quinta-feira, fevereiro 1

A PARÓQUIA DE PÃO DE AÇÚCAR - O PRIMEIRO VIGÁRIO

Por Etevaldo Amorim

Padre Mendonça
O Padre Mendonça. Foto do acervo de
Judite Mendonça Silva.


A Freguesia do Sagrado Coração de Jesus, na Vila de Pão de Açúcar, foi criada por uma Resolução da Assembleia Legislativa Provincial de 11 de julho de 1853.

A referida Lei, transcrita abaixo, define também os limites da nova circunscrição eclesiástica, e é assinada pelo Comendador Sobral, que fora nomeado Vice-Presidente da Província em 25 de outubro de 1849, durante a presidência do Dr. José Bento da Cunha Figueiredo – “Visconde do Bom Conselho”.

“LEI Nº 227, DE 11 DE JULHO DE 1853.

Art. 1º Fica criada, no município de Porto da Folha[i], uma nova freguesia, que terá por sede a povoação de Pão de Açúcar.

Art. 2º Dividir-se-á esta nova freguesia com a de Porto da Folha, na margem do Rio São Francisco, pelo riacho denominado Salgado; e para o centro seguirá por este até encontrara com o riacho de nome Jacaré, que continuará a servir de extrema até confinar com a freguesia de Santana.

Art. 3º É desmembrado da freguesia de Mata Grande e pertencente a esta novamente criada, o território compreendido desde o lugar denominado Buraco, pouco além de Piranhas, descendo daí em linha reta à Fazenda do Olho D’Água do Casado, desta em direção ao Sítio Quiribas na margem do riacho Cabaços e, por este, até encontrar com os limites da mencionada freguesia de Santana, que conservará os mesmos limites com a que fora criada.

Art. 4º Ficam revogadas quaisquer Leis e disposições em contrário.

Vice-Presidente Manoel Sobral Pinto

Eesta Secretaria foi publicada a presente Lei em 13 de julho de 1853.

José Alexandrino Dias de Moura”

 A Paróquia contava com cinco capelas filiais em cinco povoações: Limoeiro (dedicada a Jesus, Maria e José), Entremontes (dedicada a Nossa Senhora da Conceição) e Piranhas (dedicada a Santo Antônio), com duas capelas cada uma; Meirus (ou Campo Alegre, sob o orago de Nossa Senhora da Luz), Santo Antônio do Jacaré (ou Jacaré dos Homens, dedicada a Santo Antônio) e Olho D’Água do Casado, com uma capela cada.

Em 1871, sua população era: 5.254 habitantes, sendo 4.644 livres e 610 escravos. Já em 1873, alcançava de 9.010 almas, sendo 8.601 livres e 409 escravos. [ii]

PE. ANTÔNIO JOSÉ SOARES DE MENDONÇA.

O primeiro pároco da nova freguesia foi o Padre Antônio José Soares de Mendonça, nela provido por concurso em 25 de fevereiro de 1854, apresentado por Decreto Imperial de 7 de abril e colado em 2 de junho, tudo do mesmo ano[iii].

Com efeito, o jornal o Liberal Pernambucano, edição de 17 de maio de 1854, na seção “Movimento do Porto”, registra o Padre Mendonça como passageiro, em companhia de um escravo, no vapor “Imperador”, que tinha como destino o Rio de Janeiro e portos intermediários. Provavelmente demandava o porto de Penedo, de onde subiria o São Francisco para assumir a sua paróquia do “Santíssimo Coração de Jesus”, como era denominada à época.

Filho de Antônio José Soares e Antônia de Jesus, nasceu em Penedo a 6 de maio de 1827.

Foi ordenado por Dom João da Purificação Marques Perdigão e por ele nomeado para a Paróquia de Pão de Açúcar, provavelmente em junho ou julho de 1854.

Seu paroquiato durou 51 anos, durante o qual empreendeu significativas reformas ao templo, dotando-o de novas imagens e alfaias.

Em 1868, o Vigário encarregou o Capitão Agostinho José de Neville Brandão de abrir subscrição para coletar donativos para os reparos da Igreja Matriz, cujo corpo ameaçava desabar. Oitocentos e cinquenta e três mil réis foram coletados, tendo-se, com essa quantia, comprado pedra e cal.

Durante a gestão do primeiro vigário, a paróquia recebeu cinco visitas canônicas:

A primeira, em 10 de abril de 1855, pelo Vigário Visitador Francisco d’Hollanda Chacon.

A segunda, feita pelo Rev. Affonso Albuquerque Mello, presbítero secular, cônego da Santa Igreja Catedral de São Sebastião e capelão imperial da Corde da cidade do Rio de Janeiro, visitador das igrejas da Província de Alagoas, delegado por Dom João da Purificação Marques Perdigão, bispo de Pernambuco, acontecida a 2 de setembro do mesmo ano.  A 3 de novembro de 1862, retornava para a terceira visita.

A quarta visita, a 28 de agosto de 1883, foi feita pessoalmente pelo Bispo de Olinda, Dom José Pereira da Silva Barros, que chegou a Pão de Açúcar a bordo do vapor Sinimbu.

O jornal A Aurora, cujo gerente era Martiniano Canuto, em sua edição de 9 de setembro daquele ano, noticia o fato:

Esteve entre nós, durante oito dias, o virtuoso e ilustrado Bispo de Olinda.

Os habitantes desta cidade deram uma robusta prova de seu amor aos dignitários da Igreja Católica, recebendo o virtuoso prelado olindense com a pompa e magnificência que merece tão alto e distinto funcionário da Igreja Católica.

S. Ex.ª Rev.ª, em todos os dias que aqui esteve, administrou o sacramento da Confirmação e à noite explicava os evangelhos com tanta clareza que os ouvintes se não cansavam de ouvi-lo, tal era a lógica de seus argumentos.

Também explicou a veneração das imagens e a instituição e utilizada da confissão auricular, pontos combatidos pelos adversários do catolicismo.

No dia 4 do corrente, seguiu S. Ex.ª Rev.ª para a povoação de Piranhas, e dali para a estação da Pedra, donde partiu para Água Branca.

Da casa da residência para o porto de embarque, foi S. Ex.ª acompanhado por numeroso concurso de povo, tendo sido acompanhado até Piranhas por oitenta e tantos católicos da melhor sociedade.

Fazemos votos ao Todo Poderoso para que S. Ex.ª faça uma viagem próspera e faça uma grande colheita para a vinha do Senhor”.

***   ***

Em 4 de fevereiro de 1896, a Paróquia recebe a quinta visita canônica, desta feita por Jonas de Araújo Batinga, presbítero secular do hábito de São Pedro, vigário encomendado da Freguesia de Nossa Senhora do Ó do Rio de São Miguel dos Campos e Visitador das Paróquias de Alagoas.

Com a criação do Bispado de Alagoas, a 2 de julho de 1900, toma a sua direção o afilhado do Pe. Mendonça, Dom Antônio Brandão, que na tarde do dia 19 de setembro de 1904, adentrou a Igreja Matriz do Sagrado Coração de Jesus para celebrar a sua primeira Missa.

No ano de 1866, em escritura lavrada no dia 25 de setembro, o Pe. Mendonça adquire uma casa de Vicente Ferreira Riffa e sua mulher D. Francisca dos Anjos, na rua da Igreja (atual Pe. Soares Pinto), onde foi instalada a Casa Paroquial.

O Padre Antônio Mendonça faleceu em Pão de Açúcar às 23:00 h do dia 16 de março de 1906.[iv]

***   ***   ***

Deixo aqui um agradecimento póstumo a Judite Mendonça, cuja mãe era sobrinha neta do padre. Em 2003, quando eu estava para concluir as pesquisas para o livro TERRA DO SOL, ESPELHO DA LUA, fui recebido em sua casa por ela e seu esposo Jorge Mendes Graça, ocasião em que me cederam a fotografia do Padre Mendonça, que faço publicar nesse artigo.

INTERINIDADE

Com a morte do Padre Mendonça, e tendo como coadjutor o Padre Nicodemos, este passou a reger, interinamente, a Freguesia.[v]

Estando em férias em Pão de Açúcar, monsenhor José de Freitas Machado, que por muitos anos foi chanceler da Cúria Pernambucana, foi provisionado por D. Antônio Manoel de Castilho Brandão, no dia 17 de abril de 1906, cujo Ato foi lido na missa dominical do dia 29 do mesmo mês, para dirigir interinamente a Paróquia.

COADJUTORES

Foram seus coadjutores os padres Mathias José de Santana Brandão; José Nicodemos da Rocha, residindo este na capela de Piranhas, que então pertencia a Pão de Açúcar; Cícero Joaquim de Siqueira Torres; Francisco Maria de Albuquerque, ficando este circunscrito a Belo Monte; o Pe. Manoel dos Santos Curador Filho[vi] e o Padre José de Freitas Machado (Mons. Freitas). – Para saber mais sobre o Monsenhor Freitas, clique aqui:

a.       Pe. Mathias José de Santana Brandão. Nasceu em Mata Grande a 10 de dezembro de 1821 e faleceu em Entremontes (então pertencente a Pão de Açúcar, hoje a Piranhas) a 21 de agosto de 1869. Filho de Anacleto de Jesus Maria Brandão e Maria Francisca da Conceição e, portanto, tio do bispo Dom Antônio Brandão.

b.      Pe. José Nicodemos da Rocha. Celebrou sua primeira missa em Sertãozinho (atual Major Izidoro) no dia 18 de novembro de 1903. Em 1906, depois de ter atuado como coadjutor em Pão de Açúcar e capelão na então Vila de Piranhas, que foi paróquia, criada pela Lei Provincial nº 964, de 20 de julho de 1885, mas não foi instituída canonicamente, continuando sob a administração do vigário de Pão de Açúcar.[vii] Logo pós, foi nomeado pároco da Paróquia de Água Branca. Faleceu em 1936.

Padre José Nicodemos da Rocha


c.       Pe. Cícero Joaquim de Siqueira Torres.

Membro de tradicional família sertaneja, filho do Barão e da Baronesa de Água Branca, Joaquim Antônio de Siqueira Torres e Joana Vieira Sandes, o Padre Cícero Joaquim de Siqueira Torres, divulga, pelas páginas do jornal O Trabalho, que já se editava em Penedo, esse

“MANIFESTO DE GRATIDÃO DIRIGIDO PELO PADRE CÍCERO JOAQUIM DE SIQUEIRA TORRES AOS HABITANTES DA CIDADE DE PÃO DE AÇÚCAR – EM GERAL

Sumamente penhorado pelo bom acolhimento, com que fui aceito, e tratamento lhano que me prodigalizaram em geral os habitantes de Pão de Açúcar durante a minha assistência de Coadjutor naquela Freguesia, não posso deixar de vir ao alto da imprensa para agradecer-lhes do íntimo de meu coração tantas finezas e atenções que generosamente me dispensavam.

Assim, pois, tendo que retirar-me de Pão de Açúcar, aonde exerci o cargo de Coadjutor, por ter sido nomeado Vigário Encomendado da Vila de Água Branca, e achando-me repleto de muitíssimos obséquios, seria inteiramente desreconhecido se, ao ausentar-me de Pão de Açúcar, não dedicasse aos seus distintos habitantes ao menos um exíguo sinal de amizade e gratidão; passaria por incivil e descortês se não rendesse a esse nobre povo um preito de homenagem; cometeria uma falta bem digna de censura, uma laguna irreparável se me separasse do amável povo pão-de-açucarense sem lhe enviar um saudoso adeus de despedida. Deveria mesmo ser acoimado com o repelente epíteto de ingrato, se neste momento não sentisse o palpite de aqui declinar os nomes de ilustres e distintos cavalheiros dos quais bons obséquios recebi.

Bem sei que, dando à publicidade os nomes de tais pessoas, vou ferir a modéstia que abrilhanta a fronte de cada uma delas; mas, como não sou indiferente aos benefícios que se me fazem, me vejo obrigado a lhes pedir licença para escrever aqui os seus ilustres nomes, sentindo não poder esculpi-los em caracteres de ouro, restando-me, porém a satisfação de que serão gravados de uma maneira indelével no meu coração.

Sabem todos, e é corrente entre os homens de bem que a ingratidão é um dos vícios mais asquerosos e hediondos, que denigre a sociedade, assim como a gratidão é uma das virtudes mais aplaudidas e decantadas entre os viventes; é um farol que ilumina as nossas boas intenções nesta senda tortuosa e escabrosa da vida.

Estribado, pois, nesta importante máxima, principio por agradecer cordialmente as maneiras afáveis e joviais com as quais sempre se dignou tratar-me o ilustre e virtuoso Vigário Antônio José Soares de Mendonça; esse distinto levita do Senhor certamente que está acima de todos os elogios, que a pena mais eloquente lhe possa tecer; por isso, deixando de lado de parta as suas raras e excelentes qualidades bem visíveis e salientes aos olhos de todos que tem a distinta honra de conhecê-lo, dele só direi que, como Pastor é tal qual aquele de que nos fala o Divino Mestre nas sacras Escrituras, pois que é muito zeloso da SALVAÇÃO de seu rebanho; sempre esta de atalaia e alegria e alerta para prevenir e repetir os sorrateiros ataques do Lobo voraz, que astuto espreita a ocasião azada para devorar-lhe o rebanho; não se poupa mesmo a esforços e sacrifícios, transpondo vales e montanhas, quando é preciso, e através de serranias  procura ovelha desgarrada do redil, e só descansa quando a faz voltar ao aprisco!!

Eis o verdadeiro e bom Pastor, que tanto nos recomenda NOSSO SENHOR JESUS CRISTO! ... Eis o verdadeiro cultor da vinha mística do Senhor! ...

Prossegui, ilustre Sacerdote, nessa senda brilhante e admirável, que os vossos esforços e sacrifícios serão caucionados nos tesouros imensos de graças eternas e infinitas; e em remuneração vos aguarda uma eternidade feliz, cuja auréola de glória a começa luzir mesmo cá neste ilusório mundo em vossas boas obras.

Também não posso deixar no ouvido o nome do distinto e prestimoso Cavalheiro, Ilm.º Sr. Coronel João Machado de Novaes Mello, o qual sempre dignou-se nomear-me com a sua amizade, e me cumulou de bons obséquios, dos quais me confesso grato.

Agora, corre-me o dever de mencionar aqui o nome do preclaro e simpático Dr. Jovino de Cerqueira Maia[viii], honra da magistratura brasileira, Juiz honesto e reto, que só sabe vergar em seu corpo a limpa e cândida de prevaricações e corrupções, que infelizmente germinam entre alguns magistrados iníquos desse nosso Brasil. A esse Senhor, Dr. Jovino, devo mil atenções, pois não conhecendo nem a mim nem a minha família, se dignou tratar-me com toda distinção, me tributou particular estima, e até prestou-me muitos favores, dos quais tenho provas não equívocas. É que as pessoas educadas e de almas nobres e generosas assim procedem.

O dever de gratidão também me impele a mencionar o nome do respeitável e honrado Coronel José Gonçalves de Andrade[ix], que sempre se mostrou meu amigo dedicado e me fez grandes favores, com os quais mais me cativou e tornou-me mais obrigado.

O amor de coleguismo e amizade me faz não deixar em silêncio o circunspecto e ilustre Dr. Manoel Ronaldsa Brandão[x], com quem sempre tive de entender firmes relações, e do qual sempre experimentei as melhores provas de amigo constante e generoso. E aproveito o ensejo para agradecer em geral à ilustre família Brandão, que inquestionavelmente compõe-se de membros distintos. Tenho o grande prazer de manifestar que, por esta distinta família, fui tratado com toda distinção e dela recebi boas provas de amizade.

Finalmente agradeço aos bondosos habitantes de Pão de Açúcar, em geral, os benefícios e obséquios que me prestaram generosamente, e as atenções que me dispensaram; a vós todos, pois me confesso eternamente grato; e me retirando saudoso de entre vós, resta-me a consolação de poder dizer como outrora dissera o nosso Redentor aos seus queridos discípulos: Pacem reliquo vobis, pacem meam do vobis.

Nada importante e de valor tenho que vos oferecer em testemunho do meu alto reconhecimento para convosco, porém, este pouco mesmo que possuo ponho a vossa disposição.

Podeis, portanto, dispor como lhes aprouver dos fracos e acanhados préstimos deste obscuro sacerdote e reconhecido amigo.

 

23 de outubro de 1879.

Padre Cícero Joaquim de Siqueira Torres

Ex-Coadjutor de Pão de Açúcar e atual Vigário de Água Branca.”

 

O Padre Cícero Torres, Presbítero Secular do Hábito de São Pedro, tendo alcançado as honras de Cônego da Sé de Olinda, em 1889, faleceu em Penedo-AL, no dia 23 de março de 1898.

Sobre a sua morte, a notícia abaixo, publicada no jornal Cidade do Salvador, Bahia, em 30 de abril de 1898:

 “O Rev. Vigário de Santo Antônio da Glória escreve-nos o seguinte:

No dia 23 de março, às 8 horas da noite, na cidade do Penedo, rendeu alma ao Criador o nosso colega Cônego Cícero Joaquim de Siqueira Torres, vigário colado da freguesia de Água Branca, Estado de Alagoas.

Ele era filho legítimo do Sr. Barão de Água Branca e fora educado no Seminário Pequeno e Grande dessa Diocese, onde fez todo o seu curso com geral estima de seu superiores e condiscípulos.

Seu comportamento foi um exemplo para todos. Ordenado em São Paulo, em 1878, por Dom Lino Deodato, era o modelo dos vigários de Alagoas, e gozava de geral estima. Sua morte inesperada foi uma verdadeira calamidade, sendo chorado por todos, pois nunca teve, em 19 anos de sacerdócio, um só inimigo.

Era músico compositor, e sua flauta aí no Seminário foi admirada.

Tinha apenas 56 anos de idade, e 18 de pároco em sua terra natal.

Deixou-nos inconsoláveis.”

 

Água Branca-Alagoas
O Pe. Cícero Joaquim de Siqueira Torres.
Foto do álbum do Monsenhor Freitas.

d.      Pe. Francisco Maria de Albuquerque.

Dia 23 de abril de 1896, chegou a Belo Monte o Pe. Francisco Maria de Albuquerque. Ele era coadjutor da Paróquia de Pão de Açúcar, nos limites de Belo Monte.

Natural de Alagoas (atual Marechal Deodoro). Filho de José Affonso de Albuquerque e Thereza de Jesus Albuquerque.

Eram seus avós paternos: Affonso de Albuquerque Maranhão e Caetana Lucinda de Albuquerque; e, maternos: José de Azevedo Borba (Português) e Maria Joaquina de Albuquerque (natural de Alagoas).

Foi vigário da Freguesia do Pilar.

e.       Pe. Manoel dos Santos Curador Filho.

Nasceu em Santana do Ipanema a 14 de fevereiro de 1872. Filho de Manoel dos Santos Curador e Ana Maria da Conceição.

Neto paterno de José Maria das Flores e Thereza Maria de Jesus; e, materno, de João Soares da Rocha e Joana Antônia do Espírito Santo. Batizado a 3 de março de 1872.

Foi ordenado no dia 24 de outubro de 1896, na Capela do Paço Episcopal (Olinda).[xi]

Foi vigário da paróquia de Salgueiro, mudando-se pra a de Cabrobó, em 11 de fevereiro de 1903, ambas no Estado de Pernambuco[xii]. Em 1904, transferiu-se para a Paróquia de Alagoas (atual Mal. Deodoro).[xiii]

Em 1916, era Capelão da Fábrica de Tecidos “São Miguel”, em São Miguel dos Campos.[xiv]

Em 1926, era vigário em Piaçabuçu.

f.       Frei José de São Jerônymo.[xv]

De nacionalidade portuguesa, superior do Convento de Santa Maria dos Anjos, de Penedo, Frei José residia no Brasil desde 1840[xvi], e já atuava como coadjutor em Pão de Açúcar por volta de 1860, aparecendo em livros da Igreja de São Pedro do Porto da Folha[xvii].

Antes, por ocasião da visita do Imperador Dom Pedro II a Propriá, Estado de Sergipe, ele compôs o coro de um Te Deum, oficiado pelos Reverendos Nunes (de Vila Nova, hoje Neópolis) e Manoel Francisco de Carvalho, junto com Frei Simplício da Santíssima Trindade e Frei José da Piedade.[xviii]

Em 30 de setembro de 1878, carta do correspondente do Jornal do Penedo em Pão de Açúcar, que assina sob o nome (ou falso nome) de Epaminondas, em edição de 11 de outubro de 1878, informa:

“ENFERMO. Do povoado Campo Alegre, deste Termo, chegou ultimamente nesta cidade o Rev. Frei José de São Jerônymo, que se acha prostrado e gravemente doente; e pelo seu estado melindroso é muito duvidoso que se restabeleça. O Reverendo Fr. José há muito tempo que reside naquele povoado, onde sempre teve uma vida muito regular, e estava construindo ali uma espaçosa capela dedicada a N. S. da Luz, que já vai bastante adiantada.”

Frei José efetivamente faleceu em Penedo no dia 22 de junho de 1883, aos 76 anos.[xix]

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NOTA:

 

Caro leitor,

Deste Blog, que tem como tema “HISTÓRIA E LITERATURA”, constam artigos repletos de informações históricas relevantes. Essas postagens são o resultado de muita pesquisa, em geral com farta documentação e dotadas da competente referência bibliográfica. Por esta razão, solicitamos que, caso sejam do seu interesse para utilização em qualquer trabalho, que delas faça uso tirando o maior proveito possível, mas fazendo também o necessário registro de autoria e a citação das referências. Isso é correto e justo.

 

 



[i] Porto da Folha é o antigo nome de Traipu, Estado de Alagoas. Não se refere, evidentemente, ao município sergipano.

[ii] A Nação, Rio de Janeiro, 29 de setembro de 1873.

[iii] DIÁRIO DE PERNAMBUCO, 29 de maio de 1865, p. 8.

[iv] Jornal do Recife, 18 de março de 1906.

[v] A Fé Christã, Penedo, 14 de abril de 1906.

[vi] A Província, Recife, 7 de fevereiro de 1904.

[vii] Almanak do Estado de Alagoas - 1891-1894.

[viii] Nomeado Juiz Municipal e de Órfãos do Termo de Pão de Açúcar em 13 de setembro de 1876. Foi exonerado, a pedido, em 5 de fevereiro de 1881, sendo nomeado em seu lugar o bacharel Luiz Gonzaga de Almeida Araújo.

[ix] Nasceu a 24 de novembro de 1820 e faleceu em Pão de Açúcar no dia 11 de dezembro de 1880.

[x] Filho de Antônio Manoel de Castilho Brandão e Maria Barbosa da Conceição de Castilho Brandão.

[xi] O Trabalho, Penedo 14 de novembro de 1896.

[xii] Diário de Pernambuco, Recife, 12 de março de 1903.

[xiii] Diário de Pernambuco, Recife, 6 de março de 1904.

[xiv] O Semeador, 31 de outubro de 1916.

[xv] Jornal do Penedo, Penedo-AL, 14 de julho de 1883.

[xvi] SANTOS, Mônica Costa. MISSIONÁRIOS DE LETRAS E VIRTUDES – A PEDAGORIA MORAL DOS FRANCISCANOS EM ALAGOAS NOS SÉCULOS XVIII e XIX. UFAL, 2007.

[xvii] Pronunciamento do Dep. José Carlos Teixeira, MDB-SE. Diário do Congresso Nacional, 28 de novembro de 1978.

[xviii] O Correio da Tarde, Rio de Janeiro, Ano V, 259, 1959.

  

quinta-feira, janeiro 25

A PROFESSORA ROSÁLIA SAMPAIO BEZERRA

 Por Etevaldo Amorim

Blog do Etevaldo

Pão de Açúcar-AL. Década de 1920. A Professora Rosália e seus alunos. Georgina de Carvalho Mello, filha de Alípio Gomes de Carvalho Mello e Maria Regina de Carvalho Mello, avó de Maria Rocha, é a terceira da direita para a esquerda, da segunda fila de cima para baixo.


Por mais de quarenta anos ela estimulou o raciocínio de muitas gerações de crianças de Pão de Açúcar. Como Professora do Ensino Primário, ensinou-as a ler e contar, libertando-as da escuridão da ignorância.

Pouco se sabe a respeito de Rosália Sampaio Bezerra. Seu nome, entretanto, está imortalizado porquanto dá nome a uma de nossas ruas e a uma Escola Estadual. 

Falecida já há mais de 53 anos (30 de dezembro de 1957), não sendo de Pão de Açúcar e não tendo deixado descendência, resta-nos apenas informações vagas colhidas de familiares de alguns de seus alunos.

Recentemente, encontrei no perfil de uma pessoa amiga numa rede social da internet, uma foto identificada como sendo da “Professora Rosália e seus alunos”. 

Surpresa!!! Temos, enfim, uma imagem da famosa Mestra.

Essa amiga, a também professora Maria Rocha, conseguiu da sua avó octogenária algumas informações: não era casada; veio para Pão de Açúcar com mais dois irmãos, que também moravam com ela: Rodolpho e Osvalda. Disse também que ela criou uma pessoa chamada Ivone, e que o irmão dela ensinava, às escondidas, as tarefas aos alunos, através do corredor da sala.

Sobre Rodolpho de Fraga Bezerra, pudemos apurar que ele estava, em 1904, no 1º Ano da Faculdade de Direito do Recife. Ainda como acadêmico, foi nomeado pelo Vice-Governador Antônio Máximo da Cunha Rego (no exercício do cargo de Governador) Juiz Substituto de Anadia. Gutenberg, Maceió, 9 de março de 1906.

Foi tão longa a atividade da Professora Rosália, que ela chegou a ensinar a sucessivas gerações da família de Maria Rocha: primeiro a avó Georgina (filha de Alípio Gomes de Carvalho Mello e Maria Regina de Carvalho Mello), na década de 1920; depois a mãe Norma, na década de 1930 e a tia Solange, na década de 1940.

Desde antes da construção do Grupo Escolar Bráulio Cavalcante, cujas aulas iniciaram em 2 de julho de 1935 e do qual foi sua primeira Diretora, D. Rosália lecionava na sala de sua própria residência. Aliás, ela foi nomeada para lecionar naquela Escola e designada para sua Diretora por Ato do Secretário do Interior, Educação e Saúde, em 

É muito pouco o que temos, considerando a sua importância para a Educação em nossa terra. Rogo, então, aos que mais souberem para que deixem aqui o seu recado e, assim, contribuam para a constituição de uma biografia digna da Grande Mestra.

***   ***

O texto acima é um resgate da postagem feita em 26 de janeiro de 2011. 

Decorridos treze anos, logramos conseguir mais alguma informação.

Rosália Sampaio Bezerra nasceu em 1881, provavelmente em Murici, já que sua irmã Guiomar, que também foi professora em Pão de Açúcar, apenas um ano mais nova que ela, ali nasceu em 24 de setembro de 1882. 

Era filha do Capitão Ramiro da Fraga Bezerra e da Srª Maria Sampaio Bezerra; neta paterna de Gilberto Bezerra e Maria Bezerra. 

Seu pai, quando faleceu em 1921, era 1º Escriturário do Tesouro do Estado de Alagoas.

Em 27 de junho de 1905, ele foi nomeado para 3º Suplente do Comissário de Polícia da Capital. Foi Subdelegado no Distrito de Santo Antônio da Boa Vista, em Muricy, onde também foi Delegado Literário e, em 1891, compunha a 6ª Companhia do 17º Batalhão de Infantaria da Guarda Nacional naquele Município.

Além de Guiomar, Rodolpho e Osvalda, tinha um irmão: Antão da Fraga Ribeiro, nascido em Camaragibe-AL, em 13 de janeiro de 1887 e falecido no Rio de Janeiro em 7 de maio de 1946.

Por volta de 1899, a família residia em São Luis do Quitunde. 

Rosália Sampaio Bezerra formou-se professora no Lyceu Alagoano, tendo sido aprovada no primeiro ano com distinção no curso de Pedagogia, em 1905.

Antes de Pão de Açúcar, lecionou no povoado Olhos D’Água do Accioly, município de Palmeira dos Índios, atual cidade de Igaci. Por Decreto de 19 de fevereiro de 1915, foi removida para a Cadeira de Mar Vermelho, então município de Anadia. 

Não conseguimos precisar a data em que ela iniciou sua atuação em Pão de Açúcar. Entretanto, somos levados a crer que chegou junto com sua irmã Guiomar, que veio removida de Cajueiro (município de Paraíba, atual Capela), por Ato de 22 de janeiro de 1915, para a 2ª cadeira do sexo feminino de Pão de Açúcar. 

Ademais, sua assinatura consta em um Registro de Casamento realizado em Pão de Açúcar, na residência do Sr. Perdiliano Gomes de Carvalho Mello, no dia 25 de abril de 1918, em que constam como nubentes: Orlando Monteiro de Oliveira (natural do Rio Grande do Sul) e Anália de Souza (natural de Pão de Açúcar), filha de Maria Francisca de Souza. 

Por esse tempo, passaram por Pão de Açúcar: Maria Felicíssima Possidônio dos Santos, Joana Amélia Romeiro, Alice Menezes de Mesquita (esposa do Sr. Lucilo Mesquita), Cecília Maria dos Anjos Campos, Agripina Melo (nos Torrões, que pertencia a Pão de Açúcar); Ernesto Pereira Mello, em Meirus; e João Gomes da Silva (em Jacarezinho).

O nome da Professora Rosália aparece nos Almanaques e Relatórios entre 1929 e 1931. Por essa época, atuavam no município: Ana Vieira Conde, José Bento Lima, Annete de Mesquita Cavalcante, Alba de Mesquita, estas, filhas de José Venustiniano Cavalcante Filho e Theonilla de Mesquita Cavalcante e, portanto, sobrinhas de Bráulio Cavalcante; Alzira de Almeida e Astéria Melo e Maria da Glória Lyra (em Meirús).

Já nos tempos do Grupo Escolar Bráulio Cavalcante, e sob sua direção, lecionavam as professoras: Flora Calheiros Martins (esposa do Dr. José Cotrim, que atendia no Posto de Saúde), Helena Calheiros Martins (irmã de Flora), Angelita Lins de Albuquerque e Alcina Mangabeira Canuto. Esta última também lecionou no Limoeiro, além de Diomédia Prazeres dos Santos, em 1923; Joana Coelho da Silva, em 1924, Maria do Céu Damasceno (Dona Céu), em 1929; e Maria José Feitosa (Sinharinha Feitosa), irmã do Sr. Juca Feitosa, já em 1937.

Na Ilha do Ferro, entre 1929 e 1937, ensinavam: Manoel Alves da Costa Lima (que dá nome à Escola Municipal ali existente); Juracy Lima e Regina Emirantina Bello. 

A professora Rosália Sampaio Bezerra faleceu em Pão de Açúcar no dia 30 de dezembro de 1957.

Digna de todas as homenagens, pela trajetória de absoluto devotamento à causa do ensino e à formação de cidadãos, ela mereceu dos pão-de-açucarenses a denominação de uma Escola Pública estadual e uma via pública.

Assim, por força da Lei Municipal nº 270, de 12 de junho de 1958, a rua Santa Maria passou a ter o nome de “Rua Professora Rosália Bezerra”. Essa via faz a ligação entre a Rua Cônego Jasson Souto (precisamente defronte à Unidade Municipal de Ensino Profª Maria Tavares Pinto, antigo Ginásio Dom Antônio Brandão) e a Praça Darcy Gomes.

Já a Escola Estadual, o antigo Grupo Escolar Rosália Sampaio Bezerra, está situada na Av. José de Freitas Machado, nº 300, próxima à Praça do Bonfim. Cabe observar que o cidadão que dá nome a essa rua é o Sr. José de Freitas Machado, conhecido por Zuza Machado, e não o seu primo José de Freitas Machado (Zeca), farmacêutico e químico, fundador da Escola Nacional de Química.

Rua Santa Maria - Pão de Açúcar-AL
A Rua Rosália Sampaio Bezerra recebendo pavimentação
durante a gestão do prefeito Augusto de Freitas Machado.

Escola Estadual Rosália Sampaio Bezerra - Pão de Açucar-AL
O Grupo Escolar Rosália Sampaio Bezerra durante a enchente
do rio São Francisco, em 1979.

Avenida Bráulio Cavalcante - Pão de Açúar-AL
Grupo Escolar Bráulio Cavalcante, que teve a Profª Rosália
como sua primeira Diretora. Foto: Elisabete Gandra, 1974.




NOTA:


Caro leitor,

Deste Blog, que tem como tema “HISTÓRIA E LITERATURA”, constam artigos repletos de informações históricas relevantes. Essas postagens são o resultado de muita pesquisa, em geral com farta documentação e dotadas da competente referência bibliográfica. Por esta razão, solicitamos que, caso sejam do seu interesse para utilização em qualquer trabalho, que delas faça uso tirando o maior proveito possível, mas fazendo também o necessário registro de autoria e a citação das referências. Isso é correto e justo.



quinta-feira, janeiro 18

O BARÃO DE PIAÇABUÇU

Por Etevaldo Amorim


João Machado de Novaes Mello
O Major João Machado de Novaes Mello
"Barão de Piaçabuçu"



João Machado de Novaes Mello, eis o nome de um dos mais respeitados líderes políticos da região do Baixo São Francisco, nos tempos do Império. Era tenente-coronel da Guarda Nacional, destacado líder do Partido Liberal e chefe político da sua região.

Nasceu entre 1818 e 1820, em Vila Nova, atual Neópolis, Estado de Sergipe. Era filho do sargento-mor Antônio Francisco de Novaes e Maria Magdalena Leite Sampaio.

Casou-se com Maria José de Novaes Mello, com quem teve os filhos: Manoel Leite de Novaes Mello (1849-1898), Josefina de Novaes Mello (1847-1893), Miguel de Novaes Mello (1851-1901), João Marinho de Novaes Mello (-1883), Antônio Ferreira de Novaes Mello (1856-1880) e José Matheus de Novaes Mello.


Era seu filho o primeiro prefeito (Intendente) do município de Pão de Açúcar, Alagoas – o juiz de direito Dr. Miguel de Novaes Mello. Ele também foi Deputado Provincial em Alagoas. (vide http://blogdoetevaldo.blogspot.com/2015/07/miguel-de-novaes-mello.html)


Outro filho, nascido em Pão de Açúcar, foi o advogado Antônio Ferreira de Novaes Mello, formado na Faculdade de Direito de São Paulo em 1879 e Deputado Provincial em Alagoas. Faleceu em acidente ferroviário durante a construção da Estrada de Ferro Paulo Afonso, ocorrido no dia 17 de julho de 1880. Foi durante alguns anos o jornalista responsável pelo jornal Liberal em Maceió. (Vide http://blogdoetevaldo.blogspot.com/2012/04/desastre-em-piranhas-e-morte-de.html )


João Marinho de Novaes Mello, major da Guarda Nacional, também seu filho, comerciante em Pão de Açúcar, membro do Conselho Municipal, faleceu em 1º de maio de 1883. Três anos antes, em 17 de julho de 1880, ele havia sobrevivido, com graves ferimentos, ao terrível acidente de que foi vítima fatal seu irmão Ferreira de Novaes.


Ainda outro filho do Barão teria enorme projeção: o médico Manoel Leite de Novaes Mello. Formado pela Faculdade de Medicina da Bahia, radicou-se no Espírito Santo. Sua carreira política contempla os cargos eletivos de vereador na Câmara Municipal de Cachoeiro do Itapemirim - ES, da qual foi presidente, em 1890; Deputado Provincial para a Legislatura 1876-1877 e Deputado Federal.


***   ***   ***

A primeira atividade pública do Major João Machado, de que se tem notícia, foi durante a presidência de José Francisco de Menezes Sobral, em 1847, como coletor de rendas em Capela, Província de Sergipe[i];


Em janeiro de 1859 foi nomeado major ajudante de ordens do comando superior da Guarda Nacional dos municípios de Porto da Folha (hoje Traipu) e Mata Grande, ambos em Alagoas.[ii] Quatro anos depois, em julho, foi nomeado Capitão Cirurgião-mor do Comando Superior da Guarda Nacional para os municípios de Porto da Folha (atual Traipu), Pão de Açúcar e Mata Grande.[iii]


Em 1877 já era Major e em julho de 1879, Comandante Superior em Pão de Açúcar, como Tenente-Coronel. Era também o Delegado de Polícia daquele município até 1880 e Suplente de Juiz Municipal em 1891.

Era também comerciante, estabelecido em Pão de Açúcar com lojas de tecidos.


Esteve presente à visita do Imperador D. Pedro II à cachoeira de Paulo Afonso, no dia 20 de outubro de 1859.[iv] Aliás, quando da passagem do Imperador D. Pedro II, demandando a Cachoeira de Paulo Afonso, foi no sobrado de sua propriedade (já transformado em Casa da Câmara) que ele pernoitou em Pão de Açúcar nos dias 17 para 18 e 22 para 23 de outubro de 1859.


No dia 22 de outubro de 1878, recepcionou o Presidente da Província, Dr. Francisco Carvalho Soares Brandão, quando de sua passagem por Pão de Açúcar com destino a Piranhas, onde assistiria à inauguração dos trabalhos da Estrada de Ferro, que aconteceria no dia 23. Vide http://blogdoetevaldo.blogspot.com/2020/05/soares-brandao-em-pao-de-acucar.html.


Assim também o fizera em 1869, por ocasião da visita do então presidente da Província, Dr. José Bento da Cunha Figueiredo Junior. Naquela oportunidade, posou para as lentes do fotógrafo Abílio Coutinho, na famosa fotografia da numerosa comitiva. De fraque e cartola branca, que mandou vir de Londres para aquela ocasião[v], lá estava ele no alto de seus cinquenta anos, já conceituado líder político da região. Essa fotografia, emoldurada por iniciativa do nosso historiador Aldemar de Mendonça, sempre esteve exposta no Prédio-sede da Prefeitura Municipal, sendo a única imagem conhecida do grande líder político.



O Major João Machado (2) junto à comitiva do Presidente da Província de
Alagoas - Dr. José Bento da Cunha Figueiredo Junior (1). Pão de Açúcar, 8
de janeiro de 1869. Foto: Abílio Coutinho.

Recentemente, explorando um álbum que pertenceu ao venerável pão-de-açucarense Monsenhor Freitas, que me fora gentilmente cedido pelo Dr. Álvaro Otávio Vieira Machado (e que pertencera ao seu pai Sr. Armando Machado), eis que encontro a foto que encima estas notas, feita na Bahia pelo renomado fotógrafo Guilherme Gaensly, com estúdio no Largo do Teatro, 92[vi], cuja dedicatória se fez nos seguintes termos:


“Offerece o abaixo assignado em signal de amizade, Bahia, de 13 de maio de 1881. Pe. Freitas. (a) João Machado de Novaes Mello.”


Recebeu o título nobiliárquico de barão em 5 de outubro de 1889, um mês e cinco dias antes da queda da monarquia. O jornal O CONSTITUCIONAL, órgão do Partido Conservador, que circulava em Vitória-ES, veiculou a seguinte notícia, em sua edição de 24 de outubro de 1889:



BARÃO DE PIAÇABUÇU.


Foi agraciado com esse título o Coronel Novaes, pai do ilustrado clínico e hoje fazendeiro, o Dr. Manoel Leite de Novaes Mello.

Demos-lhe sinceros parabéns pela merecida distinção com que foi agraciado o seu ilustre progenitor, cidadão dos mais qualificados e beneméritos na província de Alagoas, onde reside.”


Por fim, já tendo cumprido seus 72 anos de existência, faleceu em Pão de Açúcar, a 3 de agosto de 1892.


Eis a íntegra do seu registro de óbito no Livro 3-C –fls. 78v, do Cartório do 1º Ofício do Registro Civil de Pão de Açúcar, Estado de Alagoas, sob o Nº 97:


Aos três dias do mês de agosto do ano do nascimento de Nosso Senhor Jesus Cristo de Mil Oitocentos e Noventa e Dois, Quarto da República, neste primeiro distrito de Paz da Paroquia do Município de Pão de Açúcar do Estado de Alagoas, compareceram no meu cartório o Doutor Juiz de Direito Miguel de Novaes Mello e em presença das testemunhas abaixo nominadas e assignadas declarou: Que hoje, por cinco horas e meia, nesta cidade, em casa de sua residência faleceu um homem de nome João Machado de Novaes Mello, de setenta e quatro anos de idade, natural de Villa Nova[vii], Estado de Sergipe, residente nesta cidade, viúvo por falecimento de Maria José de Novaes Mello, filho legítimo de Antônio Ferreira de Novaes e Maria Magdalena Leite Sampaio, falecidos; faleceu sem tratamento, deixou dois filhos de nomes Doutor Manoel Leite de Novaes Mello, de quarenta e três anos e ele, declarante, de quarenta e um anos, a morte é natural e a causa conhecida congestão cerebral e no cemitério público desta cidade vai mandar sepultar. E para constar lavrei este termo em que comigo assinam o declarante e as testemunhas Manoel Rego, e Antônio Moreira de Souza Sobrinho, que atestam, de conhecimento próprio que o falecido de nome João Machado de Novaes Mello era o mesmo mencionado neste assento. Eu Theotônio Rodrigues de Souza Christo[viii], Escrivão de Paz escrevi.

 

(a)   Theotônio Rodrigues de Souza Christo

Bacharel Miguel de Novaes Mello

Manoel Rego

Antônio Moreira de Souza Sobrinho                                           

 

Em tempo: Declaro que o falecimento foi às cinco horas e meia da tarde. Eu, Theotônio Rodrigues de Souza Christo escrivão de Paz escrevi.”


Ao noticiar o seu falecimento, o Jornal de Notícias, publicação bi-semanal que circulava em Maceió, a ele assim se referiu, em sua edição de 14 de julho de 1892:



Muito estimado por suas belas qualidades individuais, o Coronel João Machado era chefe de uma das mais distintas e ilustres famílias do Baixo São Francisco. Homem probo e sincero foi, no tempo da Monarquia, uma das mais extensas influências políticas do Partido Liberal. Agraciado com o título de “Barão”, deu provas de seus sentimentos democráticos não aceitando a distinção com que o honrou o governo do Imperador.”.


Com o mesmo destaque, o jornal A Pátria, de Maceió, na sua edição de 16 de julho de 1892:


Com o maior pesar, registramos a infausta notícia do sentido passamento do venerando ancião Coronel João Machado de Novaes Mello, abastado proprietário no município de Pão de Açúcar.

Ocupou diversos cargos de nomeação do governo e eleição popular, procedendo sempre com a maior inteireza e probidade.

Nos últimos tempos da monarquia, foi agraciado com o título de Barão de Piaçabuçu, que não aceitou.

Nossos pêsames à sua família e especialmente a seu prezado filho, Dr. Miguel de Novaes Mello, distinto e honrado juiz de direito de Pão de Açúcar, Santana e Piranhas.”


***   ***   ***


Nota-se que, em que pese o registro de óbito dizer que o falecimento se deu no dia 3 de agosto de 1892, as notícias dos jornais de Alagoas, aqui reproduzidas, são do mês de julho. (!)


Entretanto, as notícias dos veículos de outros Estados são do mês de agosto, inclusive os Anais da Câmara dos Deputados, onde seu filho, o Dr. Manoel Leite de Novaes Mello, justifica a ausência à sessão 5 de agosto de 1892 - 63ª Sessão, em virtude do falecimento de seu pai.


Fiquemos, então, com a data do registro oficial: 3 de agosto de 1892.

 

Foto Abílio Coutinho
Pão de Açúcar, 1869, vendo-se o sobrado que pertenceu ao
Barão de Piaçabuçu. Foto: Abílio Coutinho.

Foto Adolpho Lindemann
Pão de Açúcar 1888, vendo-se ao fundo o dito sobrado.
Foto: Adolpho Lindemann.

Pão de Açúcar, 1919, vendo-se o sobrado que hospedou
Dom Pedro II em 1859. 



***   ***   ***

NOTA:

Caro leitor,

Deste Blog, que tem como tema “HISTÓRIA E LITERATURA”, constam postagens com informações históricas resultantes de pesquisas, em geral com farta documentação e dotadas da competente referência bibliográfica. Por esta razão, solicitamos que, caso algumas delas seja do seu interesse para utilização em qualquer trabalho, que faça uso tirando o maior proveito possível, mas fazendo também o necessário registro de autoria e a citação das referências. Isso é correto e justo.



[i] Jornal do Comércio, Rio de Janeiro, 27 de agosto de 1847.

[ii] Correio da Tarde, Rio de Janeiro, 6 de janeiro de 1859.

[iii] A Atualidade, Rio de Janeiro, 7 de julho de 1863.

[iv] Correio Mercantil, Rio de Janeiro, 7 de novembro de 1859.

[v] Novaes Filho (Senador Antônio de Novaes Filho), em OS NOVAES NO BRASIL, Diário de Pernambuco, Recife, 19 de julho de 1969.

[vi] Wilhelm Gänsli nasceu a 1º de setembro de 1843, em Wohlhausen - Cantão de Thurgau, Suíça, filho de Jacob Heinrich e de Anna Barbara Kyn, veio para o Brasil ainda menino, acompanhando o pai comerciante que se radica em Salvador. Ali inicia sua carreira em meados da década de 1870, associando-se a Rodolpho Lindemann em 1882 e fotografando diversas localidades da província da Bahia antes de se transferir para a cidade de São Paulo em 1890 e deixar seu sócio à frente do estúdio baiano. É na capital paulista, colaborando durante mais de 25 anos para a São Paulo Tramway Light and Power Company e organismos oficiais como a Secretaria de Agricultura, que se firma como o mais importante paisagista do Estado de São Paulo na primeira metade do século XX. Consagrado ainda em vida, é agraciado com as medalhas de prata das exposições de Paris (França), em 1889, e Saint Louis (Estados Unidos), em 1904. Faleceu em São Paulo a 20 de junho de 1928.

[vii] Atual Neópolis, Estado de Sergipe.

[viii] Theotônio Rodrigues de Souza Christo. Natural de Alagoas e falecido em Sergipe em 26 de outubro de 1907. Casado com Maria Luiza de Souza Christo, nascida em Alagoas, a 29/11/1864 e falecida no Rio de Janeiro.

A POESIA DE PÃO DE AÇÚCAR



PÃO DE AÇÚCAR


Marcus Vinícius*


Meu mundo bom

De mandacarus

E Xique-xiques;

Minha distante carícia

Onde o São Francisco

Provoca sempre

Uma mensagem de saudade.


Jaciobá,

De Manoel Rego, a exponência;

De Bráulio Cavalcante, o mártir;

De Nezinho (o Cego), a música.


Jaciobá,

Da poesia romântica

De Vinícius Ligianus;

Da parnasiana de Bem Gum.


Jaciobá,

Das regências dos maestros

Abílio e Nozinho.


Pão de Açúcar,

Vejo o exagero do violão

De Adail Simas;

Vejo acordes tão belos

De Paulo Alves e Zequinha.

O cavaquinho harmonioso

De João de Santa,

Que beleza!

O pandeiro inquieto

De Zé Negão

Naquele rítmo de extasiar;

Saudade infinita

De Agobar Feitosa

(não é bom lembrar...)


Pão de Açúcar

Dos emigrantes

Roberto Alvim,

Eraldo Lacet,

Zé Amaral...

Verdadeiros jaciobenses.

E mais:

As peixadas de Evenus Luz,

Aquele que tem a “estrela”

Sem conhecê-la.


Pão de Açúcar

Dos que saíram:

Zaluar Santana,

Américo Castro,

Darras Nóia,

Manoel Passinha.


Pão de Açúcar

Dos que ficaram:

Luizinho Machado

(a educação personificada)

E João Lisboa

(do Cristo Redentor)

A grandiosa jóia.


Pão de Açúcar,

Meu mundo distante

De Cáctus

E águas santas.

______________

Marcus Vinícius Maciel Mendonça(Ícaro)

(*) Pão de Açúcar(AL), 14.02.1937

(+) Maceió (AL), 07.05.1976

Publicado no livro: Pão de Açúcar, cem anos de poesia.


*****


PÃO DE AÇÚCAR


Dorme, cidade branca, silenciosa e triste.

Dum balcão de janela eu velo o seu dormir.

Nas tuas ermas ruas somente o pó existe,

O pó que o vendaval deixou no chão cair.


Dorme, cidade branca, do céu a lua assiste

O teu profundo sono num divino sorrir.

Só de silêncio e sonhos o teu viver consiste,

Sob um manto de estrelas trêmulas a luzir.


Assim, amortecida, tú guardas teus mistérios.

Teus jardins se parecem com vastos cemitérios

Por onde as brisas passam em brando sussurrar.


Aqui e ali tu tens um alto campanário,

Que dá maior relevo ao pálido cenário

Do teu calmo dormir em noite de luar.

____

Ben Gum, pseudônimo de José Mendes

Guimarães - Zequinha Guimarães.






PUBLICAÇÕES

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Pão de Açúcar, Cem Anos de Poesia