prata com o Ministro Lauro
Miller. O Pirralho_01.05.1915









[i] Jornal do Recife, 16 de outubro de 1904, p. 2
[ii] Gutenberg, 29 de junho de 1905, p. 2.
[iii] Almanak Larmmert, 1927.
[iv] O Puritano, RJ, 20 de junho de 1912, p. 7
[v] Dário Carioca, 25 de outubro de 1933.
[vi] Diário de Pernambuco, 6 de agosto de 1925.
[vii] Brasil venceu o Uruguai por 2 x 1 na Copa Rio Branco de 1932, no Estádio do Centenário diante de 50 mil pessoas. A Seleção Brasileira jogou com: Victor, Domingos da Guia, Itália (cujo nome verdadeiro era Luis Gervazoni), Agrícola (Canalli), Martim Silveira e Ivan Mariz; Walter, Paulinho, Gradim, Leônidas da Silva (Benedito) e Jarbas.
[viii] Correio de São Paulo, 23 de abril de 1935.
[ix] Rio Branco e as Fronteiras do Brasil, A. G. de Araújo Jorge.

sábado, julho 9

TORVELINHO

Élio Lemos França. (Revista Mocidade)

Élio Lemos França[i]

Águas caindo precipitadamente. É bonito ver como as coisas do mundo caem precipitadamente. E os homens gostam de ver o despencar das coisas.
É um cair estourado, o das águas, cachoeira abaixo. E, lá nas pedras, o despedaçar-se de cada gota em mil partículas. O vento passando molhado pelo rosto da gente.
Minutos bem compridos, enchendo-me o olhar de água, de pedras, de espumas inquietas que giram endoidecidas. Parece-me que a Natureza está bêbada, ou louca. Ou, então, epitética, a esbater-se em espasmos de fúria, ou de dor.
Distante, o Sol, agora quase frio, parece uma pincelada de sangue, que algum louco homicida deu no azul do céu. E o horizonte faz lembrar certas pessoas simbiose da placidez do azul e da púrpura violeta de um Sol despeitado com o cair da noite.
Minutos bem compridos, que passam por meus olhos misturados ao rumor e ao torvelinho das águas, por entre cores que lutam e se confundem, enroscados em pensamentos há muito lembrados, envelhecidos e gastos em suas idas e vindas, de ontem e hoje, de hoje e ontem...
Antítese e silogismo mal traçados, quase sofismas. Crenças insustentáveis.
Ora, como se crê que possa a Vida voltar os próprios passos?! — Tolices.
Mas estes pensamentos são assim meio loucos. Cheios de confusão. Parece que eles também giram, endoidecidos, dentro da espuma nervosa da cachoeira. Insensatos!
E os minutos a enroscar-se em pensamento, querendo enroscar-me em minha alma. Em meu corpo, também. Entorpecendo minhas pernas. Matando o brilho dos meus olhos. Molhando-os.
Anoitece. Quase preciso de sair. A Vida me espera, lá fora, longe destas águas que caem e deste rumor alucinante de gritos estrondosos — não sei se das águas que se desmoronam, se das pedras que elas açoitam em seu cair ininterrupto. Anoitece, quase, e eu não posso ir.
Noites felizes, que não voltam... Dias felizes, que não voltam... Horas felizes, que não voltam...
E quem disse que podem voltar os momentos felizes? Eles passaram. Será egoísmo querer a Felicidade por muito tempo; é ela uma só para todas as pessoas. Uma pessoa de cada vez, como nas filas das bilheterias. Uma de cada vez e por um só minuto. As que vêm atrás também têm direito a Ela. Também pagaram o tributo de nascer.
Em compensação, há as lembranças. E as utopias, não são tantas? Por que não viver delas? Somente por serem fugidias? —A Vida também o é.
A noite quase que caiu inteiramente e uma estrela abriu o olho azul para o lado de cá. Está tão sozinha e brilha com tanto interesse! Deve estar, como eu, olhando o despencar das coisas... Deve estar sonhando com noites já vividas, de um tempo em que ela não tinha de ficar sozinha no meio do céu.
Anoitece. Surgem outras estrelas e a estrela bonita já não está sozinha. Não posso continuar aqui. Faz frio até.
Mesmo, a vida me espera lá fora, longe deste rugir alucinante da Natureza endoidecida.

Cachoeira de Paulo Afonso. Fonte: site Lugares Fantásticos.







[i] Extraído da revista Mocidade, Ano X, Fevereiro e Março de 1956, número 29 e 30. Cedido pelo amigo Álvaro Antônio Melo Machado que, rebuscando o baú do seu avô, o Prof. Antônio de Freitas Machado, encontrou esta prosa poética de Élio Lemos França, impressionante premonição de se trágico fim.

sábado, maio 28

NATALÍCIO CAMBOIM, UM PERNAMBUCANO DE QUEBRANGULO

Por Etevaldo Amorim
Natalício Camboim, Illustração Brasileira, 1922.
Pernambucano de nascimento, mas estabelecido em Alagoas desde os anos 1890, Natalício Camboim tornou-se um dos mais destacados políticos do início do Século XX. Advogado, industrial, chegou a ser Adido Comercial da Embaixada do Brasil na Espanha e Portugal, com sede em Madri. Nessa condição, fez publicar informações sobre os recursos econômicos do Brasil, tais como: “Brasil, sínteses de sus recursos econômicos, nueva edicion aumentada”, Madrid, Imprenta de Juan Puego, 1928.
NATALÍCIO CAMBOIM DE MENDONÇA VASCONCELOS, nasceu em Barreiros, Estado de Pernambuco, a 23 de maio de 1872. Era filho do Cel. João Carlos de Mendonça Vasconcellos de Ana de Siqueira Cavalcanti Camboim (filha de Ana Olímpia Bezerra de Siqueira e Francisco Alves Cacalcanti Camboim, 1º e único Barão de Buíque).
Estudou no Recife, no Colégio Instituto Acadêmico (Rua Visconde de Goiana, 153, Mondego), prestando Exames de Preparatórios para a Faculdade de Direito no ano de 1888. Nessa ocasião, faz parte do corpo redatorial do jornal O Combate, do Clube Autonomista Acadêmico, juntamente com Francisco de Albuquerque, Belisário Távora, Souza Leão Junior, Estácio Coimbra e J. Studart.
Depois de formado, estabeleceu-se em Quebrangulo, onde, em 18 de fevereiro de 1896, se casou com Joaquina Tenório, filha do Barão de Palmeira dos Índios: Paulo Jacinto Tenório, que dá nome à importante cidade alagoana. Ao morrer em 1927, seu sogro era o maior proprietário rural de Alagoas, com 80 fazendas de gado. Natalício e Joaquina tiveram os filhos: Natércio;  Natalício; Maria Júlia; Natálio e Ana.
Em Quebrangulo foi industrial e Presidente do Conselho Municipal e também Inspetor Escolar. Era tio do famoso Tenório Cavalcante, o homem da capa preta (Natalício Tenório Cavalcanti de Albuquerque).
Quebrangulo em 1931, vendo-se ao fundo a Matriz do Bom Jesus dos Pobres.
  Foto: Revista da Semana-Março 1931.
Natalício Camboim sentado ao centro, tendo a sua direita (esquerda de quem olha) o Major Francisco Pedro Ribeiro e a sua esquerda (direita de quem olha) o Capitão João Honório de Carvalho. Em pé: da esquerda para a direita: Coronel Felino Tenório de Albuquerque, Tenente João Leão Feitosa e Adolpho Marques da Costa Soares. Foto: O MALHO, Ano X, nº 461, RJ, 15 de julho de 1911.
Membro do PRC – Partido Republicano Conservador, foi eleito três vezes à Assembleia Estadual: de 1900 a 1907. Em 1908 foi eleito Senador Estadual, mas, com um ano de exercício do mandato, renunciou por ser eleito Deputado Federal. Durante várias Legislaturas, de 1909 a 1916, teve como companheiros de bancada alagoana: João Francisco de Novaes Paes Barreto, Eusébio de Andrade, Epaminondas Gracindo, Sampaio Marques, Raimundo Pontes de Miranda, Rocha Cavalcanti, Barros Lins, Accioly Junior, Alfredo Carvalho, Venâncio Labatut, Alfredo de Maya, Luiz Mascarenhas, Miguel Palmeira, Mendonça Martins, Costa Rego, Luiz Magalhães da Silveira, Freitas Melro, Araújo Goes, Euclides Malta.


Reunião da Comissão organizadora dos festejos para a recepção do General Gabino Besouro, vendo-se na Mesa, ao centro, o Sr. Antônio Machado, de terno branco, (apresentado pelos Conservadores para Vice-Presidente do Estado), tendo à sua esquerda os Srs. Natalício Camboim e Guedes Lins e, à direita, os Srs. Guedes de Miranda, Eusébio de Andrade, João Agnelo, Pedro Xavier e outros políticos de influência. Fonte: O Malho, Ano XVII, nº 806, 23.02.1918.

Naquela Casa Legislativa, foi membro das comissões de: Redação; Petições e Poderes; Agricultura e Indústria, da qual foi Presidente, e também da Comissão de Diplomacia e Tratados, tendo sido um dos signatários, em 15 de maio de 1915, do parecer favorável à aprovação do Tratado denominado ABC (Pacto de Não Agressão, Consulta e Arbitragem), entre Argentina, Brasil e Chile.


Eusébio de Andrade e Natalício Camboim. Foto: Fon-Fon.

Entre as muitas ações levadas a efeito durante os seus mandatos, encontramos gestões pelo estabelecimento de ligação, por via férrea, entre as cidades de Quebrangulo, Palmeira dos Índios, Porto Real do Colégio; melhoramentos no Porto de Maceió e desobstrução da barra do rio São Francisco. Entretanto, tornou-se mais conhecido pelo que se passou a denominar “Acordo Camboim”. O que seria isso? Seria uma aliança eventual de que resultaria prejuízo para determinada parte. Costa Rego, contemporâneo de Natalício, em artigo intitulado A Fórmula Impossível, no Correio da Manhã, edição de 6 de novembro de 1949, explica:
“A fórmula do ‘Acordo Camboim’ é minha. Há trinta e poucos anos, projetava-se a intervenção federal em Alagoas porque o governador eleito e empossado, Batista Accioli, não tivera, alegava-se, os respectivos poderes regularmente verificados. O deputado Camboim e seus amigos eram pela intervenção; eu, também deputado, e meus amigos éramos contra a medida.
Levado o assunto ao Dr. Wenceslau Braz, Presidente da República, este, que sempre detestou as demandas, sugeriu um acordo, mediante o qual o governo fosse aceito por ambos os grupos, sob a condição, porém, de recompor-se o Senado Estadual, que, na forma da Constituição, reconhecia e proclamava o governador eleito.
Todo o caso político tinha, aliás, por objeto o Senado, cuja legitimidade estava em dúvida por se haver dividido em duas a Assembleia, com o concurso de senadores remanescentes da renovação do terço.
Partiu-se então do princípio de que deveriam desaparecer todos os senadores por meio de renúncia expressa. Dada a ausência do Senado, organizar-se-ia outro, em ato eleitoral a que todos comparecessem com seus candidatos escolhidos em lista comum, compondo o número exato dos senadores, de modo a não poderem os partidos incriminar os mandatos dos adversários. Para organizar essa lista era preciso um acordo.
Os entendimentos foram difíceis. Havia quinze senadores a eleger. Não era possível dividi-los, sem que um partido obtivesse oito contra sete, além de que os três terços deveriam ficar separados por senadores de uma Legislatura, de duas e de três. Os amigos de Camboim queriam a de três Legislaturas, preferência que também era dos meus amigos... A divisão, já impossível pelo número ímpar, ainda se complicava na maneira de atribuir as cadeiras de maior e menor mandato.
Foi quando imaginei uma fórmula: os cinco senadores de maior mandato pertenceriam aos amigos de Camboim; os cinco de mandato médio, aos meus amigos; e os cinco restantes, de mandato menor, seriam indicados pelo governador, que merecia a confiança de ambos os grupos.
Levei a fórmula ao Dr. Wenceslau Braz, para que a impusesse como sua. Pareceu-lhe excelente.
Formou-se a lista de candidatos. O que mais interessava conhecer eram os escolhidos pelo governador, fiel da balança. O governador, membro do nosso partido, foi busca-lo entre nossos próprios correligionários. E assim ficamos com a maioria no Senado.
Camboim, a quem hoje me liga afetuosíssima amizade, fingiu não haver recebido o golpe; mas uma vez, ao lhe perguntarem se o acordo lhe causava satisfação, respondeu:
“Sim, o acordo foi excelente. Estamos vivendo em plena harmonia: eles entraram com o pau, nós entramos com as costas”.
A esta forma de entregar as costas ao pau chamou-se “ACORDO CAMBOIM”.
E Costa Rego arremata:
“Como Colombo, o descobridor do Novo Mundo, não deu o nome à América, também eu não dei o meu ao acordo”.
Costa Rego. Foto: O Malho, 07/06/1924.

Baptista Accioly. Fon-Fon, 28/07/1917.














Faleceu no Rio de Janeiro, no dia 2 de julho de 1956[i].
______________________
Fontes:
BARROS, Francisco Reynaldo Amorim de. ABC DAS ALAGOAS.
ROCHA, José Maria Tenório da. QUEBRANGULO, QUEBRANGULO SEMPRE SERÁS.

MY HERITAGE, https://www.myheritage.com.br/person-3002064_30474742_30474742/dr-natalicio-camboim-de-mendonca-vasconcelos


[i] DIÁRIO DE NOTÍCIAS, RJ, 8 de julho de 1956; DIÁRIO DE PERNAMBUCO, 6 de julho de 1956.


sábado, maio 7

ALBUQUERQUE LINS, O ALAGOANO QUE GOVERNOU SÃO PAULO

Por Etevaldo Amorim
À época do Império, alguns paulistas governaram Alagoas: José Joaquim Machado de Oliveira (14/12/1834); Antônio Moreira de Barros (09/09/1867 a 22/05/1868); Antônio Cario da Silva Prado (de 05/09/1887 a 16/04/1888). Mas pouca gente sabe que um alagoano já governou São Paulo. Trata-se de Albuquerque Lins, que esteve à frente da governança do maior estado do País de 1º de maio de 1908 a 1º de maio de 1912.
Manuel Joaquim de Albuquerque Lins nasceu em São Miguel dos Campos (AL) no dia 20 de setembro de 1852. Era filho de Manuel Joaquim de Albuquerque Lins e de Orminda da Rocha e Silva. Seu pai era dono de engenho de açúcar. Era primo de João Lins Vieira Cansanção de Sinimbu, o visconde de Sinimbu, que foi presidente do Conselho de Ministros do Império entre 1878 e 1880.
Fez seus primeiros estudos em sua cidade e aos 14 anos seguiu para Salvador, na Bahia, onde estudou humanidades no Seminário Arquiepiscopal. Sentindo vocação eclesiástica, também cursou teologia, mas, apesar de ter recebido os aplausos dos mestres, não foi ordenado por não ter a idade exigida. Resolveu então, em 1871, ir completar seus preparatórios em Pernambuco. Com efeito, em janeiro de 1873, desembarca do vapor Guará, no Recife, para ingressar na Faculdade de Direito[i], recebendo o grau de bacharel em ciências jurídicas e sociais em 1877, em companhia de Rosa e Silva, J. J. Seabra, Leão Velloso, José Paranaguá e outros. Em novembro daquele ano, deixa o Recife a bordo do vapor Marquês de Caxias.[ii]
Nesse mesmo ano, volta a Alagoas, sendo nomeado Promotor Público no município de Anadia. Desempenhou a função durante pouco mais de um ano, até transferir-se, a conselho do visconde de Sinimbu, para a Província de São Paulo. Aí foi Juiz Municipal e de Órfãos de Santos e São Vicente e Juiz de Direito de São Simão e Ribeirão Preto, sendo posteriormente removido, a pedido, para Tatuí. Nomeado, em 1885, Chefe de Polícia do Paraná, não chegou a tomar posse em virtude da queda do Gabinete do Conselheiro Saraiva e o afastamento dos liberais do poder em agosto daquele ano. Pedindo exoneração da magistratura, foi declarado juiz de direito avulso e fixou definitivamente residência na capital paulista, onde se dedicou à advocacia e passou a colaborar na imprensa.
Em 1881, casa-se com a Srtª Helena de Souza Queiróz, filha do Barão Souza Queiroz[iii], de tradicional e rica família Sousa Queirós, de muita influência no Partido Liberal da Província de São Paulo, sendo eleito Deputado Provincial pelo 5° Distrito para a Legislatura 1888-1889, que seria a última do Império.
Em 1889, foi nomeado Presidente da Província do Rio Grande do Norte, pelo Ministério Ouro Preto, mas não chegou a tomar posse.
Albuquerque Lins, Secretário da Fazenda do 
Estado de São Paulo. O MALHO, Ano VI, nº 244, 
18 de maio de 1907.

Foi eleito vereador à Câmara Municipal de São Paulo para o triênio de 1899-1902 e escolhido por seus pares, por unanimidade, presidente da casa. Em 16 de dezembro de 1901 foi eleito para a vaga de Paulo de Sousa Queirós no Senado Estadual, e tomou posse em 8 de abril de 1902.
Renunciou em 2 de maio de 1904, quando foi nomeado secretário da Fazenda pelo presidente do estado Jorge Tibiriçá (1/5/1904-1/5/1908). Exerceria o cargo até 31 de outubro de 1907, quando foi substituído por Olavo Egídio de Sousa Aranha. À frente da secretaria, atuou em defesa da política de valorização do café adotada em face da grande safra cafeeira do período, que abriu uma tremenda crise econômica no estado e muito preocupou o governo.
Albuquerque Lins, Presidente de São Paulo. Foto:
Brazil Magazine.

Como Presidente de São Paulo, graças à sua gestão na área financeira, quando da disputa pela indicação do candidato à sucessão de Jorge Piratininga, venceu o ex-presidente Campos Sales na convenção do PRP. Formada a chapa governista, foi eleito em 1º de março de 1908, tendo como vice Fernando Prestes de Albuquerque, e tomou posse em 1º de maio de 1908, com mandato até 1º de maio de 1912.
Panorama da Capital de São Paulo, à época do Governo do Dr. Albuquerque Lins. Foto: Revista Fon-Fon, 1908.
Em sua administração à frente do governo de São Paulo, prosseguiu em sua política de valorização do café; incrementou a entrada de imigrantes, cujo número chegou a 185.367; fomentou a construção de numerosos grupos escolares, tanto na capital como no interior; transformou todas as escolas complementares em escolas normais primárias; criou institutos profissionais na capital e nas cidades de Amparo e Jacareí; aprovou a planta e orçamento para a edificação das escolas normais de Pirassununga e Botucatu; criou a diretoria geral da Instrução Pública, em substituição à Inspetoria do Ensino; iniciou a reforma do regimento penitenciário, tendo batido a pedra fundamental da penitenciária do estado; criou o Serviço Florestal, visando a desenvolver a silvicultura; criou o Patronato Agrícola; criou os Bancos de Custeio Rural; e lançou os alicerces do palácio das Indústrias, localizado no parque Dom Pedro II, no centro da capital. Entre seus auxiliares estavam Carlos Guimarães, na Secretaria da Fazenda, e Washington Luís, mais tarde presidente da República, na Secretaria da Justiça.
O Presidente Albuquerque Lins participa do lançamento da pedra fundamental da construção do novo Presídio de São Paulo, que ficaria conhecido como Carandiru, tendo a sua direita (esquerda de quem olha) o General Comandante da 10ª Região Militar e o Dr. Carlos Guimarães, Secretário do Interior, em 1911.
Palacete de residência do Dr. Albuquerque Lins, em São Paulo, na Rua da Liberdade, 87. Brazil Magazine, Ano IV, 41-41, 1920.

Nas eleições para presidente da República em 1910, foi candidato a vice-presidente na chapa civilista de Rui Barbosa, derrotada pela chapa Hermes da Fonseca-Venceslau Brás. Teve assim perturbados os dois últimos anos de seu governo, quando ocorreu uma tentativa de intervenção federal em São Paulo pela vindita do marechal Hermes, afinal evitada. Ao término de seu governo, transferiu o cargo para o sucessor Francisco de Paula Rodrigues Alves.
Teatro Lírico, Rio de Janeiro. Flagrante da Convenção Civilista, realizada em 22 de agosto de 1909, que indicou o Senador Rui Barbosa para Presidente e Albuquerque Lins para Vice-Presidente da República. Foto: FON-FON, Ano III, nº 35. 28.08.1909.
Mesa Diretora dos trabalhos da Convenção. De pé, fazendo a chamada dos convencionais, o Deputado paulista Cincinato Braga. Sentados: Deputado Álvaro de Carvalho, Senador José Marcelino e Deputado Galeão Carvalhal. Foto: Careta, Ano II, Nº 65, 28 de agosto de 1909.
Em Campanha, recebendo Rui Barbosa nos jardins do Palácio do Governo de São Paulo. Foto: Brazil Magazine.
A Chapa Rui Barbosa/Albuquerque Lins.

Em 8 de fevereiro de 1913 foi eleito senador estadual para o período de 1913 a 1921, e em 29 de abril de 1922 foi reeleito para o período de 1922 a 1930. Como parlamentar, discutiu os projetos de lei de criação de bancos agrícolas e outras medidas de interesse para a economia paulista. Foi membro da comissão diretora do PRP, como grande capitalista foi presidente do Banco de São Paulo e da Companhia Mecânica Importadora, e sempre ligado a agricultura, foi importante proprietário rural em Limeira. Foi Presidente do Banco Popular de São Paulo, depois denominado Banco Provincial de São Paulo.
Albuquerque Lins deixa o Palácio do Governo de São Paulo, sendo acompanhado pelo seu sucessor Rodrigues Alves. Careta, 18 de maio de 1912.
Já como Ex-Presidente de São Paulo, o Dr. Albuquerque Lina, tendo a seu lado a filha Helenita, os filhos Manoel e Abel e a esposa Helena, no vapor Astúrias, em viagem para a Europa. 
Faleceu em São Paulo, a 7 de janeiro de 1926, em pleno exercício do mandato de senador estadual. Seu sepultamento se deu no dia 8 de janeiro de 1926, às 17:00 horas, saindo da sua residência à Rua da Liberdade, 87[iv].
Funerais de Albuquerque Lins, vendo-se à frente do cortejo o Dr. Washington Luiz, que viria a ser Presidente da República e o Dr. Carlos de Campos, então Presidente de São Paulo.  Foto: Fon-Fon, 16 de janeiro de 1926.
Outro aspecto do cortejo fúnebre do Dr. Albuquerque Lins. Foto: Fon-Fon.
Deixou fortuna particular calculada em cerca de 10.000 contos de réis. Era sócio de uma casa Comissária de Exportação em Santos, abastado fazendeiro e proprietário de diversos imóveis na Capital Paulista, inclusive o Palacete (com teatro) Santa Helena, na Praça da Sé.
De seu casamento com Helena de Souza Queirós, teve seis filhos: Joaquim, José, Antônio, Carlos, Álvaro, Anna Helena, Helenita e Maria.
Em sua homenagem foi criado, pela Lei nº 1.708, de 27 de dezembro de 1919, o município de Albuquerque Lins, que, em 1926, teve alterada a denominação para Lins. (Antônio Sérgio Ribeiro)
A cidade de Albuquerque Lins (atualmente Lins), no Estado de São Paulo.

________________________
FONTES:
AMARAL, A. Dicionário; Correio Paulistano (8/1/1926); EGAS, E. Galeria (v.2); Folha da Manhã (8/1/1926); FONSECA, A.; IGNÁCIO, A.; BRISOLLA, C. São Paulo; Municípios e distritos; RIBEIRO, J. Chronologia; RIBEIRO, A. Governantes..
CPDOV – FGV
ABC DAS ALAGOAS, FRANCISCO REYNALDO AMORIM DE BARROS
Fundação Casa Rui Barbosa








[i] Diário de Pernambuco, 10 de janeiro de 1873.
[ii] Diário de Pernambuco, 16 de novembro de 1877.
[iii] Falecida a 4 de abril de 1936. A Nação, 5 de abril de 1936.
[iv] A Manhã, RJ, 8 de janeiro de 1926, p. 2

A POESIA DE PÃO DE AÇÚCAR



PÃO DE AÇÚCAR


Marcus Vinícius*


Meu mundo bom

De mandacarus

E Xique-xiques;

Minha distante carícia

Onde o São Francisco

Provoca sempre

Uma mensagem de saudade.


Jaciobá,

De Manoel Rego, a exponência;

De Bráulio Cavalcante, o mártir;

De Nezinho (o Cego), a música.


Jaciobá,

Da poesia romântica

De Vinícius Ligianus;

Da parnasiana de Bem Gum.


Jaciobá,

Das regências dos maestros

Abílio e Nozinho.


Pão de Açúcar,

Vejo o exagero do violão

De Adail Simas;

Vejo acordes tão belos

De Paulo Alves e Zequinha.

O cavaquinho harmonioso

De João de Santa,

Que beleza!

O pandeiro inquieto

De Zé Negão

Naquele rítmo de extasiar;

Saudade infinita

De Agobar Feitosa

(não é bom lembrar...)


Pão de Açúcar

Dos emigrantes

Roberto Alvim,

Eraldo Lacet,

Zé Amaral...

Verdadeiros jaciobenses.

E mais:

As peixadas de Evenus Luz,

Aquele que tem a “estrela”

Sem conhecê-la.


Pão de Açúcar

Dos que saíram:

Zaluar Santana,

Américo Castro,

Darras Nóia,

Manoel Passinha.


Pão de Açúcar

Dos que ficaram:

Luizinho Machado

(a educação personificada)

E João Lisboa

(do Cristo Redentor)

A grandiosa jóia.


Pão de Açúcar,

Meu mundo distante

De Cáctus

E águas santas.

______________

Marcus Vinícius Maciel Mendonça(Ícaro)

(*) Pão de Açúcar(AL), 14.02.1937

(+) Maceió (AL), 07.05.1976

Publicado no livro: Pão de Açúcar, cem anos de poesia.


*****


PÃO DE AÇÚCAR


Dorme, cidade branca, silenciosa e triste.

Dum balcão de janela eu velo o seu dormir.

Nas tuas ermas ruas somente o pó existe,

O pó que o vendaval deixou no chão cair.


Dorme, cidade branca, do céu a lua assiste

O teu profundo sono num divino sorrir.

Só de silêncio e sonhos o teu viver consiste,

Sob um manto de estrelas trêmulas a luzir.


Assim, amortecida, tú guardas teus mistérios.

Teus jardins se parecem com vastos cemitérios

Por onde as brisas passam em brando sussurrar.


Aqui e ali tu tens um alto campanário,

Que dá maior relevo ao pálido cenário

Do teu calmo dormir em noite de luar.

____

Ben Gum, pseudônimo de José Mendes

Guimarães - Zequinha Guimarães.






PUBLICAÇÕES

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Pão de Açúcar, Cem Anos de Poesia