Por Etevaldo Amorim
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| A Ilha dos Prazeres. Foto: Site Canoa de Tolda. |
Há, no baixo curso do rio São
Francisco, uma elevação denominada Ilha dos Prazeres, em referência à simpática
capela erigida em seu cume, em 1624, e que invoca a devoção a Nossa Senhora dos
Prazeres.
Situado entre os povoados de Barra
do Ipanema, município de Belo Monte-AL (na margem esquerda) e Ilha do Ouro,
município de Porto da Folha-SE (na margem oposta), esse acidente geográfico
oferece aos visitantes um belo panorama de toda a região, chegando até a
mostrar, ao fundo, a majestosa Serra do Meirus e tudo quanto mais se possa
avistar.
Sobre o morro e sua capela
muitos viajantes já trataram em seus relatos e suas memórias, desde Vieira de
Carvalho, Avé Lallemant, George Gardner, Dom Pedro II, etc, expressando sobre
ele as mais variadas impressões.
Ultimamente, passando pelas
páginas do Jornal do Penedo, edição de 26 de agosto de 1879, encontrei essa
crônica, escrita em Pão de Açúcar, mas sem indicação de autoria. Termina com um
lacônico “P.S. (do Paulo Affonso)”. O PAULO AFFONSO era um jornal fundado em
Pão de Açúcar por Achiles Balbino de Leles Mello, em 27 de outubro de 1878.
Anunciava-se assim: “Periódico imparcial, noticioso, comercial e literário”. Com
oficinas na Rua do Comércio, nº 37, trazia em epígrafe: “Advoga a santa
causa da ordem, da civilização e da justiça”.
Lamentando não poder
identificar o autor de tão bela narrativa, transcrevo para conhecimento de
todos:
“Pão de Açúcar, 24 de agosto de 1879.
N.
S. DOS PRAZERES
Quem desta cidade desce rio
abaixo, dando costas ao sol poente, quando passa pouco abaixo da importante
povoação denominada Lagoa Funda[i],
terá diante dos olhos, no mais elevado da coroa de um morro, ereta e grandiosa
a Igreja dos Prazeres, cuja perspectiva majestosa atrai a curiosidade e comove
a alma do viajante.
Que doce recordação a que este
lugar sagrado embebe em si! Que belo espetáculo o que, na sua eloquência muda,
testemunha este terreno abençoado!
No alto, a MÃE DE DEUS e dos
homens, vestida de glórias, tendo por coroa o firmamento estrelado, cintilando
nos espaços celestes. Aos seus pés a natureza – terra verde, animada pelos
aspectos suaves e grandiosos duma meiga paisagem, sempre aquecida pelo calor e luz
deslumbrante, que lhe derrama ao sol, regada pelo cristalino rocio, que a
sustenta e formoseia.
Vista assim de longe, como na
baixa, a Igreja, assentada na sumidade do morro, merece o nome pomposo de –
PRAZERES, que lhe aplicaram os antigos, apresentando-se com a majestade própria
de quem serve de trono à SOBERANA IMPERATRIZ da terra.
O cume do morro é esplanado e
pouco abraça de círculo; é coroado de espinheiros bravios e matos silvestres.
O modelo da Igreja e uma
inscrição, gravada acima da porta principal, atestam a antiguidade da tradição
popular, que aponta este lugar como sendo consagrado desde o século antepassado
pela mesma vocação.
Ao Norte, como ao Sul, os
lados do morro, além rio, vestem-se de formosas várzeas de um verde alegre, e
de oiteiros frescos à sombra de árvores.
Quase defronte, à margem
esquerda, alveja Boa Vista.
A Leste, entra-se numa
dilatada campina, assombrada de vistosos arvoredos; e a qual toda forma a ilha
do mesmo nome.
A Oeste, a vista alarga-se nas
águas azuladas do majestoso São Francisco, as quais espraiando-se, levantam por
um lado medões[ii]
de areia, enquanto do outro se quebram, ladeando, ribanceiras elevadas.
A dois tiros de arco, à margem
direita, onde a corrente é menos funda e mais estreita, o riacho do Ipanema,
com sua lagoa quase redonda, cujo leito abrange pouco mais ou menos, um quarto
de círculo; mais acima, e no mesmo correr, a Barra, cujos lanços rotos e caídos
dos seus edifícios conservam, em deplorável imagem, uma desfigurada memória do
que foi no passado. Até onde a vista alcança, nas proximidades, os sítios
amenos, frescos a aprazíveis, completam a perspectiva e enchem o lugar de
misteriosa majestade.
Antes de concluir não inútil
referir o que reza a tradição popular, apresentando à piedade dos peregrinos, o
templo que a devoção anseia conhecer e venerar.
Era no fim do século
dezessete.
Ao tempo em que os avoengos
dos primeiros habitantes da Barra ocupavam o sítio denominado Lagoa Seca, um
pouco mais abaixo daquela, tratou-se de edificar um templo em honra da VIRGEM
MÃE, no ponto mais saliente da terra firme.
Nisto desaparece a primorosa
efígie de Maria, que fazia o adorno do Oratório privado da primeira Senhora da
família; e a quem os fiéis, se recomendando, julgavam-se defendidos no presente
e olhavam para o futuro com mais inteira confiança.
Depois de reiteradas buscas e
acuradas indagações, foi encontrar a imagem, com assombro e admiração de todos,
sobre o tope do morro, dentro da cavidade de uma concha.
E logo depois desde sucesso
admirável, que bem claramente revelava a vontade da Mãe de Deus, levantou-se o
templo naquela eminência encantadora, sob a invocação dos infatigáveis padres
da Companhia de Jesus.
Esta tradição popular não é
mais do que notícia, filha de crença que devemos supor sincera, mas que de
nenhum modo obriga. Tal é a única autoridade em que ela se funda.
Referindo-se, o nosso fim é
acudir a curiosidade dos que desejam saber.
P. S. (do Paulo Afonso)”
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Transcrito do Jornal do
Penedo, 26 de agosto de 1879.
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| Igreja de N. S. dos Prazeres. Foto: Adailson Calheiros |
Ainda sobre a famosa ilha e
sua capela, temos também esse anúncio, contido no Jornal do Penedo, 8 de
fevereiro de 1890, que descreve as terras da fazenda:
“SÍTIO À VENDA
Vizinho à Barra do Ipanema e
quase na confrontação da Ilha do Ouro, tem alguns membros da família
Cavalcante, do Engenho Furado, um dos melhores sítios de quantos existem no
Baixo S. Francisco.
A casa de vivenda assente na
terra firme, a pequena distância da aprazível Igreja dos Prazeres, com sua
sólida construção, oferece bons cômodos.
Os terrenos de plantação de
arroz, compreendidos em duas léguas e em toda a extensão da parte d’aquém do
riacho do Ipanema até encontrar a primeira extrema da cerca de pedra da manga,
dão anualmente nada menos de trezentos alqueires[iii],
não falando na produção de outros cereais, cultivados nos cômoros[iv].
A grande manga, cercada toda
ela de pedra, tem proporções para acomodar os gados magros das fazendas e
refrigerá-los no tempo da seca.
Todo o demais terreno, que se
estende para o interior até a distância de duas léguas, é próprio para o
cultivo não só do algodão, milho, feijão e mandioca, como para a criação de
gado de toda a espécie. E é nele onde estão sitas quatro não pequenas fazendas,
ocupando cada uma delas um vaqueiro.
É este o sítio, cujos
consenhores[v]
têm resolvido vender, podendo quem pretender levar a efeito essa compra
entender-se com o abaixo assinado.
Barra do Ipanema, 20 de março
de 89.
Antônio de Sá Quintela
Cavalcante[vi]”
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Em 1936, essa fazenda foi
assaltada pelos cangaceiros José Moreno e Mariano. Na época, a propriedade
pertencia ao Sr. Júlio de Freitas Machado, pai do Dr. Olavo de F. Machado (este
recentemente falecido).
Atualmente, e desde muitos
anos, essas terras pertencem a herdeiros do Dr. Djalma Gonçalves dos Anjos e
continuam encantando a todos por sua exuberante beleza natural.
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| Ilha dos Prazeres, 1869. Foto: Abílio Coutinho. |
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NOTA
Caro leitor,
Deste Blog, que tem como tema
“HISTÓRIA E LITERATURA”, constam artigos repletos de informações históricas
relevantes. Essas postagens são o resultado de muita pesquisa, em geral com
farta documentação e dotadas da competente referência bibliográfica. Por esta
razão, solicitamos que, caso sejam do seu interesse para utilização em qualquer
trabalho, que delas faça uso tirando o maior proveito possível, mas fazendo
também o necessário registro de autoria e a citação das referências. Isso é
correto e justo.
[i]
Atual cidade de Belo Monte, Estado de Alagoas, situada à margem esquerda do rio
São Francisco.
[ii]
Dunas ou grandes acumulações de areia formadas pelo vento junto ao rio.
[iii]
Alqueire era uma antiga medida usada para grãos, no Baixo São Francisco. Um
alqueire tem 16 salamins; e um salamim tem cerca de 2,27 litros.
[iv]
Cômoro. O mesmo que combro. Elevação de terra que separa a calha principal do
rio das áreas mais baixas inundáveis, conhecidas como as lagoas marginais e as
várzeas.
[v]
Consenhores = proprietários.
[vi]
Cel. Antônio de Sá Quintella Cavalcante. Filho de José Cavalcante de
Albuquerque e Rosa Maria Rabello Quintella. Nasceu em São Miguel dos Campos-AL,
em 1854 e faleceu em Maceió em 12 de fevereiro de 1901. Casado com Anna Maria
Quintella Cavalcante, era proprietário do Engenho Goes.


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Excelente narrativa, uma bela crônica historiepoca ! Existe ainda hoje em são Miguel dos Campos um engenho denominado " Furado." A igreja dos prazeres é uma construção do Brasil colonial. É muito provável que a região de Barra do Ipanema serviu como núcleo de distribuição de colonos para o interior da capitania de Pernambuco do lado Sul, que hoje compreende o Estado de Alagoas. O Rio Ipanema serviu como estrada que guiava os colonos ao inóspito e na época desconhecido sertão
ResponderExcluirMais um belo artigo que afloraram passagens de minha saudosa juventude por essa bela região. Em uma delas, ao margear o Velho Chico, partindo de Belo Monte, um grupo de jovens, encabeçado por Zé Galego, aventurou-se na travessia desse majestoso rio em uma canoa pilotada por um senhor tolhido de visão (cego), que nos levou a Ilha do Ouro. Esse belo e singular ponto geográfico ajudou a amenizar a tensão por que passamos nessa aventura. Tambémfoi oportunosaber o nome do periódico da época, de lavra do meu tetravô Aquylles Balbino.
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