quinta-feira, fevereiro 18

UMA EXCURSÃO DO RECIFE ÀS CACHOEIRAS DE PAULO AFONSO

 

Por E. C.[i]

Graças à visita efetuada, de alguns anos para cá, por diversos cavalheiros residentes nesta província, já se vão tornando mais conhecidas essas belíssimas cachoeiras, verdadeira maravilha da natureza e realmente digna desta grandiosa e admirável terra do Brasil.

Cachoeira de Paulo Afonso. Foto: Marc Ferrez, 1875.

Entusiasmados pela narração d’uma viagem, realizada em fevereiro último pelo conhecido explorador francês Mr. Marcel Monnier[ii], o nosso mais vivo desejo era empreender uma excursão, na primeira ocasião, o que não se fez esperar.

Visitado ultimamente por dois distintos viajantes, M. M. Prosper Loques[iii] e Eduardo Morel[iv], representantes de casas de comércio de França e encarregados pelo governo de sua nação de estudos comerciais, conseguimos fazer entender aos nossos amigos e patrícios que uma visita às margens do São Francisco não seria destituída de todo interesse para o comércio europeu, e que, além disto, as cachoeiras de Paulo Afonso valiam bem a pena de se desviarem eles do itinerário pré-fixado.

Resolvida a excursão, embarcamos no dia 28 de julho e voltamos a 15 de agosto, maravilhados de tudo quanto presenciamos e ao mesmo tempo penhorados pelo amável tratamento que encontramos durante todo o percurso, tanto da parte dos funcionários do Estado, como dos particulares, o que mais uma vez confirmou a proverbial hospitalidade dos brasileiros.

Marcel Monnier, 1892.

É muita audácia de nossa parte procurar descrever o que são as cachoeiras de Paulo Afonso, quando tantos talentos já se recusaram a este trabalho, sob o pretexto de que tais maravilhas são indescritíveis. Com efeito, o são, e dignas da pena de um Agassiz[v] ou Humboldt[vi]; mas, possuído de sincero reconhecimento para com todas as pessoas com que entretivemos relações, sempre procuraremos manifestar as nossas impressões, com o único intuito de serem úteis e proveitosas àquela região do Brasil.

Segundo opiniões muito sérias, não há comparação que se possa fazer entre a muito reputada queda do Niágara, nos Estados Unidos da América do Norte, e as cachoeiras de Paulo Afonso.

Ali existe uma enorme e única queda d’água, de quarenta e tantos metros de altura; aqui são oito cachoeiras escadadas em quatro planos, avaliados em cento e tantos metros, do leito do rio ao fundo da última queda.

A chamada “primeira vista” é o lugar onde o Rio São Francisco, ainda de uma grande altura, acha-se dividido em quatro quedas de uns dez metros de altura e mais um rápido, que se reúnem todos numa bacia, para de novo se precipitarem em uma só cachoeira de 6 a 8 metros de altura.

Marcel Monnier. Foto: Gállica

Essa enorme massa d’águas quebradas, espumantes, formam um curso de 30 metros de comprimento sobre 20 de largo que parece mais um enorme monte de algodão desfiado posto em movimento por uma força invisível. Este mesmo curso atira-se de novo num abismo de alguns metros de profundidade e lá então vem juntar-se a outro braço do São Francisco da província da Bahia, chamado vulgarmente de Trapera, que é uma linda catadupa de uns vinte e cinco metros de altura e que parece ter dez a doze metros de altura.

Todas as águas do São Francisco reunidas, torcendo-se, parecendo ferver e com uma violência extraordinária caem num sorvedouro imenso, cuja profundidade não pode ser avaliada exatamente atenta à pulverização das águas que formam, ao levantar do sol, um esplêndido arco-íris. É a isto que se chama a “queda grande”.

Aqui terminam as cachoeiras, e o majestoso rio segue outra vez o seu curso no mesmo sentido da última queda, num percurso de cerca de duzentos metros entre montes muito elevados e, bruscamente, quase a ângulo direito, volta pela direita deixando do outro lado um leito com pouca água, de cerca de sessenta metros, que só enche na ocasião das cheias, e cujo fundo é a entrada da Furna ou Gruta dos Morcegos.

Gruta dos Morcegos. Foto: Adalberto Marroquim
Imaginem os leitores uma imensa cavidade praticada pelas águas numa montanha de trinta a quarenta metros de alto, a entrada principal de forma bizarra e toda oblíqua da direita para a esquerda, com vinte metros de altura, uma furna com mais de cinquenta metros de fundo sobre quinze a vinte de largo, verdadeira galeria de ruinas, habitada unicamente pelos morcegos. Em suma esta gruta é curiosa, mas não compensa o trabalho que dá ao visitante para descer e subir outra vez.

Voltemos agora à Cachoeira de Paulo Afonso para falar da vista chamada “o Angiquinho”. É o ponto mais elevado donde se tem a vista geral de todas as cachoeiras da direita e pela esquerda e aos pés, numa profundidade de mais de cinquenta metros a Grande Queda.


Angiquinho. Foto: Ignácio F. Mendo, 1880.


Queda de Angiquinho. Foto: Marcel Monnier, 1887.Fonte: Gallica – Biblioteca Digital Francesa



A sensação que se experimenta vendo-se aquilo não pode se explicar! Fica-se maravilhado e no mesmo tempo aterrorizado pelo grandioso e encantador espetáculo que se contempla.

Toda sorte de reflexões passa pelo cérebro e fica-se em admiração diante do esplendor da Grande Natureza!

Panorama igual nunca se olvida! Pensa-se somente nas grandezas da criação neste lugar quase deserto e de um encanto inimaginável.

Uma única casinha de barro e palha, a do vaqueiro que nos hospeda, fica distante meio quilômetro.

Só se ouve o estampido das águas, que parece a voz de um gigante ainda não imaginado!

Para o enlevo dos visitantes desejamos que as cachoeiras fiquem ainda muitos anos como estão, tias quais foram criadas; e somente por este motivo continuarão a ser mil vezes superior ao afamado Niágara onde a civilização já colocou fábricas de cerveja, restaurantes, etc, etc...

A vista chamada “Limpo do Imperador”, situada do outro lado da Furna, é realmente bonita. Mas a queda principal e a Trapera acham-se um pouco mais escondidas por uma enorme pedra que sobressai do lado esquerdo. Por esta razão, os nossos companheiros, M. M. Loques e Morel, tendo que tirar umas fotografias, procuraram entre o lugar Angiquinho e a volta do rio, um ponto livre de impedimentos. Depois de muito trabalho, acharam a ponta extrema de um rochedo, de onde se pode ver a Queda Grande e a Trapera. Este lugar foi, com a devida licença, batizado de “Vista dos Franceses”, nome que os habitantes do lugar prometeram conservar. Foi colocada uma bandeirinha com o dístico seguinte escrito a lápis:

“VIVA O BRASIL! VIVA A FRANÇA!

VISTA DOS FRANCESES

5 DE AGOSTO DE 1887

Distante das grandes cachoeiras um quilômetro, existe a cachoeira, ou antes, os rápidos do “Vai-e-Vem”, chamados assim pelo movimento das águas.

Imagine-se uma garganta entre pedras, de 6 a 8 metros de largura, sobre 30 de comprimento e cujo terreno é areia finíssima: é esse o lugar dos banhos.

Os amadores entrando para água, que sobre e desce constantemente com bastante rapidez – verdadeiro fluxo e refluxo do mar – num momento tem água até aos joelhos e até o peito. Os banhos aí são agradáveis, visto a constante renovação do elemento. Este movimento de vai e vem é causado pelo encontro de duas correntezas de braços diferentes do Rio São Francisco.

A vida que se passa nas cachoeiras é a mais primitiva que se pode desejar. Encontra-se, entretanto excelente leite de vaca, ovos, galinha, deliciosa carne do sol, muitas cabras, cabritos e porco. Há bastante caça, sobretudo rolas, rolinhas, periquitos e papagaios.

O homem que nos dá hospitalidade ali se chama Luiz de França do Nascimento; é vaqueiro do Exmº Sr. Barão de Água Branca[vii], riquíssimo capitalista e proprietário de uma imensa porção de terrenos para criação de gado, junto às cachoeiras.

A casa do vaqueiro é pequena e tem duas saletas: a da frente, geralmente oferecida aos hóspedes, não tem porta; de sorte que não é raro serem estes visitados durante a noite por cabras, cabritos e porquinhas, sem falar de outros animaizinhos.

Praticará, portanto, um ato de caridade e ao mesmo tempo de patriotismo bem entendido S. Excª o Sr. Barão de Água Branca se se resolver a mandar fazer ali uma casa mais cômoda.

É bem certo que logo que o mais simples conforto faltar, as cachoeiras de Paulo Afonso serão visitadas por um número mui limitado de pessoas, porém mais certo é que no dia em que os visitantes tiverem a certeza de que não serão obrigados a dormir à la belle étoile, expostos ao sereno, ao frio e à chuva, do sul e norte do Império e, quem sabe?, talvez da Europa, os touristes hão de afluir e contribuirão para enriquecer a região, que entre parênteses, nos pareceu assaz pobre e de vegetação raquítica, pois, afora a criação de gado e pequenas plantações, não notamos outras espécies de rendimento para a população.

Esperamos que S. Exª o Barão de Água Branca se dignará de ouvir o humilde apelo que fazemos aos seus sentimentos e que mandará levantar uma casa onde todos os visitantes possam estar ao abrigo das inclemências do tempo.

A viagem para as cachoeiras de Paulo Afonso, que deve ser efetuada de Junho até Outubro por causa da baixa das águas, é muito fácil como poderão julgar os que me levem pelo itinerário que damos abaixo; e se não fosse a falta absoluta de conforto no seu término, estamos certos de que a estrada de ferro teria uma receita mais vantajosa do que tem atualmente.

De Jatobá, ponto extremo da linha às cachoeiras, ou antes, dos rápidos de Itaparica a distância é de 3 a 4 quilômetros.

Uma excursão a esses rápidos é penosíssima e de pouco interesse comparada com a que se faz à cachoeira de Paulo Afonso, apesar de que o braço principal do São Francisco forma um admirável rápido: talvez o mais importante do mundo.

O mais curioso nessas paragens são as pedras de formas excêntricas, de cor de ferro ou bronze envernizado, denominadas “os caldeirões”; com efeito, parecem caldeiras monstruosas usadas pelas grandes indústrias.

Encontra-se uma grande variedade de pedrinhas curiosíssimas e bastante cristal e, procurando-se com cuidado, encontrar-se-ão diamantes.

O Rio São Francisco divide-se aí em diversos braços, sendo um tão estreito que os guias atrevem-se, apesar do perigo, a pular de um lado para outro sobre apedra lisa.

Itaparica não dá ideia do que são as cachoeiras de Paulo Afonso e pode a gente dispensar-se de ir até lá; são 46 quilômetros de menos pela estrada de ferro.

ITINERÁRIO E INFORMAÇÕES.

Do Recife embarca-se nos vapores das Companhias Baiana ou Pernambucana, que saem para Penedo, pelo menos semanalmente.

O serviço de bordo é bem feito e a comida muito regular.

A viagem do Recife a Maceió é de 10 a 12 horas e de Maceió 6 à Barra do São Francisco.

Maceió. Deixa ao passageiro uma impressão muito agradável: pressente-se que a capital da província das Alagoas vai brevemente tomar grande desenvolvimento.

Macei, Rua do Comércio. Foto Julien Boquel 1872/Instituto Moreira Salles


A barra do grande rio é de um acesso bastante difícil, devendo-se aproveitar o levantamento das ondas para passá-la e, apesar da perícia e grande prática não só dos comandantes dos vapores como também dos práticos especiais, o navio dá quase sempre algumas pancadas na areia.

Os vapores sobem geralmente o rio até Penedo, mas às vezes, quando as águas estão baixas, fundeiam a três ou quatro milhas da barra (a maré não se faz aí sentir sensivelmente). Então, o prático do rio, os passageiros e malas são baldeados para uma embarcação que faz lembrar a barcaça pernambucana, que no Rio São Francisco chama-se: canoa.

A canoa difere da barcaça tanto pela disposição da mastreação como pela colocação do camarote, que é de palha e acha-se na proa e não na popa. Quanto à sua mastreação, é composta simplesmente de um mastro grande, armado de duas velas de cada lado, o que deu ocasião a S. M. o Imperador, o Sr. D. Pedro II, na sua viagem às cachoeiras, lhe desse o nome tão bem aplicado de “Borboleta do São Francisco”.

A canoa contribuiu muito para a alegria da viagem.

Nada mais interessante do que quando se encontram porções dessas borboletas subindo o rio, às vezes com mais rapidez do que os vapores.

Chega-se em Penedo no fim de duas horas, depois de ter passado o povoado de Ilha dos Bois, vendo-se algumas plantações de cana, e Vila Nova, na província de Sergipe, vila que nos pareceu em vias de prosperidade, graças à importante fábrica de azeite de algodão e de outras qualidades de propriedade dos Srs. A. Vaz de Carvalho & Cia.

O aspecto de Penedo é muito bonito, mas, infelizmente a ilusão se perde ao desembarcar: tal é o estado de desleixo em que se acha o lugar de desembarque.

Entretanto, Penedo é um centro e talvez chamado a tornar-se uma cidade de grande importância daí a pouco tempo. Muitas transações dali são efetuadas com a capital da Bahia e poucas com a de Pernambuco.

Penedo acha-se relacionado com todas as localidades do Rio São Francisco até Piranhas por uma linha de vapores subvencionada pelo governo geral, linha de uma importância capital e cujo serviço é pontualmente feito. Cada segunda-feira de manhã segue o vapor para Piranhas, ponto extremo da navegação, situado mais ou menos cem milhas acima, as quais são percorridas em 16 horas de marcha, não contando a noite, durante a qual o vapor não anda, atentas as dificuldades da navegação.

Esta viagem é muito interessante e curiosa por causa das inúmeras voltas que faz continuadamente o vaporzinho e que tornam o caminho duas vezes mais comprido.

É preciso que a gente do bordo esteja muito acostumada para não encalhar, pois, a cada instante, encontram-se bancos de areia chamados “coroa” e duas ou três milhas antes do termo da travessia navega-se no meio de pedras: dois homens no leme são suficientes para o navio obedecer às ordens do prático.

A paisagem das margens do rio é admirável e nunca aborrece.

O vapor levando as malas faz escala em quase todos os pontos habitados, e toma passageiros em todo o percurso.

A tarifa da passagem varia até 120 rs, de uma localidade a outra.

As escalas são as seguintes:

1.      Saúde;

2.      Propriá (província de Sergipe, cidade de bela aparência);

3.      Porto Real do Colégio;

4.      São Brás;

5.      Amparo;

6.      Lagoa Comprida;

7.      Traipu;

8.      Curral de Pedras;

9.      Ilha do Ouro;

10.  Vila do Belo Monte;

11.  Araticum;

12.  Limoeiro;

13.  São Tiago;

14.  São Pedro;

15.  Pão de Açúcar (cidade da província das Alagoas admiravelmente situada numa imensa bacia; de frente, na outra margem do rio, o lugar é chamado Niterói, o que completa a ilusão de um Rio de Janeiro em miniatura).

16.  Ilha do Ferro;

17.  Curralinho;

18.  Entremontes;

19.  Nova Olinda;

20.  Piranhas: pequena povoação de Alagoas de um pitoresco estranho, construídas sobre os lados e no vale de duas montanhas.

Ao pé da vila de Piranhas está situada a estação principal da Estrada de Ferro de Paulo Afonso, de um admirável efeito.

Acha-se ali em construção uma igrejinha para cuja edificação trabalha o povo inteiro, graças à energia e dedicação do Rev. Capuchinho Fr. Venâncio[viii], que conseguiu levar o povo em procissão e ao anoitecer à beira do rio para buscar milheiros de tijolos e outros materiais; e assim homens e meninos, mas sobretudo mulheres, vão cantando e carregando a sua meia dúzia de tijolos a um quilômetro de distância.

Infelizmente o dinheiro falta e, apesar da boa vontade de todos e do Rev. Fr. Venâncio, a pequena igreja não se terminará se o Governo provincial ou geral, ou uma pessoa caridosa não vier contribuir com o seu óbolo para auxiliar a construção dela.

Piranhas, AL, vendo-se a igreja em construção.

Os trens de passageiros chegam até Jatobá e estações intermediárias, partem duas vezes por semana, às segundas e quintas-feiras, regressando nas terças e sextas.

A Estrada de Ferro de Paulo Afonso tem a reputação de haver custado ao Estado uma quantia avultadíssima; pareceu-nos bem construída apesar da imensidade de curvas, subidas e descidas, a maior parte das quais poderia ser evitada.

O material rodante é muito reduzido; é de origem americana. O combustível utilizado para as locomotivas é lenha e não carvão de pedra, custando em Piranhas a tonelada deste último produto trinta a quarenta mil réis. Sendo o rendimento da estrada quase nulo, as despesas devem ser e são muito reduzidas. Os seis primeiros quilômetros, à saída de Piranhas, são os que exigiram mais obras em consequência das subidas fabricadas na pedra viva.

Piranhas. Estação da Estrada de Ferro Paulo Afonso. Foto: Adolpho Lindemann, 1888


O panorama é esplêndido, mas o trajeto torna-se monótono uma vez chegado o trem à planície.

A vegetação é pequena, os arvoredos de pequena altura, o terreno muito pedregoso. A pouca distância de Piranhas encontra-se pedra mole e de excelente qualidade para as edificações.

O trajeto da estrada até Jatobá é de 6 horas, e de 4 somente até Sinimbu, lugar mais perto das cachoeiras de Paulo Afonso, onde se encontram cavalos, geralmente bons, para alugar. O caminho para as cachoeiras é excelente e em menos de duas horas pode-se chegar ao fim da viagem.

Jatobá é de fundação recente, já contando mais de duzentas casas: há quatro ou cinco anos não existiam dez! Todas as autoridades, que outrora estavam em Tacaratu, passaram para Jatobá. Esta vila é, talvez, de um grande futuro. Para ali, provavelmente, é que serão trazidos, depois da desobstrução do Alto São Francisco, em que se está trabalhando ativamente, muitos produtos das províncias de Minas Gerais e da Bahia, pelo menos durante o tempo em que não ficarem prontas as linhas de prolongamento da estrada de ferro de S. Francisco, tanto do lado de Pernambuco como da Bahia.

O que já de notável a ver em Jatobá mesmo é, especialmente, o cais da estrada de ferro, na beira do rio, de uns 16 a 20 metros de altura sobre 25 ou 30 de comprimento, talhado em parte na rocha. Obra bonita é esta, mas de um custo elevado para as necessidades atuais. A estação e oficinas da estrada também são monumentos que não passam despercebidos.

RESUMO

A viagem às cachoeiras de Paulo Afonso é não somente muito fácil como pouco dispendiosa. A passagem do Recife a Penedo é de 30$000 por pessoa, e de 4$ ou 5$ a estada em Penedo (dois dias); 6$500 a passagem de Penedo a Piranhas; 6$000 em quatro refeições diárias a bordo do vaporzinho fluvial; 4$000 na da estrada de ferro de Piranhas a Sinimbu; 5$000 de aluguel por um cavalo por 3 dias.

Gasta-se nas cachoeiras o que convier, pequena gratificação ao guia, leite muito barato, ovos a quatro vinténs a dúzia; mas deve-se levar todas as outras provisões de boca como: vinho, pão, aguardente, etc, que são artigos desconhecidos por lá.

Não podemos acabar este pequeno trabalho sem vir agradecer publicamente, do fundo da alma, a todas as pessoas que nos dispensaram suas amabilidades, avisos, conselhos e recomendações.

Entre elas ao:

Exmº Sr. Dr. Moreira Alves[ix], Ex-Presidente da Província das Alagoas.

Ao Ilmº Sr. Comendador Manoel Leão[x], de Maceió e Exmª família.

Ao Exmº Sr. Dr. Novaes de Carvalho[xi], muito digno Juiz de Direito de Jatobá e sua Exmª família.

Ao Ilmº Sr. Coronel Antônio Ulisses de Carvalho, simpático e amável empreiteiro da navegação do S. Francisco.

Ao Ilmº Sr. Dr. Henrique Théberge[xii], diretor interino da Estrada de Paulo Afonso.

Ao Ilmº Sr Valdevino[xiii], Chefe da Estação em Jatobá e sua digna consorte.

Ao Ilmº Sr. Dr. Vicente Landim[xiv], Promotor Público de Pão de Açúcar.

Aos Ilmºs Srs. Alberto e Samuel Vaz de Carvalho, distintos industriais em Vila Nova.

O Ilmº Sr. Major Theodósio[xv], de Piranhas, do qual conservamos a melhor lembrança por sua dedicação em fazer-nos visitar a oitava maravilha do mundo:

AS CACHOEIRAS DE PAULO AFONSO.

Terminando, repetiremos aqui o que escrevemos no livro dos visitantes:

AMADORES! APRONTEM AS PERNAS. OS INCOVENIENTES DA EXCURSÃO SERÃO LOGO ESQUECIDOS E LARGAMENTE COMPENSADOS PELAS BELEZAS QUE VÃO ADMIRAR.”

(Por oito visitantes saídos de Pernambuco em viagem de recreio[xvi]), E. C.

Recife, 26 de agosto de 1887.

José Moreira Alves de Carvalho. Foto Alberto Henschel


Dr. Henrique Theberge. Foto. Academia Cearense de Letras

Dr. José Novaes de Souza Carvalho. Foto: STM





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NOTA.

Caro leitor,

Este Blog, que tem como tema “HISTÓRIA E LITERATURA”, exibe postagens com informações históricas resultantes de pesquisas, em geral com farta documentação e dotadas da competente referência bibliográfica. Por esta razão, solicitamos que, caso algumas delas seja do seu interesse para utilização em qualquer trabalho, que faça uso tirando o maior proveito possível, mas fazendo também o necessário registro de autoria e a citação das referências. Isso é correto e justo. Segue abaixo, como exemplo, a forma correta de referência:

Sugestão de registro de referência:

CHALINE, Eugène. UMA EXCURSÃO DO RECIFE ÁS CACHOEIRAS DE PAULO AFONSO – NOTAS DE ETEVALDO AMORIM. Maceió, fevereiro de 2021. Disponível em: http://blogdoetevaldo.blogspot.com/2021/02/uma-excursao-do-recife-as-cachoeiras-de.html. Acesso em: dia, mês e ano.



[i] O autor assina apenas com as iniciais “E. C.”. Quem poderia ser? Seria uma pena publicar sem ter a identificação de quem escreveu tão preciosas considerações sobre a nossa Cachoeira de Paulo Afonso. Pusemo-nos então a pesquisar e, por fim, revelou-se o autor. Trata-se de Eugene Joseph Chaline, conhecido empresário residente no Recife lá pelo final do Século XIX.

Chegamos a essa conclusão a partir da data de seu embarque para a sua excursão. Seu nome está entre os passageiros do vapor S. Francisco, partindo do Recife para os portos do Sul, em companhia de sua esposa e dos franceses M. M. Prosper Loques e Eduardo Morel (JORNAL DO RECIFE, 29 DE JULHO DE 1887).

A partir de 1880, E. Chaline passou a atuar como agente da Agência telegráfica Havas, de Paris, no Recife; correspondente do Jornal do Comércio-RJ; Diretor-Secretário da Companhia Hotel Internacional de Pernambuco. Nascido na França, filho de Miguel Chaline e de Elizabeth Chaline.

[ii] Escritor francês. Nasceu em Paris 8 de fevereiro de 1853 e faleceu  a 18 de setembro de 1918, em Jeurre, França.

[iii] Nota do jornal Gazeta de Notícias, do Rio de Janeiro, edição de 26 de setembro de 1887, informa a chegada de Prosper Loques e Edouard Morel à Capital do Império, depois de uma excursão de cerca de cinco meses ao Amazonas, Pará, Maranhão, Alagoas e Bahia. A missão de Loques, representando grandes fábricas francesas na América Latina e Antilhas, seria estudar os meios de desenvolver as relações comerciais da França com países desses continentes. Edouard Morel o ajudava, sendo encarregado da livraria literária, industrial, artística e médica. O jornal ainda registra que Prosper Loques teria colaborado com o Brasil, auxiliando o jornalista francês Emilio Delean, no jornal Le Brézil a la Exposition d’Anvers durante a realização da  Exposição Universal de Antuérpia, também conhecida como Exposition d'Anvers, que aconteceu de 2 de maio a 2 de novembro de 1885, na Bélgica. Essa Exposição recebeu cerca de 3 milhões e meio de habitantes e contou com a participação de 25 nações. O delegado especial do governo imperial brasileiro na exposição foi o Conde de Villeneuve, que destacou sua importância para atrair a atenção do comércio europeu para as matérias-primas brasileiras. Delean, aliás, redigiu por muitos no Rio de Janeiro o jornal Messager du Brezil.

[iv] Edouard Morel. 8 de fevereiro de 1853, Paris. Faleceu em Jeurre, França, a 18 de setembro de 1918.

[v] Jean Louis Rodolphe Agassiz foi um zoólogo, geólogo suíço. Nasceu em Mont-Vully

 A 28 de maio de 1807 e faleceu no dia 14 de dezembro de 1873, em Cambridge, Massachusetts, EUA.

[vi] Friedrich Wilhelm Heinrich Alexander von Humboldt. Geógrafo, naturalista e explorador nascido na Prússia, atual Alemanha. Nasceu em Berlim a 14 de setembro de 1769 e faleceu  e ali faleceu a 6 de maio de 1859.

[vii] Joaquim Antônio de Siqueira Torres. Nasceu a 8 de dezembro de 1808 e faleceu a 29 de janeiro de 1888. Filho de Teotônio Vitoriano Torres e Gertrude Maria da Trindade. “Recebeu do imperador Pedro II o título de “Barão de Água Branca”, em 15/11/1879.

[viii] Frei Venâncio Maria de Ferrara (1822-1906) que foi Prefeito da Congregação dos Capuchinhos no hospício da Penha – Pernambuco. Fundador do povoado Santa Cruz do Deserto, município de Mata Grande-AL (http://blogdoetevaldo.blogspot.com/2015/06/santa-cruz-do-deserto-2.html)  

[ix] José Moreira Alves da Silva. Presidente das Alagoas de 8 de novembro de 1886 a 5 de setembro de 1887. Nasceu em Escada-PE, 28 de novembro de 1850. Faleceu no Acre, 8 de maio de 1909) foi um político brasileiro. O Dr. Moreira Alves chegara, no dia 18 de julho de 1887, de excursão às Cachoeiras de Paulo Afonso.

[x] Manoel Joaquim da Silva Leão.

[xi] José Novaes de Souza Carvalho. Filho de Manuel José de Carvalho e Veridiana de Sousa Lima e Carvalho, nasceu em Anapurus, Estado do Maranhão, a 02/04/1852. Estudou no Porto-Portugal, tendo se formado pela Faculdade de Direito do Recife em 1874, ano em que se casou com Júlia Augusta Guimarães de Carvalho. Foi nomeado Juiz de Direito de Jatobá em 24 de dezembro de 1886. Foi Ministro do Supremo Tribunal Militar. Faleceu a no Rio de Janeiro a 26 de março de 1925. Fonte: https://dspace.stm.jus.br/. Gazeta de Notícias, RJ, 27 de março de 1925.

[xii] Engenheiro e militar. Filho de Pedro Francisco Théberge (médico francês e historiador) e Maria Elisa Soulé Théberge, nasceu no Recife a 27 de junho de 1838 e faleceu em Fortaleza-CE a 11 de junho de 1905. Era casado com Emília do Amaral Théberge.

[xiii] Valdevino Vieira Sandes.

[xiv] Vicente de Leirins Ferreria Landim.  Nasceu em São Lourenço da Mata-PE a 24 de maio de 1859. Formou-se em 5 de novembro de 1885 pela Faculdade do Recife. Assumiu a promotoria em 1885.

Em 1886, casa-se com Maria Bernardina Alves Cavalcante, que após o casamento passou a se chamar Maria Cavalcante Ferreira Landim. Era pai do Monsenhor Landim (Manoel Alves Ferreira Landim), nascido em Pão de Açúcar a 3 de maio de 1887. Falecem em 1943.

[xv] Manoel Theodosio Bispo.  Foi por muitos anos condutor de malas dos Correios em Piranhas. Segundo nota do Diário de Pernambuco de 15 de janeiro de 1926, faleceu em Jatobá de Tacaratu-PE com a avançadíssima idade de 130 anos. Diz ainda a nota que ele foi “por muito tempo a pessoa de maior representação em Piranhas-AL, onde nasceu”.

[xvi] Ernesto Demétrio da Costa Amorim, a mulher dele, cunhada dele, Eugene Chaline, Antonieta, Prósper Loques, Eduardo Morel, Manoel Custódio da Silva.

sábado, fevereiro 13

MEMÓRIA DESCRITIVA E ESTATÍSTICA DO RIO DE SÃO FRANCISCO (Desde a foz até o último ponto da navegação abaixo da cachoeira de Paulo Afonso)

José Próspero Jeovah da Silva Caroatá[i]

 

A cordilheira da Borborema, que o rio de São Francisco atravessa formando a notável Cachoeira de Paulo Afonso, divide-o em Alto e Baixo rio. Depois da grande queda continua o rio a descer, dando alguns pequenos saltos, comprimido entre enormes penedias e medonhos barrancos, em alguns lugares cortados tão a prumo que fingem cais. É inacessível, exceto no ponto do Salgado, onde há passagem de um lado para o outro, e entrada para o centro da Bahia ao Sul, e para Alagoas ao Norte, começando esta província da barra do riacho Moxotó, duas léguas acima de Paulo Afonso.


Cachoeira de Paulo Afonso. Foto: Marc Ferrez_1875 

A Canindé, que fica à margem direita, 15 léguas abaixo desta cachoeira, chegam já algumas canoas, mas com grande dificuldade em razão das pedras que obstruem aí o canal. Uma légua abaixo, e à margem esquerda, acha-se a povoação de Piranhas, onde verdadeiramente termina a navegação do Baixo rio: daí até a foz, na extensão de 37 léguas, é ele navegável sem obstáculo algum, à exceção de algumas pedras que se encontram de Entremontes a Piranhas.

Porto das Piranhas, AL. Foto: Augusto Riedel


Até Pão de Açúcar segue ainda o rio por entre serranias que o estreitam sobremaneira. As margens são tão acanhadas que em alguns lugares não há espaço para edificação de uma casa. A vista do rio, entranhado por aquela cadeia de montanhas e penhascos, dá lugar a supor que, no principio, a grande queda de Paulo Afonso devera ser nas imediações de Piranhas a Pão de Açúcar, e que fora pouco a pouco recuando, à medida que se escavavam e quebravam os rochedos com o peso das águas.

De Pão de Açúcar até a foz o aspecto das margens é magnífico: são plainos verdes, espaçosos, costeados por colinas e montes de abundante vegetação; avultam e branquejam aqui e ali, as situações, fazendas de criar, engenhos de açúcar, arraiais e vilas.

Em alguns lugares pode ter o rio uma milha de largura; grande número de ilhas, maiores e menores o entrecortam; as que existem na ponta do Aracaré, meia légua abaixo do Penedo, até a barra, e as que porventura se formarem neste espaço pertencem aos beneditinos por doação régia. Presentemente, possuem eles as seguintes ilhas: Ilha Grande, onde se acha a sua situação, é residência do padre administrador; têm eles aí mais de duzentos escravos, grandes e pequenos, e sem rendeiros; a Ilha das Galinhas, do Mato, Andorinhas, Cachimbão, Barro, quatro pequenas junto a esta: Gundim, Monte, Coroa Grande, Catumby, Brito e José do Carmo, todas as quais se acham arrendadas. Algumas dão de arrendamento anual 300$000.

Pão de Açúcar-AL. Foto: Marc Ferrez, 1875

No meio destas há a Ilha da Tereza, que pertence a um particular, por ter sito doada antes da doação geral feita aos beneditinos.

Além dos bens mencionados, possuem eles, no Termo do Penedo, importantes terrenos de mata com muitos rendeiros e algumas fazendas de gado. O rendimento líquido de todos esses bens chega a dez contos de réis, mais ou menos, em um triênio; é quanto presta contas o administrador deles. Existe também, junto às mencionadas ilhas dos beneditinos, a duas léguas da foz, a considerável ilha do Brejo Grande ou Paraúna, cuja posse disputam Alagoas e Sergipe: tem 12 engenhos de açúcar; fica separada do continente de Sergipe pelo pequeno canal da Paraúna, que consta fora entulhado pelo finado José Alves Tojal, proprietário dali, a fim de dar passagem a pé enxuto para o continente de Sergipe, e ter assim esta província melhor direito à referida ilha.

Alagoas esteve de posse desta ilha, como de todas as mais, em virtude da carta régia concedida ao donatário de Pernambuco, que lhe dava direito a todas as ilhas e terrenos, até onde chegassem as inundações do rio[ii]. Em 1812, a Câmara Municipal de Vila Nova representou ao Príncipe Regente o direito que julgava ter à dita ilha, e obteve ob e sub-repticiamente, um Alvará que lhe dava a posse de Paraúna; protestou contra este Ato a Câmara Municipal do Penedo, e expôs ao Governo Central o que havia a respeito, sobre o que não houve decisão.

Porto Real do Colégio, AL. Foto: Abílio Coutinho, 1869


A despeito deste processo e relutância, o governo provincial de Sergipe considerou a ilha anexada ao município de Vila Nova em virtude do citado Alvará; sendo que, no eclesiástico ficou ela sempre pertencendo às Alagoas até agora e faz parte da Freguesia de Piaçabuçu.

Consta que os povos dali fizeram uma representação ao corpo legislativo geral pedindo a sua anexação ao município de Penedo, que preferem pelas razões de ficar para eles a cidade quase a igual distância de Vila Nova, e de acharem no Penedo todos os recursos necessários, o que se não dá naquela Vila. Existe a respeito um projeto na Câmara dos Deputados. As ilhas que se formam da ponta do Aracaré para cima pertencem à família do finado Rocha, proprietário que foi do engenho Roicoiro. As existentes já pertencem a diversos, por compra.

Traipu-AL. Foto: Abílio Coutinho, 1869.

Contam-se do Aracaré até Piranhas as seguintes ilhas: Ilha do Manoel Alves; Bamba; Ilha do Padre Joaquim, fronteira ao Penedo e onde há uma engenhoca; Antônio José; Antônio Rodrigues; José Ignácio; Antônio Victorino. Saúde; Coqueiro; Diabinho; Pindoba; Miau; Formosinha; Manoel Victor; Rangel; Ponta Grossa; Lagamar, defronte do Colégio; São Brás; Nossa Senhora do Rosário; Joaquim da Sant’Anna; Demanda; Borda da Mata; Ilha das Coroas; Itans; Prazeres; São Pedro e Ilha do Ferro. Em todas as ilhas mencionadas há mais ou menos cultura.

De novembro por diante começam as águas do rio perderem a cor natural: tornam-se amarelaças e barrentas, aumentando progressivamente de volume. É o período da enchente, procedente das grandes chuvas que aparecem por esse tempo em Minas. Eleva-se então o rio, vinga a altura das margens e, soberbo, invade os campos e várzeas, fazendo grandes estragos nas lavouras e situações que vai encontrando. A quantidade das águas da enchente é admirável. Há várzeas que, como desaguadouros, recebem uma espantosa quantidade de água nova, ficando inundadas na distância de cinco e mais léguas, como as do Remédio, Piranga, Saco dos Espinhos, Igreja Nova e outros; e chega aí a inundação a uma altura considerável. Ainda assim, no álveo do rio, elevam-se as águas desta a dez pés[iii] acima do nível. A correnteza durante a enchente é de sete milhas por hora.

Propriá, Sergipe. Foto: Adolpho Lindemann, 1888.



Refere-se a existência de uma tremenda inundação em 1780, em que as águas assumiram a prodigiosa altura de vinte pés. Durante a enchente, costuma o rio vazar um pouco, para reencher alguns dias depois, a que chamam os naturais de repiques. Em março ou abril volta ele ao seu estado ordinário, desaparecendo inteiramente a enchente; então são águas límpidas e azuladas e a correnteza suave.

POVOAÇÃO

Foi descoberto o rio de São Francisco por Duarte Coelho Pereira, primeiro donatário de Pernambuco, a 10 de outubro de 1555, dia de São Francisco de Borja, donde lhe veio o nome. Começou então a ser povoado, sendo a primeira situação do lugar que é hoje a cidade do Penedo, onde aportou Duarte Coelho. A população atual das freguesias de uma e outra margem até Canindé é aproximadamente de 67.000, a saber: 43.000 na margem de Alagoas, e 24.000 na de Sergipe, distribuídas pelas seguintes freguesias: Margem esquerda, ou de Alagoas. 1ª Freguesia de Piaçabuçu: 5.000; 2ª Dita do Penedo: 17.000; 3ª Dita do Colégio: 6.000; 4ª Dita de Traipu: 10.000: 5ª Dita de Pão de Açúcar:5.000. Total: 43.000. Margem direita, ou de Sergipe:1ª Freguesia de Vila Nova: 8.000; 2ª Dita de Propriá       : 9.000; 3ª Dita de Curral de Pedras: 7.000. Total: 24.000. TOTAL DE AMBAS AS MARGENS: 67.000.

Dão como razão de ser mais populosa a primeira, o fato de se haver retalhado o seu território, passando o domínio destes a muitos lavradores e criadores que aí se estabeleceram, e foi progressivamente aumentando o número dos habitantes com o crescimento das famílias; ao passo que na margem direita, ou de Sergipe, deu-se o inverso. Os antigos proprietários dali, cuidadosos em conservarem inteiras as suas terras, nunca admitiram nelas estranhos, passaram assim as propriedades de pais a filhos em sua integridade, sendo por isso a população pequena nesses lugares. Houve, além disso, o importante Morgado do Porto da Folha que se estendia da Serra da Tabanga até o sertão acima de Canindé, cujas terras, bem que  deixassem de ser vinculadas por ter falecido o administrador do morgado, todavia existem ainda inteiras, por haverem passado a um só dono, herdeiro dos bens do antigo morgado.

Penedo, Alagoas. Foto: Marc Ferrez, 1875.

Na margem de Alagoas há a cidade do Penedo, duas vilas, Traipu de Pão de Açúcar, e seis povoações, Piaçabuçu, Colégio, São Brás, Entremontes e Piranhas, e na seguinte ordem começando da foz:

- Piaçabuçu. A duas léguas da foz, povoação bastante crescida, é freguesia; distrito de juiz de paz e sub-delegacia; com duas casas de negócio; tem duas escolas de primeiras letras, uma para o sexo masculino outra para o sexo feminino. Sua Majestade o Imperador desembarcou nesta povoação, visitou a matriz e as escolas.

Penedo. A sete léguas da barra fica a cidade do Penedo, metade derramada em uma planície, e metade por uma rocha acima, que lhe empresta o nome. Começou a ser povoados, como fica dito, em 1555. Foi elevada a Vila, com o título de Vila de São Francisco, a 12 de abril de 1636, segundo consta nas notas de Duarte de Albuquerque, escritas em Porto Calvo no mesmo ano de 1636. Foi ocupado pelos holandeses em 1637, que aí estabeleceram o Forte de São Francisco, no lugar hoje ocupado por algumas casas do Tenente-Coronel Antônio José de Medeiros Bittencourt[iv]. Quando se cavaram, há poucos anos, os alicerces dessas casas, encontraram-se algumas balas de diversos tamanhos, pertencentes a esse famoso forte.

Foi restaurada pelos portugueses em 1645, devida a restauração aos esforços de Valentim Rocio. Por alvará de 1815 teve um juiz de fora. Foi elevada à categoria de cidade por Lei Provincial de 1842. Tem cinco bons templos: a matriz, o convento dos franciscanos, o melhor da província; a Igreja de Nossa Senhora da Corrente; junto ao rio; a de São Gonçalo Garcia e a de Nossa Senhora do Rosário; tem mais uma igreja menor de São Gonçalo do Amarante, e duas capelas, a de Santa Cruz e a de Nossa Senhora da Penha.

Há nesta cidade um hospital de caridade, fundado pelo finado Coronel João Pereira Alves em 3 de fevereiro de 1770  em uma sua casa, junto à igreja de São Gonçalo Garcia, com o patrimônio de doze mil cruzados e oito moradas de casas térreas; os quais bens entregou à Irmandade de São Gonçalo Garcia para administrá-los e ser a zeladora do mesmo hospital; tomou posse judicial dos referidos bens a irmandade no mencionado dia 3 de fevereiro de 1770.

Os dinheiros pôs a Irmandade a juros em diversas mãos desde 1798. Só pode conseguir a autorização régia deste estabelecimento em 1816, por provisão de 14 de agosto do dito ano. Organizou para o governo e a administração do hospital uns estatutos que foram confirmados por provisão régia de 17 de abril de 1820, e por eles regulava-se, sendo a fiscalização do hospital entregue à mesa da Irmandade, nos termos dos mesmos estatutos. Mas como não tivesse a Irmandade compromisso para o seu regulamento interno, regendo-se somente pelos referidos estatutos concernentes ao hospital, o Dr. Juiz de direito José Vieira Rodrigues de Carvalho e Silva[v] falecido, em correição de novembro de 1853, dissolveu-a por um provimento, e nomeou um administrador para a igreja e outro para o hospital, servindo esta sob a inspeção daquele. Em consequência deste provimento, esteve a Irmandade fora da administração até novembro de 1857, em que, por outro provimento do Juiz de Direito Dr. João Quirino Rodrigues da Silva[vi], foi a Irmandade reintegrada no exercício de suas atribuições. Mas, de novo, foi dissolvida pelo atual juiz de direito Dr. Luiz Barbosa Accioli de Brito[vii], em provimento de correição pela mesma falta de compromisso, nomeando administrador do hospital o Capitão Silvestre Domingues da Silva Pimenteira, até que se apresenta a Irmandade com compromisso confirmado.

Penedo, Alagoas. Foto Marc Ferrez, 1875.

Atualmente o patrimônio do hospital consiste em dois escravos velhos que se ocupam do serviço do estabelecimento, nove casas, e 13636$345 em títulos; a saber 5.200$000 em apólices da dívida pública na tesouraria de fazenda de Pernambuco; e 8. 435$345 em débitos com hipotecas, de particulares, vencendo juros. Tem mais a quantia de 4.000$, que foram dados: 2.000$ por Sua Majestade o Imperador e 2.000$ pelo Comendador Dr. Joaquim Serapião de Carvalho[viii]. Este dinheiro foi recolhido à Caixa Econômica da mesma cidade por ordem do presidente da província de então, e tendo sido dissolvida a mesma Caixa, ordenou o presidente, Dr. Antônio Alves de Souza Carvalho[ix], fosse o mesmo dinheiro entregue ao administrador das rendas provinciais para ser recolhido à tesouraria provincial, o que teve lugar, sendo a quantia entregue pelos ex-diretores da caixa econômica; e disto foi sabedora a mesa da Irmandade, apenas por um ofício de Sua Excelência nesse sentido. Nada até agora tem lucrado o hospital destes 4.000$ recolhidos à tesouraria provincial, e, o que mais é, nem título lhe passou esta, existindo tão somente o dito ofício do presidente da província em mão do administrador. Por lei geral de 1850 está o hospital autorizado a possuir bens de raiz até 50;000$.  Muito convém que se melhore o sistema de administração deste hospital, cujo patrimônio tem servido mais para os ricos, que retêm os dinheiros do estabelecimento, pagando um módico prêmio, do que para os pobres enfermos, para quem ele foi criado.

Penedo, AL. Vila Nova (atual Neópolis), Sergipe ao fundo. Foto: Marc Ferrez, 1875.

A Irmandade do Santíssimo Sacramento da mesma cidade possui 17 casas e a fazenda Camurupim, de animais vacum e cavalar, com duas léguas de terra.

É o Penedo cabeça de comarca do mesmo nome, que se compõe dos Termos do Penedo e Traipu. Tem aula de latim e francês, e quatro de primeiras letras, duas para o sexo masculino e duas para o feminino. A mesa de rendas gerais rende anualmente termo médio: 16:000$; a de rendas provinciais 33;000$; a Câmara Municipal 5:000$. A população da cidade chega a 10.000 almas, tem 1.100 casas, todas de telha, entre estas 78 sobrados.

Antigamente quando era o Penedo o único empório das mercadorias do rio, o seu comércio florescia assaz. Os portugueses, que então negociavam ali, fizeram fortuna e deixaram as famílias com riqueza. Depois, com o aumento do comércio do Traipu, Pão de Açúcar e outros lugares do interior, cujas transações comerciais começaram a ser feitas diretamente para a Bahia, decaiu consideravelmente o comércio do Penedo.

Em 1857, criou-se nesta cidade uma caixa econômica, cujo fundo chegou a 60:000$, de que tirou grande utilidade o comércio e a lavoura, dispondo de capitais por um juro módico. Mas, tendo o presidente da província mandado suspender suas operações, por não estar aprovada pelo Poder competente, perdeu com isto o crédito, e foi parte para que acabasse esse estabelecimento tão necessário ali, onde os capitais se dão com juro elevadíssimo.

A indústria fabril vai-se desenvolvendo; existem na cidade diversas fábricas de que logo falaremos.

No dia 14 de outubro de 1859, a uma hora da tarde desembarcou Sua  Majestade o Imperador no Penedo, de viagem para a cachoeira de Paulo Afonso. A Câmara Municipal recebeu-o debaixo de pálio, e segundo logo para o convento dos Franciscanos, assistiu a um Te-Deum. Destinou-se para o Paço Imperial o grande sobrado da Praça da Corrente, na beira do rio.

Sua Majestade examinou todas as repartições públicas e escolas, e alguns estabelecimentos particulares.

No dia 16, acompanhado de toda a sua comitiva, Sua Majestade embarcou para o Paulo Afonso; o vapor Pirajá em que ia Sua Majestade, navegando rio acima, sulcavam águas que até ali só tinham sido devassadas por canoas e ajoujos.

O terreno desta cidade é fertilíssimo; produz admiravelmente tudo que se planta; tem também muitas fazendas de criação; devera ser mais rico à vista de sua fertilidade, se o povo fosse mais amigo do trabalho. É raro encontrar-se um homem pobre que saiba tirar proveito do seu trabalho e viva comodamente; a mor parte prefere a miséria, lançando mão da pesca, quando a necessidade é grande. A pregação e ensino do Evangelho seria o melhor meio de corrigi-los, convencendo-os de que o trabalho é a lei de Deus.

Penedo, AL. Igreja de S. Gonçalo Garcia. Foto: Adolpho Lindemann, 1888


COMÉRCIO E NAVEGAÇÃO

Importação. Os principais artigos de importação pela barra do rio para os pontos das margens e lugares do sertão, são: fazendas grossas, e uma pequena parte fina, para o consumo do Penedo e algumas vilas, cuja importância anual montará a 3:000$, vinho, vinagre, azeite e carne seca na importância anual de 2:000$ pouco mais ou menos.

Destes gêneros pode receber o Penedo 1,000:000$ anualmente; Piaçabuçu e Brejo Grande1:000$; Propriá 500:000$; Traipu 100:000$; Pão de Açúcar 100:000$; Entremontes e piranhas 200:000$; diversos lugares das margens 450:000$. O resto da importação entra para a Palmeira, Águas Belas, Buique, Matas, Tacaratú, Várzea Redonda, Cabrobó e outros lugares do centro de Pernambuco e Alagoas.

Exportação. Os seus principais artigos são: Açúcar: 3.000 a 4.000 caixas anualmente, procedentes dos pontos seguintes:

Propriá, 1.000; Goiaba, 1.000; Pacatuba, 4.000; Brejo Grande, Piaçabuçu, Penedo, etc, 1.400. Goiaba é lugar da Cotinguiba; aí termina um braço do rio São Francisco, navegável, pelo qual se pode transportar as caixas de açúcar para o Penedo. Para obter-se da Goiaba o número declarado de 1.000 caixas, é mister ter um agente em Japaratuba, que deve comprar o açúcar, por menos do mercado de Maruim, 100 rs em arroba, para compensar as despesas de condução até o Penedo.

Pacatuba é uma povoação do Termo de Vila Nova na beira do referido braço do rio, cercada de engenhos, donde com facilidade pode-se obter o número designado de 400 caixas.

Nas grandes safras, exportam-se de 8.000 a 10.000 sacas de arroz pilado, e outros tantos do mesmo em casca; não tem ele preferência nos mercados, para que é enviado, em razão de não ser tão bem tratado, como convém. Feijão, 1.000 alqueires. Milho pode dar para 10 carregamentos ou mais, em uma safra abundante. Farinha de mandioca exporta-se sempre em quantidade extraordinária. Óleo de rícino, 3.000 a 4.000 latas. O algodão depende do preço, safra e compradores; sua exportação regula 6.000 a 7.000 sacas. Sola, 48.000 a 50.000 meios. Couros secos e salgados, 4.000. Peles miúdas, 100.000. Pedra de amolar em grande quantidade, havendo procura. Caroá, em pequena escala. Lã de barriguda, ultimamente pouca. Cachaça, 1.000 pipas.

Estes gêneros são exportados a maior parte para a Praça da Bahia; o resto para Maceió e Pernambuco. Não há exportação para o Rio de Janeiro que, aliás, daria grande lucro, porque a esta Praça convém todas as mercadorias do São Francisco; em retorno viriam do Rio a carne seca, sabão, vinho, fazendas brancas e pólvora por preços menores que os do mercado da Bahia e Pernambuco.

O estabelecimento de uma alfândega no Penedo dará incontestavelmente grande desenvolvimento ao comércio do rio, desenvolvimento de que ele é susceptível, por ser o S. Francisco o verdadeiro canal de exportação do centro de diversas províncias.

Logo que haja comércio direto para a Europa, afluirão para a cidade do Penedo as mercadorias de todo o centro, na esperança de obterem, sem maior dispêndio, preços vantajosos que provavelmente oferecerão os compradores estrangeiros.

Calcula-se que os gêneros de exportação poderão ser vendidos para a Europa com uma diferença para mais de 20% a 30% do que atualmente no Penedo, e os produtos estrangeiros poderão custar 40% menos do que vindos da Bahia e Pernambuco.

Aracaju, há dois anos, recebia apenas dois navios portugueses e, no corrente, contam-se 15 a 20 fundeados no porto desta cidade; porque o carregamento do açúcar aí faz uma diferença, para menos do preço da Bahia, de 600 a 800 réis em arroba. As circunstâncias da barra do rio de S. Francisco não devem ser razão para deixar de se estabelecer a alfândega, pois se achando reconhecido que esta barra é muito melhor que as de Sergipe, deve esperar-se que o comércio estrangeiro aflua para ela, como está acontecendo naquelas.

Cabe aqui transcrever as expressões do nosso digno cônsul em Espanha no relatório que dirigiu, há pouco, ao ministro do comércio e agricultura, no Rio de Janeiro, relativas aos meios de que deve lançar mão o governo para melhorar o comércio do país.

“O Brasil, disse ele, não precisa de tratados, porque não tem marinha mercante para levar os seus produtos e explorar os mercados estrangeiros, o grande mercado do Brasil está nos seus portos e nas suas cidades marítimas. Abra-se o Brasil à marinha mercante estrangeira, melhore os portos que se acham em mau estado, como o do Rio Grande do Sul, faça levantar a ponte arruinada do Pará, construa alfândegas nas Alagoas e no Ceará, proporcione estradas sem perigo, e ancoradouros seguros.... Felizmente os principais produtos do brasil, como o açúcar e o café, tem-se tornado, pelo seu uso universal, mercadorias de primeira necessidade. A Europa precisa delas para seu consumo, e há de ir busca-las nos portos de sua produção, há de ir busca-las também no Brasil.”

Para a exequibilidade, porém, da alfândega do Penedo, cumpre observar o seguinte: achando-se o comércio do Baixo São Francisco quase todo encaminhado para a Bahia, e a mor parte dos negociantes comprometidos nessa praça com débitos consideráveis e transações que não poderão terminar senão mui lentamente, e no decurso de alguns anos, é consequente que a nova alfândega bem que lhes proporcionassem muitas vantagens; podendo eles comprar fazendas estrangeiras no Penedo pelo mesmo preço da Bahia, e talvez por menos, todavia não faria que mudassem de transações, enquanto não liquidassem e concluíssem seus negócios na praça a que se acham obrigados. Assim, durante esse tempo preciso para as liquidações, as casas estrangeiras que se estabelecessem no Penedo em consequência da alfândega não fariam muito, e este por conseguinte pouco rendimento apresentaria, não compensando talvez as despesas necessárias para a criação do estabelecimento. Nestas circunstâncias um meio parece haver que, posto em prática, traria resultados iguais aos de uma alfândega.

Pelo Art. 315, do Regulamento das alfândegas e mesas de rendas, está o Governo autorizado a permitir a importação de mercadorias procedentes de portos estrangeiros, nos lugares onde julgar conveniente a exportação de nossos gêneros para fora do país. A mesa de rendas do Penedo é da 3ª ordem das do Império; pode-se pois levar a mesma à 1ª ou à 2ª classe, e habilitar-se o porto para importação de mercadorias estrangeiras diretamente; a exportação também direta de gêneros nacionais; e assim chegar-se-ia ao mesmo resultado que poderia dar uma alfândega atualmente; no entanto que o governo muito pouco teria a despender. Uma repartição desta ordem não necessita de grande número de empregados como a alfândega; sendo que esta deveria ser criada para o futuro, com vantagens para o governo e o público, logo que o comércio do rio de desprendesse da Bahia, o que afinal teria de acontecer mais cedo ou mais tarde.

Habilitando-se o porto do Penedo, seria indispensável que fosse também habilitado o de Vila Nova, ou que se estendesse a jurisdição da mesa de rendas do Penedo; no que dissesse respeito à importação e exportação de gêneros, às duas margens do rio.

Comércio interno. Há feitas no Penedo e em Propriá, nos sábados; para elas concorrem todos os gêneros de produção e indústria da terra e do centro.

A de Propriá é mais importante, por ser a Vila mais central e ficarem ali as mercadorias que vêm em grande abundância do Sertão. Alguns negociantes de Penedo costumam ir especular na feira de Propriá, comprando gêneros em grosso para exportá-los. Outrora, quando a feira de Penedo fazia-se nos domingos, era maior e mais concorrida. Para ela desciam as mercadorias que sobravam da feira de Propriá no sábado. Um missionário fez remover a de Penedo também para o sábado, por impedir o negócio da feira o cumprimento do preceito religioso do domingo.

De Piranhas faz-se um comércio muito avultado para Várzea Redonda (primeiro pondo da navegação do Alto rio, vinte tantas léguas acima daquele) e igualmente para muitos outros lugares das províncias da Bahia e Pernambuco.

Nas épocas próprias, recebem e desmancham cargas para trezentos cavalos semanalmente. Os gêneros que vêm do centro são: escravos, couros, sola, peles, caroá, gado vacum e cavalar, e requeijões.

Os gêneros que se transportam para o centro são: em primeiro lugar, o sal, que na Várzea Redonda dá o alqueire 50$. Anualmente podem transportar-se 10.000 alqueires de sal; açúcar, cachaça, coco de comer, louça vidrada, esteiras de piripiri, tábuas, junco e fruas de toda espécie, produzidas nas margens.

Estes transportes são sobremaneira dispendiosos; vazem-se em cavalos e, nas grandes secas, em bois. A não serem estas grandes dificuldades no transporte, o comércio do Alto rio para o Baixo se elevaria a proporções incalculáveis, visto a fertilidade e riqueza do Vale do S. Francisco e dos seus vastos recursos até a província de Minas.

Na opinião do engenheiro Halfeld, explorador do rio, é fácil ligar-se a navegação do Alto rio à do Baixo por meio de uma estrada de rodagem, ou por trilhos de ferro, da Vila de Pão de Açúcar à da Boa Vista pelo Vale do Riacho-Grande; ou Curral do Meio ao Riacho Seco entre a Mata da Água Branca e o porto de Piranhas, e daí por terreno plano entre o rio e a Serra da Poricania, acima da Várzea Redonda[x], e deste pondo à Vila da Boa Vista. - Fazemos votos para que em breve seja levada a efeito esta estrada, cuja falta esteriliza tanta riqueza.

Navegação. A navegação do rio é feita presentemente até a cidade do Penedo pelos vapores da Companhia Baiana – Gonçalves Marins e Valéria de Sinimbu[xi]. Frequentam o rio os seguintes navios a vela: 1º Patacho nacional Novo Gosto, de 174 toneladas, com 11 pessoas de tripulação; costuma sair carregado em 14 ½ palmos.

2º Patacho Dois Irmãos, de 120 toneladas, com 10 pessoas de tripulação; sai carregado em 14 ½ palmos.

3º Patacho Henriqueta[xii], de 151 toneladas, com 10 pessoas de tripulação; sai carregado com 14 palmos d’água.

4º Escuna Lindoia, de 157 toneladas, com 10 pessoas de tripulação; sai carregada em 14 ½ palmos. Todos navegam do rio para a Bahia.

Para Pernambuco, partindo do mesmo rio, navegam os seguintes:

5º Iate Santa Cruz, de 120 toneladas, com 8 pessoas de tripulação; sai carregado em 11 palmos.

6º Cúter Ema[xiii], de 52 toneladas, com 6 pessoas de tripulação, sai carregado em 13 palmos e meio.

7º Iate Beberibe[xiv], pequeno.

Barcaças em número crescido de Maceió, Pernambuco e outros portos do Norte vão, em tempo próprio, carregar no rio S. Francisco.

Para a navegação deste rio não deve o navio ser de mais de 13 palmos de água nem exceder de 200 toneladas. A barra e mesmo o canal do rio não admitem navios de maior calado. Na época da enchente, porém, podem entrar e chegar até a cidade embarcações que demanda 16 palmos, segundo o estado do rio.

Não se pode calcular a profundidade média da barra. Desde cinco ou seis anos, o seu fundo tem sido de 16, 18 e 20 palmos de água; nos anos de grandes enchentes, quando vasa o rio, sempre a mudança de barra, e o fundo torna-se menor. O navio que demandar a barra não deve acometer-lhe a barra sem o sinal da catraia, tendo prático, e não o tendo, deve içar bandeira à praia pedindo-o; então sai a catraia fora, e dá um prático para a entrada: este é o costume.

Não tem havido patrão que cumpra suas obrigações satisfatoriamente. O emprego é muito mal pago; talvez seja esta a razão por que não se animam a procura-lo as pessoas que têm as habilitações precisas. Entretanto, deve-se asseverar que sendo a praticagem da barra dirigida por pessoa habilitada, oferecem toda a segurança aos navios que por ali transitarem. Há muito não tem havido sinistro nelas, entram e saem com facilidade os vapores da Companhia Baiana, para o que muito concorre o conhecimento que já tem da barra os comandantes atuais dos vapores; ambos têm cartas de prático dadas pelos comandantes dos portos da Bahia, Sergipe e Maceió.

A catraia para a praticagem é descoberta, armada a iate, de seis palmos de calado, com um patrão, um sota e quatro marinheiros; por não estar preparada como devera, não cumprem os empregados suas obrigações de conformidade com o regulamento das barras. É sensível a falta de uma atalaia, que é muito mal suprida por uma escala péssima; colocada no alto do Pontal.

Sendo os baixios da barra formados por areias movediças, que ali acumula a forte correnteza das enchentes, não há meio de removê-las. O único recurso para facilitar o trânsito da barra é o emprego de vapores que reboquem os navios, principalmente na saída, em que há mais risco. Estes vapores devem ser a hélice, e construídos com dimensões e qualidade próprias para o serviço da barra que, como já se disse, em tempo de enchente tem um volume d’água de 10 pés acima do seu nível e uma correnteza de 7 milhas por hora, o que exige nos vapores construção especial.

O canal do rio desde a foz até Piranhas tem de profundidade 11 a 60 palmos d’água. O ponto de maior profundidade fica um pouco acima de Piranhas. A navegação nesta extensão do rio é feita unicamente por canoas; as menores feitas de um só pau e as maiores serradas ao meio, e depois abertas com cavername de sucupira e rombos e tabuado de cedro; havendo algumas destas que suportam o peso de 1.000 a 1.200 arrobas, e carregam 22 caixas de açúcar. Têm estas canoas um só mastro com duas velas latinas que se abrem para os lados. Na descida do rio tira-se o mastro, que é colocado no fundo da canoa ou atada a um dos lados para poder ela navegar a remos e impelida pela correnteza; sua tripulação varia de dois a quatro homens; o seu número  é crescidíssimo, não podendo ser calculados, por não haver arrolamentos, que só poderiam ser feitos estando de acordo para isto as duas Províncias.

Estas canoas com a gente da tripulação alugam-se por um preço alto; para ir do Penedo a Piranhas exige 40$ a 50$; de maneira que para uma só pessoa é mais cara esta viagem de 30 léguas pelo rio do que a do Penedo à Bahia em um dos vapores da Companhia.

A Assembleia Provincial das Alagoas por uma Lei do corrente ano autorizou o Presidente da Província a contratar com alguma companhia de navegação a vapor no Baixo São Francisco, dando a Província o auxílio de 300$ por cada viagem redonda dos vapores. São manifestas as vantagens para o comércio, as lavouras e os viajantes auferiram da navegação do S. Francisco a vapor, por isso escusado é expô-las.

Nesta navegação deve seguir-se o sistema adotado desde muitos anos nos Estados Unidos, que é o seguinte: os barcos a vapor devem ser de força de 20 cavalos, próprios para passageiros e reboque de pequenas barcas; cada uma que seguir para os portos do centro rebocara três ou quatro alvarengas, construídas para este fim, demandando apenas dois palmos de água, carregadas ou vazias. No primeiro porto, que é Propriá, ficam as alvarengas que o comandante e o agente julgarem necessárias para a carga que tem de descer, e assim nos demais portos. Na volta, o mesmo vapor rebocará as carregadas, e outro vapor o resto. É também aplicável o sistema de comboios a vapor (steam train) inventado por Mr. Bourne para a navegação fluvial. Muitas barcas de fundo chato, ligadas umas às outras, como as carruagens nos caminhos de ferro, são puxadas com a velocidade de 10 milhas por hora, por uma forte máquina de vapor, de especial sistema, estabelecida em uma barca independente.

O steam train foi examinado por Mr. Hall, comandante da Nemesis, oficial de reconhecido mérito, e detalhou este explicadamente que os comboios a vapor satisfazem plenamente a todas as necessidades da navegação fluvial, que demandam apenas dois pés de água.

Concluímos observando que a necessidade mais urgente e de toda a vitalidade para o Vale do S. Francisco é a factura da estrada indicada pelo engenheiro Halfeld, para ligar o comércio do Alto rio ao Baixo; e por esta razão seja lícito dizer que se esta obra pertencesse não à província das Alagoas, e sim a uma de primeira ordem, a muito estaria efetuada.

Com grandes dificuldades, trabalhos e dispêndios se estão fazendo as duas estradas de ferro da Bahia e Pernambuco, que têm de atravessar centenas de léguas de sertões incultos, para darem saída aos produtos e mercadorias do Vale do S. Francisco; sem atender-se à facilidade e à comodidade de preço com que seriam estes transportados, descendo pelo rio até a barra, logo que se fizer esta pequena estrada, aconselhada pelo referido engenheiro explorador do rio.

Não obstante, depois da auspiciosa viagem de Sua Majestade o Imperador pelo rio de S. Francisco, e fazendo atualmente parte do Gabinete um alagoano de reconhecido talento e vasta ilustração, que tem mostrado interessar-se pelo engrandecimento e prosperidade de sua província, é muito de crer que não seja adiada esta obra, tão reclamada pelos interesses da lavoura, comércio e navegação do S. Francisco.

José Próspero Jeovah da Silva Caroatá

Penedo, 23 de novembro de 1863.

Transcrito do Correio Mercantil, RJ, 9 de janeiro de 1864. Notas de Etevaldo Amorim, 2021.



[i] JOSÉ PRÓSPERO JEOVAH DA SILVA CAROATÁ. Filho de José Joaquim de Sant’Anna e Anna Rita de Jesus. Nasceu em Penedo-AL, a 24 de abril de 1825. Conforme registro de óbito no Cartório do Primeiro Distrito de Paz da Paróquia de São José, faleceu no Rio de Janeiro a 27 de abril de 1890, com 65 anos de idade, sendo sepultado no dia seguinte do Cemitério São João Batista.[i] Casado com Cândida Emília da Silva Caroatá, teve os filhos Antero da Silva Caroatá (batizado na Igreja de Nossa Senhora do Rosário, Penedo-AL a 4 de janeiro de 1861); Maria da Silva Moreira (batizada na Igreja de Nossa Senhora do Rosário, Penedo-AL e casada em 1905 com José Alfredo Guerra); e José Maria Jeovah da Silva Moreira. Tomou parte, como Suplente da Nona Legislatura da Assembleia Provincial (1852-1853).

 

[ii] Em 1758, os oficiais da Câmara da Vila do Penedo fizeram uma representação contra a jurisdição indevida que os cobradores de dízimo da comarca de Sergipe queriam exercer na Ilha de Paraúna. Despachando D. João III, Rei de Portugal, essa representação foi mandada expedir provisão régia reconhecendo a posse imemorial da vila do Penedo sobre a dita ilha e: “mais ilhas adjacentes do rio São Francisco, feitas e por fazer, até onde chegarem suas inundações, conforme o foral dado a Duarte Coelho Pereira, donatário e governador perpétuo que foi desta Capitania.” MENSAGEM DO GOVERNADOR COSTA REGO AO CONGRESSO LEGISLATIVO DE ALAGOAS, 1927.

 

[iii] Corresponde a 6.096 m.

 

[iv] Proprietário do Engenho Boacica, foi Tenente-Coronel da Guarda Nacional e Presidente da Câmara Municipal do Penedo. Casado com Josefa Felícia Gomes de Medeiros.

 

[v] Em 1854, foi removido da Comarca do Penedo-AL para a de Rezende, no Rio de Janeiro. O CEARENSE-CE, 30 de janeiro de 1855. Era casado com D. Francisca Libânia Vieira de Carvalho. Vítima do Cólera, faleceu em Porto Alegre-RS a 25 de dezembro de 1855.

 

[vi] Removido da Comarca de Garanhuns-PE para a do Penedo-AL por Decreto de 2 de setembro de 1841. O NOVO TEMPO, RJ, 1º de fevereiro de 1845, p. 3. Foi removido da Comarca do Penedo em 1861. O CORREIO DA TARDE-RJ, 18 de novembro de 1861, p. 2.Faleceu na Vila de Apodi, Município de Mossoró-RN, em 1870. JORNAL DO COMÉRCIO-RJ, 8 de novembro de 1870.

 

[vii] LUIZ BARBOSA ACCIOLI DE BRITO, filho de Joaquim Marcelino de Brito e Senhorinha Accioly de Madureira, nasceu no Rio de Janeiro por volta de 1825 e formou-se em Direito na Faculdade de São Paulo, recebendo o grau no dia 22 de outubro de 1849. Assumiu a Comarca de Penedo em 30 de outubro de 1861. Faleceu na cidade do Rio de Janeiro, no dia 12 de janeiro de 1900, sendo sepultado no Cemitério de São João Batista. Era casado com D. Cândida Madureira Accioli de Brito, natural de Sergipe.

 

[viii] Faleceu no Recife a 4 de dezembro de 1874, aos 65 anos.

 

[ix] Visconde de Souza Carvalho. Foi Presidente da Província das Alagoas. Nomeado a 20 de março de 1861, entrando em exercício a 16 de abril do mesmo ano. Nasceu em Goiana-PE, a 13 de julho de 1832, filho de Francisca das Chagas Portela de Carvalho e de pai homônimo. Estudou na Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra, concluindo o Curso na Faculdade de Direito do Recife. Rio de Janeiro, 4 de abril de 1885.

 

[x] Município de Jatobá, atual Petrolândia.

 

[xi] Denominado em homenagem a Valéria Touner Vogler esposa alemã do Visconde de Sinimbu (João Lins Vieira Cansanção de Sinimbu) Naufragou em 17 de dezembro de 1874, nos “baixios de D. Rodrigo”, no Pontal de Coruripe, costa de Alagoas.

 

[xii] Propriedade de João Maria do Amaral. Fonte: DIÁRIO DO RIO DE JANEIRO, 19 de novembro de 1842.

 

[xiii] Propriedade de Francisco Gonçalves Torres. Fonte: DIÁRIO DE PERNAMBUCO, 3 de junho de 1862.

 

[xiv] Com capacidade para 30 toneladas, de propriedade de Pedro Borges Cerqueira (falecido a 27/04/1861), que o adquiriu de José Bernardo Teixeira, em 1857, com o nome de Acaracu. Fonte: O LIBERAL PERNAMBUCANO, Recife, 25 de fevereiro de 1857, p. 3.

 

A POESIA DE PÃO DE AÇÚCAR



PÃO DE AÇÚCAR


Marcus Vinícius*


Meu mundo bom

De mandacarus

E Xique-xiques;

Minha distante carícia

Onde o São Francisco

Provoca sempre

Uma mensagem de saudade.


Jaciobá,

De Manoel Rego, a exponência;

De Bráulio Cavalcante, o mártir;

De Nezinho (o Cego), a música.


Jaciobá,

Da poesia romântica

De Vinícius Ligianus;

Da parnasiana de Bem Gum.


Jaciobá,

Das regências dos maestros

Abílio e Nozinho.


Pão de Açúcar,

Vejo o exagero do violão

De Adail Simas;

Vejo acordes tão belos

De Paulo Alves e Zequinha.

O cavaquinho harmonioso

De João de Santa,

Que beleza!

O pandeiro inquieto

De Zé Negão

Naquele rítmo de extasiar;

Saudade infinita

De Agobar Feitosa

(não é bom lembrar...)


Pão de Açúcar

Dos emigrantes

Roberto Alvim,

Eraldo Lacet,

Zé Amaral...

Verdadeiros jaciobenses.

E mais:

As peixadas de Evenus Luz,

Aquele que tem a “estrela”

Sem conhecê-la.


Pão de Açúcar

Dos que saíram:

Zaluar Santana,

Américo Castro,

Darras Nóia,

Manoel Passinha.


Pão de Açúcar

Dos que ficaram:

Luizinho Machado

(a educação personificada)

E João Lisboa

(do Cristo Redentor)

A grandiosa jóia.


Pão de Açúcar,

Meu mundo distante

De Cáctus

E águas santas.

______________

Marcus Vinícius Maciel Mendonça(Ícaro)

(*) Pão de Açúcar(AL), 14.02.1937

(+) Maceió (AL), 07.05.1976

Publicado no livro: Pão de Açúcar, cem anos de poesia.


*****


PÃO DE AÇÚCAR


Dorme, cidade branca, silenciosa e triste.

Dum balcão de janela eu velo o seu dormir.

Nas tuas ermas ruas somente o pó existe,

O pó que o vendaval deixou no chão cair.


Dorme, cidade branca, do céu a lua assiste

O teu profundo sono num divino sorrir.

Só de silêncio e sonhos o teu viver consiste,

Sob um manto de estrelas trêmulas a luzir.


Assim, amortecida, tú guardas teus mistérios.

Teus jardins se parecem com vastos cemitérios

Por onde as brisas passam em brando sussurrar.


Aqui e ali tu tens um alto campanário,

Que dá maior relevo ao pálido cenário

Do teu calmo dormir em noite de luar.

____

Ben Gum, pseudônimo de José Mendes

Guimarães - Zequinha Guimarães.






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Pão de Açúcar, Cem Anos de Poesia