terça-feira, setembro 15

A ILHA DOS PRAZERES – CRÔNICA PÃO-DE-AÇUCARENSE

 

Por Etevaldo Amorim


A Ilha dos Prazeres. Foto: Site Canoa de Tolda.


Há, no baixo curso do rio São Francisco, uma elevação denominada Ilha dos Prazeres, em referência à simpática capela erigida em seu cume, em 1624, e que invoca a devoção a Nossa Senhora dos Prazeres.


Situado entre os povoados de Barra do Ipanema, município de Belo Monte-AL (na margem esquerda) e Ilha do Ouro, município de Porto da Folha-SE (na margem oposta), esse acidente geográfico oferece aos visitantes um belo panorama de toda a região, chegando até a mostrar, ao fundo, a majestosa Serra do Meirus e tudo quanto mais se possa avistar.


Sobre o morro e sua capela muitos viajantes já trataram em seus relatos e suas memórias, desde Vieira de Carvalho, Avé Lallemant, George Gardner, Dom Pedro II, etc, expressando sobre ele as mais variadas impressões.


Ultimamente, passando pelas páginas do Jornal do Penedo, edição de 26 de agosto de 1879, encontrei essa crônica, escrita em Pão de Açúcar, mas sem indicação de autoria. Termina com um lacônico “P.S. (do Paulo Affonso)”. O PAULO AFFONSO era um jornal fundado em Pão de Açúcar por Achiles Balbino de Leles Mello, em 27 de outubro de 1878. Anunciava-se assim: “Periódico imparcial, noticioso, comercial e literário”. Com oficinas na Rua do Comércio, nº 37, trazia em epígrafe: “Advoga a santa causa da ordem, da civilização e da justiça”.


Lamentando não poder identificar o autor de tão bela narrativa, transcrevo para conhecimento de todos:

 

“Pão de Açúcar, 24 de agosto de 1879.


N. S. DOS PRAZERES


Quem desta cidade desce rio abaixo, dando costas ao sol poente, quando passa pouco abaixo da importante povoação denominada Lagoa Funda[i], terá diante dos olhos, no mais elevado da coroa de um morro, ereta e grandiosa a Igreja dos Prazeres, cuja perspectiva majestosa atrai a curiosidade e comove a alma do viajante.


Que doce recordação a que este lugar sagrado embebe em si! Que belo espetáculo o que, na sua eloquência muda, testemunha este terreno abençoado!


No alto, a MÃE DE DEUS e dos homens, vestida de glórias, tendo por coroa o firmamento estrelado, cintilando nos espaços celestes. Aos seus pés a natureza – terra verde, animada pelos aspectos suaves e grandiosos duma meiga paisagem, sempre aquecida pelo calor e luz deslumbrante, que lhe derrama ao sol, regada pelo cristalino rocio, que a sustenta e formoseia.


Vista assim de longe, como na baixa, a Igreja, assentada na sumidade do morro, merece o nome pomposo de – PRAZERES, que lhe aplicaram os antigos, apresentando-se com a majestade própria de quem serve de trono à SOBERANA IMPERATRIZ da terra.


O cume do morro é esplanado e pouco abraça de círculo; é coroado de espinheiros bravios e matos silvestres.


O modelo da Igreja e uma inscrição, gravada acima da porta principal, atestam a antiguidade da tradição popular, que aponta este lugar como sendo consagrado desde o século antepassado pela mesma vocação.


Ao Norte, como ao Sul, os lados do morro, além rio, vestem-se de formosas várzeas de um verde alegre, e de oiteiros frescos à sombra de árvores.


Quase defronte, à margem esquerda, alveja Boa Vista.


A Leste, entra-se numa dilatada campina, assombrada de vistosos arvoredos; e a qual toda forma a ilha do mesmo nome.


A Oeste, a vista alarga-se nas águas azuladas do majestoso São Francisco, as quais espraiando-se, levantam por um lado medões[ii] de areia, enquanto do outro se quebram, ladeando, ribanceiras elevadas.


A dois tiros de arco, à margem direita, onde a corrente é menos funda e mais estreita, o riacho do Ipanema, com sua lagoa quase redonda, cujo leito abrange pouco mais ou menos, um quarto de círculo; mais acima, e no mesmo correr, a Barra, cujos lanços rotos e caídos dos seus edifícios conservam, em deplorável imagem, uma desfigurada memória do que foi no passado. Até onde a vista alcança, nas proximidades, os sítios amenos, frescos a aprazíveis, completam a perspectiva e enchem o lugar de misteriosa majestade.


Antes de concluir não inútil referir o que reza a tradição popular, apresentando à piedade dos peregrinos, o templo que a devoção anseia conhecer e venerar.


Era no fim do século dezessete.


Ao tempo em que os avoengos dos primeiros habitantes da Barra ocupavam o sítio denominado Lagoa Seca, um pouco mais abaixo daquela, tratou-se de edificar um templo em honra da VIRGEM MÃE, no ponto mais saliente da terra firme.


Nisto desaparece a primorosa efígie de Maria, que fazia o adorno do Oratório privado da primeira Senhora da família; e a quem os fiéis, se recomendando, julgavam-se defendidos no presente e olhavam para o futuro com mais inteira confiança.


Depois de reiteradas buscas e acuradas indagações, foi encontrar a imagem, com assombro e admiração de todos, sobre o tope do morro, dentro da cavidade de uma concha.


E logo depois desde sucesso admirável, que bem claramente revelava a vontade da Mãe de Deus, levantou-se o templo naquela eminência encantadora, sob a invocação dos infatigáveis padres da Companhia de Jesus.


Esta tradição popular não é mais do que notícia, filha de crença que devemos supor sincera, mas que de nenhum modo obriga. Tal é a única autoridade em que ela se funda.


Referindo-se, o nosso fim é acudir a curiosidade dos que desejam saber.


P. S. (do Paulo Afonso)”


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Transcrito do Jornal do Penedo, 26 de agosto de 1879.

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Igreja de N. S. dos Prazeres. Foto: Adailson Calheiros


Ainda sobre a famosa ilha e sua capela, temos também esse anúncio, contido no Jornal do Penedo, 8 de fevereiro de 1890, que descreve as terras da fazenda:


“SÍTIO À VENDA


Vizinho à Barra do Ipanema e quase na confrontação da Ilha do Ouro, tem alguns membros da família Cavalcante, do Engenho Furado, um dos melhores sítios de quantos existem no Baixo S. Francisco.


A casa de vivenda assente na terra firme, a pequena distância da aprazível Igreja dos Prazeres, com sua sólida construção, oferece bons cômodos.


Os terrenos de plantação de arroz, compreendidos em duas léguas e em toda a extensão da parte d’aquém do riacho do Ipanema até encontrar a primeira extrema da cerca de pedra da manga, dão anualmente nada menos de trezentos alqueires[iii], não falando na produção de outros cereais, cultivados nos cômoros[iv].


A grande manga, cercada toda ela de pedra, tem proporções para acomodar os gados magros das fazendas e refrigerá-los no tempo da seca.


Todo o demais terreno, que se estende para o interior até a distância de duas léguas, é próprio para o cultivo não só do algodão, milho, feijão e mandioca, como para a criação de gado de toda a espécie. E é nele onde estão sitas quatro não pequenas fazendas, ocupando cada uma delas um vaqueiro.


É este o sítio, cujos consenhores[v] têm resolvido vender, podendo quem pretender levar a efeito essa compra entender-se com o abaixo assinado.


Barra do Ipanema, 20 de março de 89.


Antônio de Sá Quintela Cavalcante[vi]

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Em 1936, essa fazenda foi assaltada pelos cangaceiros José Moreno e Mariano. Na época, a propriedade pertencia ao Sr. Júlio de Freitas Machado, pai do Dr. Olavo de F. Machado (este recentemente falecido).


Atualmente, e desde muitos anos, essas terras pertencem a herdeiros do Dr. Djalma Gonçalves dos Anjos e continuam encantando a todos por sua exuberante beleza natural.


Ilha dos Prazeres, 1869. Foto: Abílio Coutinho.


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NOTA


Caro leitor,


Deste Blog, que tem como tema “HISTÓRIA E LITERATURA”, constam artigos repletos de informações históricas relevantes. Essas postagens são o resultado de muita pesquisa, em geral com farta documentação e dotadas da competente referência bibliográfica. Por esta razão, solicitamos que, caso sejam do seu interesse para utilização em qualquer trabalho, que delas faça uso tirando o maior proveito possível, mas fazendo também o necessário registro de autoria e a citação das referências. Isso é correto e justo.



[i] Atual cidade de Belo Monte, Estado de Alagoas, situada à margem esquerda do rio São Francisco.

[ii] Dunas ou grandes acumulações de areia formadas pelo vento junto ao rio.

[iii] Alqueire era uma antiga medida usada para grãos, no Baixo São Francisco. Um alqueire tem 16 salamins; e um salamim tem cerca de 2,27 litros.

[iv] Cômoro. O mesmo que combro. Elevação de terra que separa a calha principal do rio das áreas mais baixas inundáveis, conhecidas como as lagoas marginais e as várzeas.

[v] Consenhores = proprietários.

[vi] Cel. Antônio de Sá Quintella Cavalcante. Filho de José Cavalcante de Albuquerque e Rosa Maria Rabello Quintella. Nasceu em São Miguel dos Campos-AL, em 1854 e faleceu em Maceió em 12 de fevereiro de 1901. Casado com Anna Maria Quintella Cavalcante, era proprietário do Engenho Goes.

2 comentários:

  1. Excelente narrativa, uma bela crônica historiepoca ! Existe ainda hoje em são Miguel dos Campos um engenho denominado " Furado." A igreja dos prazeres é uma construção do Brasil colonial. É muito provável que a região de Barra do Ipanema serviu como núcleo de distribuição de colonos para o interior da capitania de Pernambuco do lado Sul, que hoje compreende o Estado de Alagoas. O Rio Ipanema serviu como estrada que guiava os colonos ao inóspito e na época desconhecido sertão

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  2. Mais um belo artigo que afloraram passagens de minha saudosa juventude por essa bela região. Em uma delas, ao margear o Velho Chico, partindo de Belo Monte, um grupo de jovens, encabeçado por Zé Galego, aventurou-se na travessia desse majestoso rio em uma canoa pilotada por um senhor tolhido de visão (cego), que nos levou a Ilha do Ouro. Esse belo e singular ponto geográfico ajudou a amenizar a tensão por que passamos nessa aventura. Tambémfoi oportunosaber o nome do periódico da época, de lavra do meu tetravô Aquylles Balbino.

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A POESIA DE PÃO DE AÇÚCAR



PÃO DE AÇÚCAR


Marcus Vinícius*


Meu mundo bom

De mandacarus

E Xique-xiques;

Minha distante carícia

Onde o São Francisco

Provoca sempre

Uma mensagem de saudade.


Jaciobá,

De Manoel Rego, a exponência;

De Bráulio Cavalcante, o mártir;

De Nezinho (o Cego), a música.


Jaciobá,

Da poesia romântica

De Vinícius Ligianus;

Da parnasiana de Bem Gum.


Jaciobá,

Das regências dos maestros

Abílio e Nozinho.


Pão de Açúcar,

Vejo o exagero do violão

De Adail Simas;

Vejo acordes tão belos

De Paulo Alves e Zequinha.

O cavaquinho harmonioso

De João de Santa,

Que beleza!

O pandeiro inquieto

De Zé Negão

Naquele rítmo de extasiar;

Saudade infinita

De Agobar Feitosa

(não é bom lembrar...)


Pão de Açúcar

Dos emigrantes

Roberto Alvim,

Eraldo Lacet,

Zé Amaral...

Verdadeiros jaciobenses.

E mais:

As peixadas de Evenus Luz,

Aquele que tem a “estrela”

Sem conhecê-la.


Pão de Açúcar

Dos que saíram:

Zaluar Santana,

Américo Castro,

Darras Nóia,

Manoel Passinha.


Pão de Açúcar

Dos que ficaram:

Luizinho Machado

(a educação personificada)

E João Lisboa

(do Cristo Redentor)

A grandiosa jóia.


Pão de Açúcar,

Meu mundo distante

De Cáctus

E águas santas.

______________

Marcus Vinícius Maciel Mendonça(Ícaro)

(*) Pão de Açúcar(AL), 14.02.1937

(+) Maceió (AL), 07.05.1976

Publicado no livro: Pão de Açúcar, cem anos de poesia.


*****


PÃO DE AÇÚCAR


Dorme, cidade branca, silenciosa e triste.

Dum balcão de janela eu velo o seu dormir.

Nas tuas ermas ruas somente o pó existe,

O pó que o vendaval deixou no chão cair.


Dorme, cidade branca, do céu a lua assiste

O teu profundo sono num divino sorrir.

Só de silêncio e sonhos o teu viver consiste,

Sob um manto de estrelas trêmulas a luzir.


Assim, amortecida, tú guardas teus mistérios.

Teus jardins se parecem com vastos cemitérios

Por onde as brisas passam em brando sussurrar.


Aqui e ali tu tens um alto campanário,

Que dá maior relevo ao pálido cenário

Do teu calmo dormir em noite de luar.

____

Ben Gum, pseudônimo de José Mendes

Guimarães - Zequinha Guimarães.






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Pão de Açúcar, Cem Anos de Poesia