terça-feira, fevereiro 20

A PARÓQUIA DE PÃO DE AÇÚCAR – O QUINTO VIGÁRIO

 

Por Etevaldo Amorim

 

PE. JOSÉ SOARES PINTO

 


O Padre José Soares Pinto

O quinto vigário da Paróquia do Sagrado Coração de Jesus, de Pão de Açúcar, foi nomeado no dia 3 de outubro de 1910, tomando posse em 11 daquele mês e ano.

Era filho do Capitão José Soares Pinto e de Rosa Maria Dória; esta, filha de Bernardo Machado da Costa Dória e de Maria das Dores da Costa Dória.


Sendo sua mãe natural do povoado Mocambo, município de Porto da Folha, Estado de Sergipe, situado na margem oposta do rio São Francisco, e sendo comum naquele tempo as primíparas terem seus filhos sob os cuidados da mãe, nasceu a 8 de fevereiro de 1884 naquele pequeno lugarejo fronteiriço ao morro do Farias, acidente geográfico de Pão de Açúcar e referência natural dos que por ali navegavam.


Em 1902, ainda aos 18 anos, iniciou seus estudos no recém-criado Seminário de Alagoas, fundado pelo bispo D. Antônio Brandão, instalado a 15 de fevereiro daquele mesmo ano, funcionando provisoriamente na cidade de Alagoas (hoje Marechal Deodoro). O jornal penedense A Fé Cristã, em sua edição de 22 de novembro, noticia a presença, naquela cidade sanfranciscana, dos seminaristas daquela cidade que, oriundos do Seminário de Maceió, que para ali retornavam para passar férias, entre eles José Soares Pinto.[i]


No dia 10 de novembro de 1907, então com 23 anos, em Ato do bispo D. Antônio Brandão, o então Diácono recebeu o grau de Presbítero, juntamente com Júlio Albuquerque e Affonso Tojal.[ii]

Já ordenado, achava-se em Pão de Açúcar quando foi chamado para ocupar a Freguesia em Maceió, durante a ausência do Cônego Machado e de seu coadjutor,[iii] e já em 20 de maio de 1909 tomou posse como vigário da Freguesia de Nossa Senhora Mãe do Povo, em Jaraguá.[iv] Foi nomeado vigário de Pão de Açúcar e 13 de outubro de 1910.

No seu longo paroquiato, muitas foram as atividades religiosas, dentre as quais as santas missões, como estas que se realizaram de 30 de abril a 6 de maio de 1936, pregadas pelos capuchinhos Frei Antônio e Frei Damião. Foram presididas pelo Vigário Pe. Soares Pinto, que foi auxiliado pelos padres Jasson Souto e José Meira.[v] Foram realizadas ali 6.000 comunhões, 1.081 crismas, e algo em torno de 35 casamentos. Houve também imponente procissão fluvial no rio São Francisco.

A estas, por certo, sucederam-se outras, embora pouco noticiadas, talvez ofuscadas pela outra vocação do Padre, a política; esta sim de grande notoriedade.

O Padre Pinto, como era popularmente chamado, faleceu no Rio de Janeiro a 2 de fevereiro de 1939.


Falecia, longe de seus conterrâneos. O Monsenhor Achilles Mello, vigário de Madureira, seu primo, que o acolheu no Rio de Janeiro para onde fora em busca de tratamento, faz publicar no jornal A Noite, edição daquele mesmo dia 2 de fevereiro, uma nota de falecimento, convidando os amigos para o seu sepultamento, às 16:00 horas, no cemitério de Jacarepaguá, saindo o cortejo da sua residência, à rua Cândido Benício, 698.


Atores

O Padre Soares Pinto com um grupo de teatro amador de Pão de Açúcar, em 1916.
Fonte: Pão de Açúcar, História e Efemérides, Aldemar de Mendonça.


A morte o levou aos 55 anos, interrompendo uma trajetória de intensa atividade, tanto na prática religiosa como na atividade política. Difícil dizer em qual delas foi mais efetivo. Fiquemos, então, com esses breves traços sobre a vida dessa personalidade pão-de-açucarense, que foi um dos mais destacados clérigos de Alagoas, estando à frente da Paróquia do Sagrado Coração de Jesus durante 29 anos.


Sobre sua personalidade, aqui vai transcrito o que publicou o jornalista Dr. Adherbal de Arecippo, em crônica do jornal “Gazeta de Alagoas”, de 21 de novembro de 1954:


“Agrada-me, no instante em que escravo, recordar um sacerdote com quem tive contato durante todo o período da minha adolescência e começo da mocidade. E parece que estou a vê-lo e a ouvir a sua voz “cheia” e dicção bem clara, que hoje diríamos “voz microfônica”.

O padre José Soares Pinto dirigiu a freguesia de Pão de Açúcar, pelo espaço de 29 anos, consagrando-se aos misteres do sacerdócio católico mantendo uma linha de comportamento moral digna de encômios.

Era um servidor abnegado da missão que vinha desempenhado, desde 13 de outubro de 1910, para deixa-la a 27 de outubro de 1939, quando se transportou para o outro lado da vida.

Ainda recordo, como se fosse agora, os exercícios da Via-Sacra, as solenidades do “mês de maio” e as magníficas noitadas com que o Padre Yô-Yô rendia a mais profunda e respeitosa homenagem ao Padroeiro da cidade. Naquelas noites, a Imagem do Coração de Jesus como que se tornava humana e parecia abençoar a quantos se regozijavam com a sua festa. E em todas essas solenidades, ali me encontrava e me esforçava para conquistar o castiçal, de vela acesa, a fim de acompanhar a procissão, junto a charola. Era uma vida que dava o Padre Yô-Yô aquela oração: “Deus e Senhor nosso, protegei a vossa igreja”, pois a sua microfônica voz completava a imponência da prece, de par com a acústica do templo:

O meu saudoso pai, que em Pão de Açúcar pontificava no Juizado de Direito, não se cansava de elogiar a uma das grandes qualidades de que era dono o vigário daquela paróquia; a elevada atenção e piedade com que ele atendia aos moribundos que necessitavam e pediam a sua assistência espiritual, nos últimos instantes da existência humana.

Para qualquer que fosse o povoado, a qualquer hora do dia, da noite, pela madrugada adentro, o Padre Pinto, pertencente a uma das melhores famílias da cidade, mandava selar um dos seus cavalos e rumava em pleno verão ou debaixo de chuva, de moda a chegar ao lar do enfermo, para prepara-lo, convenientemente, a receber, com resignação o término da jornada terrena.

Era um trabalho que aquele sacerdote católico, falecido aos 55 anos, realizava com o mais puro sentimento cristão. E creio que só isso bastou para ele conseguir a sua entrada no reino do céu.

Em algumas das missas cantadas, foi o meu extremoso pai o ensaiador e dirigente da orquestra a convite daquele digno e saudoso padre. E lembro-me de uma delas, a qual foi cantada a “Missa do Coração de Jesus”, da autoria do querido genitor.

Quantas recordações:

Padre aos 23 anos. Os 32 que passou, consagrando-os á sua religião, serviu naturalmente de exemplo para quantas o sucederam nas freguesias de Jaraguá e Pão de Açúcar.

A última vez que o visitei, estava enfermo e se preparava para rumar ao sul, em busca da saúde, a qual já se encontrava praticamente perdida. E o fato é que ele não voltou mais.

Naquela visita recordamos o passado, as solenidades da igreja, o convite que me fizera para aprender a ajudar a missa. E, de tanto relembrar, ele chorou.

Abraçamo-nos, o padre Pinto viajou e não nos vimos mais.”

 

Sobrado do Barão de Piaçabuçu

O Padre Soares Pinto junto a diversas personalidades pão-de-açucarenses: Da esquerda para a direita: Juca Feitosa, Manoel Rego, Vieira Damasceno, Luiz Menezes da Silva Tavares, o homenageado Dr. Paes Barreto, Padre Pinto, João Domingos, Álvaro Machado, Ermínio Veríssimo e Manoel Santana. Na sacada do sobrado está D. Maria Cândida, neta do Major João Machado, Barão de Piaçabuçu.

No Livro nº 05, da Paróquia de Pão de Açúcar, contém uma nota de significativa importância. Ali, o vigário de Belo Monte, que substituía o titular da paróquia, anotou o fato contristador:


“Aos dois de fevereiro de mil, novecentos e trinta e nove, no Rio de Janeiro, em Madureira, Freguesia de São Luiz de Gonzaga, na residência do Monsenhor Achilles Mello, vigário da Paróquia, faleceu piedosamente, confortado com todos os sacramentos que a Santa Igreja concede in articulo mortis, o Revmº Vigário desta Paróquia de Pão de Açúcar, o sempre saudoso Pe. José Soares Pinto, que, aos seus últimos momentos, ainda pronunciou palavras de saudades para sua cara Paróquia. Ao seu funeral compareceram muitas pessoas, inclusive alguns Sacerdotes que o acompanharam até o Cemitério de Jacarepaguá, onde está sepultado em túmulo, e mais uma vez foi encomendada a sua alma. E para constar mandei fazer este assento que assino. O vigário encarregado, Pe. Jasson Souto”


Padre José Soares Pinto

Padre Pinto acompanha distribuição de víveres para os flagelados da enchente de 1919, em Pão de Açúcar.


Para saber mais sobre o Padre José Soares Pinto, acesse o Blog do Etevaldo ou o site História de Alagoas.



[i] A Fé Crhistã, 11 de janeiro de 1902, p. 3

[ii] GUTENBERG, 10 de novembro de 1907, p. 2.

[iii] GUTENBERG, 24 de janeiro de 1908

[iv] GUTENBERG, 20 de maio de 1909.

[v] Diário da Manhã, Recife-PE, 21 de maio de 1936.

quarta-feira, fevereiro 14

A PARÓQUIA DE PÃO DE AÇÚCAR – O TERCEIRO E O QUARTO VIGÁRIOS

Por Etevaldo Amorim

 

PE. JOSÉ DIONÍSIO DE MEDEIROS.

Após a saída do Padre Omena, seguiu-se uma interinidade no comando da Paróquia, assumindo inicialmente o Padre José Soares Pinto.

Entretanto, na edição do dia 5 de abril de 1909, o jornal O Monitor, de Penedo, anuncia a saída do Pe. Soares Pinto, que fora convidado a assumir a Paróquia de Jaraguá, o que efetivamente aconteceu em 20 de maio de 1909, quando tomou posse como vigário da Freguesia de Nossa Senhora Mãe do Povo.

Assim, a 24 de março de 1909, por Ato do Bispo Diocesano, Dom Antônio Brandão, o Padre José Medeiros foi indicado para a Paróquia do Santíssimo Coração de Jesus. Em 27 de março daquele ano, partia de Maceió para tomar posse da sua Paróquia, junto com o Padre Júlio Albuquerque, que assumiria Traipu.[i]

Monsenhor Medeiros foi teólogo, moralista, filólogo, escritor e polemista.  Perito em Direito Canônico e Língua Portuguesa[ii].

Natural de Traipu, onde rezou sua primeira missa a 8 de dezembro de 1902[iii], o Padre José Dionísio de Medeiros foi vigário da paróquia de Alagoas (atual Marechal Deodoro), de onde foi transferido para a de São Brás, tomando posse em 27 de agosto de 1905.[iv] Foi também Vigário na paróquia Nossa Senhora da Piedade, em Anadia (1917-26), e de Penedo.

 

PE. JÚLIO FERREIRA DE ALBUQUERQUE


O Pe. Júlio Albuquerque

Tendo chegado juntos a suas respectivas paróquias (Pe. Júlio, em Traipu e Pe. Medeiros, em Pão de Açúcar), ao que tudo indica solicitaram permuta, já que este último era natural de Traipu. O fato é que, em pouco tempo, já estava o Padre Júlio Albuquerque à frente da Paróquia de Pão de Açúcar.

Este que pode ser considerado o quarto vigário, nasceu em Maceió a 26 de setembro de 1878. Filho de Honório Teixeira de Albuquerque e Idelfonsa Ferreira de Albuquerque, foi batizado em 3 de fevereiro do ano seguinte pelo Padre Pedro de São Bernardo Peixoto.

Seu pai, um pequeno comerciante, tinha uma mercearia na antiga Rua do Açougue (atual Moreira Lima), esquina com a Rua Boa Vista, onde por muitos anos funcionou a “Casa das Linhas”.[v] Tendo ficado viúvo, pelo falecimento de dona Idelfonsa, em 6 de março de 1905, ele teve um segundo casamento com Mariana Ferreira de Albuquerque, que faleceu em 1921.

***      ***

Iniciou seus estudos no Colégio Souza Lobo, estabelecimento que funcionava inicialmente em São Luiz do Quitunde, e que mudou para Maceió em 6 de abril de 1886, mantido pelo Acadêmico Alfredo Alves de Souza Lobo. Depois, foi para o Liceu Alagoano.

No Seminário de Belém (PA), terminou o curso secundário. Tendo ali entrado para se ordenar padre, por motivos econômicos se afasta do seminário, fazendo concurso para os Correios, para onde é nomeado. Em 1899, está efetivamente trabalhando nos Correios em Belém-PA.[vi] Em seguida, foi para o Seminário de Olinda para depois concluir no de Alagoas (atual Marechal Deodoro).

***   ***

Em 1900, o jovem Júlio já dava mostras da sua inclinação para as letras, ele que se tornou um dos maiores intelectuais do clero alagoano. Integrou, por exemplo, a diretoria da Sociedade Literária Tavares Bastos, como 1º Secretário.[vii] Essa agremiação publicava O Madrigal, jornal que tinha como Redator Principal Virgílio Guedes e Benedito Fróes como Diretor Responsável.

1.      A INICIAÇÃO SACERDOTAL.

No dia 1º de novembro de 1907, durante as celebrações do Mês do Rosário, o menorista[viii] Júlio recebeu, do Bispo Diocesano, a ordem do Subdiaconato, juntamente com Afonso Tojal e José Soares Pinto.[ix]

Ordenou-se em 17 de novembro de 1907, rezando a sua primeira missa na Igreja dos Martírios, em Maceió. O jornal Gutenberg, de 19 de novembro de 1907, registra:

“Celebrou-se efetivamente domingo, no seu elegante templo, a solenidade do Senhor Bom Jesus dos Martírios, cujo septenário tivera começo no dia 10 do corrente.

Às 10 horas da manhã teve lugar a missa solene, celebrada pelo novel sacerdote Júlio Ferreira de Albuquerque, que cantou a sua primeira missa.

A missa revestiu-se de toda solenidade, servindo nela de diácono o reverendo padre José Tojal, de subdiácono o Reverendo José Pinto; de presbítero assistente, monsenhor Silva Lessa, e por mestre de cerimônia o padre José dos Anjos, coadjutor da Paróquia de Nossa Senhora dos Prazeres.

Ao evangelho, ocupou a tribuna sagrada o talentoso orador sacro Cônego João Machado, produzindo um sermão, análogo ao ato, tão eloquente e brilhante que julgamos o mais substancioso de tantos quantos sua reverendíssima tem pronunciado nesta paróquia, depois que assumiu as funções de cura da Sé.

...   ...

A orquestra, sob a regência do Sr. Professor João Ulysses[x], executou com maestria a missa Santa Maria, cantando ao pregador a Ave Maria o nosso confrade Rodrigues de Melo, e ao ofertório a Salve Regina o nosso colega coronel Liberato Mitchell, saindo-se ambos perfeitamente”.

No ano seguinte, iniciava como Vigário Coadjutor na Paróquia de Anadia, para depois tomar posse em Pão de Açúcar, no dia 2 de maio de 1909.

 

Maceió antiga

A igreja do Bom Jesus dos Martírios, onde o Pe. Júlio rezou a primeira missa.

2.      MELHORAMENTOS NA MATRIZ.

Durante o seu paroquiato, foi instalado o relógio da Matriz, empreendimento no qual se havia empenhado o Pe. Omena, recolhendo donativos. Ao Pe. Júlio Albuquerque coube dar prosseguimento a esse melhoramento, instalado no dia 23 de dezembro de 1909.

O jornal pão-de-açucarense A IDEIA, que tinha como Gerente Álvaro Machado e como Redator-Chefe Hypólito de Souza, noticia o fato com grande destaque:

“Damos parabéns aos filhos da nossa futurosa cidade de Pão de Açúcar por mais um melhoramento, com que foi dotada a igreja Matriz desta paróquia.

Desde quinta-feira que já está funcionando, na torre do lado sul, o Malakoff há tanto tempo esperado.

Construído pelo hábil mecânico Sr. Paulino Wanderley, da cidade de Bom Conselho, é isto motivo de nos ufanarmos, porque já não se faz mister o orgulho do estrangeiro para trabalhos como este, pois o nosso solo, na sua uberdade espantosa, também produz inteligências superiores, não só na política e na literatura, mas também na indústria e na arte.

Ideia levantada pelo nosso ex-vigário Pe. José Omena, de parceria com alguns amigos que muito trabalharam para angariar alguns donativos, somente hoje teve a sua realização, apesar da descrença de alguns, malgrado a malevolência de outros.

Teve, entretanto, o nosso pároco atual que recorrer à benevolência da população para completar a importância de 800$000, que foi o total das despesas com o maquinismo, sino, reparos feitos na torre e transporte dos materiais do Bom Conselho até aqui, pois o arrecadado pela antiga comissão atingiu somente a cifra de 500$000.

Resta-nos agora cuidar de sua conservação, para que tenhamos sempre o utilíssimo auxílio de que tanto necessitávamos para regularizar os nossos negócios, e mostrarmos aos vindouros que trabalhamos também para o progresso material de nosso pequeno torrão; e agradecer ao Reverendíssimo Pe. Júlio de Albuquerque, nosso zeloso pároco, o desvelo e a solicitude com que levou a efeito tão momentoso melhoramento”.

Quando o jornal se refere ao “Malakoff há muito tempo esperado”, dá a impressão de estar falando da marca do relógio. Ocorre que não há marca de relógio com esse nome.  O dito “Malakoff” talvez seja uma referência ao relógio da Torre Malakoff, existente no Recife.

Essa Torre teve sua construção iniciada em 1853, como parte do então chamado Portão Monumental do arsenal da Marinha, na proximidade do Porto do Recife.

Na época da sua construção, a imprensa pernambucana veiculava muitas notícias a respeito da Guerra da Criméia, enfatizando a resistência em defesa da colina e da torre fortificada de Malakoff. Isso despertou grande interesse no Recife e em todo o Estado de Pernambuco, ao ponto de a própria população batizar a torre com o nome “Malakoff”.



A Matriz de Pão de Açúcar e o relógio em destaque.

Relógio Malakoff
A torre e o relógio "Malakoff" no Recife.


3.      EXÉQUIAS DE DOM ANTÔNIO BRANDÃO.

Na missa dominical do dia 21 de março de 1910, pronunciou uma eloquente “oração fúnebre” (assim intitulada quando da sua publicação pelo jornal A IDÉIA), em que enaltece as suas qualidades:

“D. Antônio Brandão possuía, no seu caráter adamantino, uma força de vontade superior. Tinha, nos atos de justiça, sentenças de Salomão. Não via obstáculo quando se tratava de procurar o bem da religião, a cujo serviço dedicou-se, ininterruptamente, dando-lhe o melhor de sua robustez moral e as primícias de sua mocidade.”

“E hoje que, cheios de luto, assistimos a esta última homenagem que a religião nos inspira; hoje que juntamos a tristeza de nossas lágrimas à funérea luz desses círios, que também lacrimejando ornamentam este monumento de morte enviemos, do fundo do nosso coração, à porta do tabernáculo da Divindade, uma prece carinhosa e cheia de fervor, para que breve chegue ao trono de Jesus Cristo a alma imaculada do primeiro bispo de Alagoas e, das mãos de Deus, receba ele a palma da imortalidade e da eterna glória.”

4.      A DESPEDIDA.

 Deixando Pão de Açúcar, seguiu o Pe. Júlio para ser Coadjutor na Paróquia de Maceió. Nas páginas do jornal A IDEIA (edição de 26 de agosto de 1910), despede-se do povo pão-de-açucarense:

“Aos meus paroquianos.

Tendo aceitado a nomeação de coadjutor da Paróquia de Maceió, e renunciado ao cargo de pároco de Pão de Açúcar, e não sendo possível despedir-me de todos os meus paroquianos, venho dar o testemunho da minha eterna gratidão a todos que souberam distinguir-me dispensando-me o óbolo carinhoso de sua consideração e de sua estima.

Guardarei eternamente no mais fundo do peito a doce recordação dos dias que passei na convivência amável dos filhos de Pão de Açúcar, terra hospitaleira ad initio fadada para os mais elevados ideais que só sabem conceber os que beberam a luz da vida debaixo destes céus eternamente azuis.

 Envio, portanto, daqui o meu último adeus, o derradeiro eco da minha despedida a todos os meus paroquianos, especialmente aos que me dedicaram a menor partícula de sincera amizade, pedindo a Deus para recompensá-los com uma fagulha ardente da graça imaculada que é a maior proteção da Divindade ao homem que moireja na terra.

 Nesta cidade, pois, guardarei as ordens de todos, dentro dos limites do meu diminuto prestígio, curtindo as minhas roxas saudades, já que faz-se mister cumprir os menores desejos dos superiores, desde quando são os legítimos representantes de Deus.

 Padre Júlio Ferreira de Albuquerque, Coadjutor de Maceió.”

 

Foi ainda vigário em Traipu, Murici e São Miguel dos Campos, a partir de 1922, onde permanece por 35 anos.

Segundo o jornal pernambucano Diário da Manhã, de 31 de agosto de 1938, o padre Júlio celebrou, na matriz de Nossa Senhora do Ó, uma missa pela alma de Virgulino Ferreira da Silva, o Lampião, que fora morto fazia um mês.

O jornal, como que admirado de ter o famigerado cangaceiro merecido as orações do sacerdote e dos sessenta fiéis que o assistiam, informa que, “em carta a pessoa de sua amizade, o vigário de São Miguel afirmou que celebrou aqueles atos de piedade cristã por espírito de religião”. “Foi um ato de caridade que Deus me inspirou”, disse.

Cônego Honorário do Cabido Metropolitano; Sócio da Academia Recifense de Letras e do Centro Cultural Mineiro; Sócio Correspondente do Instituto Histórico e Geográfico de Alagoas e Sócio Fundador da Academia Alagoana de Letras.

Em sua homenagem, há uma praça com seu nome em São Miguel dos Campos.

O Padre Júlio faleceu a 3 de setembro de 1963.

 


O Padre Júlio Ferreira de Albuquerque


***   ***

NOTA:

Caro leitor,

Deste Blog, que tem como tema “HISTÓRIA E LITERATURA”, constam artigos repletos de informações históricas relevantes. Essas postagens são o resultado de muita pesquisa, em geral com farta documentação e dotadas da competente referência bibliográfica. Por esta razão, solicitamos que, caso sejam do seu interesse para utilização em qualquer trabalho, que delas faça uso tirando o maior proveito possível, mas fazendo também o necessário registro de autoria e a citação das referências. Isso é correto e justo.



[i] GUTENBERG, 28 de março de 1909.

[ii]   Fonte: ABC das Alagoas.

[iii]   A Fé Christã, de 6 de dezembro de 1902.

[iv]  A Fé Christã, Penedo, 2 de setembro de 1905.

[v] LIMA JUNIOR, Félix. Tipos populares de Maceió. Revista Mocidade, nº 18 – Maio e Junho de 1949.

[vi] República, Belém-PA, 3 de junho de 1899.

[vii] ORGE, Maceió, 25 de janeiro de 1900.

[viii] Clérigo pertencente a uma das quatro ordens menores da Igreja católica. Ordens Menores, as que não consagram de modo definitivo que as recebe: ostiário, leitor, exorcista e acólito. Ordens Maiores, as que consagram de modo definitivo ao serviço de Deus: subdiaconato, diaconato, presbiterado e episcopado.

[ix] Gutenberg, Maceió-AL, 31 de outubro de 1907.

[x] João Ulysses Moreira. (São Miguel dos Campos - AL 16/06/1882 – Maceió - AL 15/07/1955). Músico, professor, maestro, trompetista. Foi aluno do professor Benedito Silva na Banda de Aprendizes Marinheiros em Maceió. Aos 12 anos apresentou-se em praça pública, sua primeira composição, o dobrado Pugnadores da Época. Aos 18 anos, já era professor de Harmonia no Liceu de Artes e Ofícios. Dirigiu as orquestras do Cine Odeon e do Cine Floriano. Fundador da Tuna Alagoana e do Clube Atheneida. Diretor de concertos do Círculo Musical. Compositor de inspiração regional deixou vários dobrados para as Bandas de Marechal Deodoro, que muitas vezes regeu. Escreveu missas, porém suas obras não estão difundidas. Como professor de Teoria Musical e Harmonia, orientou diversos jovens músicos, entre eles Joel Belo Soares. Fonte: ABC das Alagoas. Casou-se, em 1907, com Maria Carolina Ferreira Pinto (filha de Carolina Lopes Ferreira Pinto). 

quarta-feira, fevereiro 7

A PARÓQUIA DE PÃO DE AÇÚCAR – O SEGUNDO VIGÁRIO

Por Etevaldo Amorim

 

PE. JOSÉ CASTILHO DE OMENA.

 

O Padre Omena. Foto: arquivo de Aldemar de Mendonça.


O segundo vigário da Freguesia do Sagrado Coração de Jesus, de Pão de Açúcar, nasceu em Alagoas (atual Marechal Deodoro), a 17 de março de 1882, onde foi batizado na Igreja de Nossa Senhora da Conceição, a 28 de maio de 1882, pelo então vigário Antônio Manoel de Castilho Brandão.

Com o nome de batismo de José Wenceslau de Omena[i], o filho do professor Miguel Wenceslau de Omena e Eugênia Maria de Omena tinha por avós paternos: Carlos José de Omena e Ana Francisca de Leão; e, maternos: Manoel Fernandes de Medeiros e Mariana Francisca de Borges. Seu pai, além de professor, foi também membro do Conselho Municipal de Maceió, pelo Partido Democrata.[ii]

Eram seus irmãos: o Dr. Miguel Omena, advogado e militante político na era Maltina, assassinado em Ponta Grossa-PR no dia 21 de agosto de 1911 (para saber mais clique aqui); o padre João Edmundo de Omena, que faleceu em 1891 quando era vigário de São Lourenço da Mata, em Pernambuco; Olympia, que faleceu em 1913; Pedro Venceslau de Omena, major-médico do Exército, falecido em 11 de fevereiro de 1920; Ana Amélia, casada com o Major Benigno Mello, que foi Administrador do Mercado Público de Maceió; Maria Pastora; Maria Emília, casada com o comerciante português Manuel da Silva Nogueira; Eugênia de Omena Filha; Deomídia; e Antônio Venceslau de Omena, advogado formado pela Faculdade do Recife, que também morreu assassinado em Jaraguá, na noite de 13 de março de 1888, por Alfredo Torres, filho de Justino da Silva Torres, por motivos de ciúme.

Igreja Matriz de N. S. da Conceição, Marechal Deodoro-AL,
onde foi batizado o menino José Omena.
Foto: https://www.historiadealagoas.com.br/marechal-deodoro-a-antiga-vila-da-madalena-do-sumauma.html


***   ***

 

Ordenado pelo bispo D. Antônio Brandão em 1904, foi nomeado para a Paróquia de Pão de Açúcar em 30 de abril de 1906, tomando posse a 3 de maio do mesmo ano.

Em 5 de maio, o jornal A Fé Christã, já informava a sua passagem por Penedo, demandando Pão de Açúcar, a fim de ser investido no seu cargo, assinalando que se tratava de “um sacerdote moço, inteligente e piedoso”, que há pouco havia atuado na paróquia de Jaraguá, havendo-se muito bem.

Uma das primeiras atividades do novo pároco foi participar da Festa de Santo Antônio, em Jacaré, no dia 13 de junho de 1906, uma quarta-feira, onde assistiu monsenhor Freitas em missa cantada, cujo sermão foi desenvolvido pelo Padre Antônio Soares de Mello, pároco de Belo Monte.[iii]

Em seguida, durante a festa do Coração de Jesus, foi instalado o Apostolado da Oração, precisamente a 22 de junho de 1906, com a presença do bispo de Alagoas, Dom Antônio Brandão, que celebrou o primeiro pontifical, ocupando a tribuna um dos maiores oradores sacros do nosso Estado, o Cônego João Machado de Mello. Entre as nove fundadoras destacavam-se: Ana Rosa Souto Canuto, Presidente; Maria Amélia Fialho[iv], Secretária; e Maria Oliva de Mello Pinto[v], Tesoureira.

No dia 28 de novembro daquele mesmo ano, em celebração bastante concorrida, o Pe. Omena recebeu o Pe. José dos Anjos, que ali rezou a sua primeira missa.[vi]

A 21 de janeiro de 1907, o vigário de Pão de Açúcar participa das comemorações do primeiro aniversário de instalação do Apostolado do S. Coração de Jesus, em São Brás,[vii] congregação fundada pelo vigário Pe. José Dionísio de Medeiros. Na ocasião, o Pe. Omena oficiou o sermão em missa solene.

O dinamismo que marcou a sua passagem foi observado pela imprensa da época. O jornal A Fé Christã, de Penedo, em edição de 16 de junho de 1906, assim se manifestou:

 

“PÃO DE AÇÚCAR. Essa localidade está passando por uma transformação digna de nota.

O espírito religioso que ali estava arrefecido há tantos anos, agora com a chegada do novo pároco, o Padre José Omena, que há sido vantajosamente auxiliado pela bondade e zelo do Monsenhor José de Freitas. Tem tomado um impulso admirável.

A importante cidade, uma das mais importantes da margem do S. Francisco, privada há vinte e tantos anos do exercício do Mês Mariano, teve agora a felicidade de ver reencetado o belo e universal tributo às glórias de Maria Santíssima.

Os dois ilustres sacerdotes, desde que ali chegaram, têm movimentado as práticas religiosas e vivem diariamente entregues aos trabalhos do confessionário. No dia da festa de maio compareceu ao banquete eucarístico o elevado e significativo número de duzentas pessoas entre homens, mulheres e crianças!

Informa-nos que foi um ato deslumbrante e edificante.

No dia 22, haverá a festa do Coração de Jesus, orago da freguesia. Há indizível animação e regozijo.

O povo de Pão de Açúcar, identificado com o novo estado de coisas, exulta de contentamento pela nova era de felicidade que se lhes depara.

Nós também de coração nos regozijamos com o progresso religioso de Pão de Açúcar, essa importante localidade pela qual temos grande afeição.”

 

Da mesma forma, quando da sua retirada da Paróquia, recebeu o Pe. Omena essa significativa referência no jornal O Monitor, editado em Penedo, de propriedade do professor e historiador Moreno Brandão, em 25 de janeiro de 1909:

 

“Recebemos e agradecemos uma brilhante polianteia[viii], na qual são dignamente celebrados os méritos do piedoso ex-pároco de Pão de Açúcar, Pe. José Castilho de Omena, a quem deve a religião naquela freguesia os mais belos exemplos de suave bondade evangélica.

Efetivamente, a passagem do jovem e virtuoso sacerdote pela vigararia da bela cidade sanfranciscana ficará eternamente assinalada por atos imorredouros nas crônicas locais, não sendo, portanto, de estranhar que os sentimentos dos pão-de-açucarenses se expressassem para com o simpático e bondoso cura de uma forma tão eloquente e justa.

Estivemos naquela terra, depois de prolongada ausência, e pudemos apreciar, não só os benefícios feitos à matriz completamente remodelada, como também o muito acatamento que de todos merecia o Pe. Castilho de Omena.

Subscrevemos, portanto, cordialmente todos os conceitos da bem escrita e bem impressa polianteia.”

 

Coube a ele, ainda, importantes obras de remodelação da Matriz.[ix]

O segundo vigário esteva à frente da Paróquia até 4 de janeiro de 1909, estabelecendo entre os seus paroquianos elos de profunda amizade, a exemplo do Capitão Manoel Rego, em cujo álbum encontramos uma foto, já esmaecida, e que nos foi cedida pela sua neta Juraci Rego, a quem, mais uma vez agradecemos.

Quando foi removido para uma paróquia na Bania, assumiu interinamente o Pe. José Soares Pinto, cuja provisão foi lida em 17 de janeiro daquele ano.

Naquele Estado, já no ano seguinte, já era vigário da paróquia do “Porto de Santa Maria” (atual Santa Maria da Vitória).

Entre 1911 e 1917, vigário da paróquia de Santana dos Brejos (atual Santana).

Entre 1917 e 1926, vigário da paróquia de São José do Riacho da Casa Nova (atual Casa Nova), da diocese de Barra do Rio Grande.

Em 1931, era vigário da catedral do Bom Jesus, na cidade de Barra do Rio Grande, atual Barra.

Estando na Barra, nos primeiros dias do mês de dezembro de 1929, como Secretário-Geral do Arcebispado e Fiscal do governo no Colégio Santa Eufrásia, o Padre Omena comemorou suas bodas de prata, em “grande banquete... que ofereceu aos seus amigos e autoridades”, conforme notícia do jornal A Noite, de 10 de dezembro de 1929.

Em 1917, já como Cônego, era capelão da Igreja de São José, da Companhia União Mercantil, em Fernão Velho.

Em 1932, era vigário da Paróquia de Bebedouro, em Maceió.

Em sua homenagem, há duas ruas com seu nome em Maceió: uma no bairro do Barro Duro e outra no Distrito de Fernão Velho. Empresta seu nome também a um Centro de Educação Especial, em Viçosa.

Depois de cumprir sua gloriosa jornada, plenamente reconhecida por todos nos lugares por onde passou, ali faleceu em 29 de setembro de 1952, sendo sepultado no cemitério Santíssimo Sacramento, onde está o mausoléu de religiosos.[x]


O Pe. José Omena. Foto: Revista Vida Doméstica.



Diocese da Barra-Bahia

O túmulo do Pe. José Omena no cemitério Santíssimo
Sacramento, na cidade da Barra-Bahia.


***   ***   ***

 

Durante esse paroquiato, foi Coadjutor o Pe. José Moreira Pimentel, que nasceu a 11 de novembro de 1881, em Viçosa-AL, onde foi batizado no dia 11 de dezembro do mesmo ano.

Era filho de Nuno Moreira Pimentel e Maria Rosa dos Santos Pimentel. Seus avós paternos eram: Nuno Moreira Pimentel e Maria Rosa Chaves Pimentel; e, maternos: José de Paiva Coelho e Maria de Sá Santa Rosa.

***   ***

 

NOTA:

 

Caro leitor,

Deste Blog, que tem como tema “HISTÓRIA E LITERATURA”, constam artigos repletos de informações históricas relevantes. Essas postagens são o resultado de muita pesquisa, em geral com farta documentação e dotadas da competente referência bibliográfica. Por esta razão, solicitamos que, caso sejam do seu interesse para utilização em qualquer trabalho, que delas faça uso tirando o maior proveito possível, mas fazendo também o necessário registro de autoria e a citação das referências. Isso é correto e justo.

 



[i] O nome “Castilho” talvez tenha sido adotado após a sua ordenação por Dom Antônio Manoel de CASTILHO Brandão.

[ii] Cruzeiro do Norte, Maceió-AL, 28 de outubro de 1892.

[iii] A Fé Christã, Penedo, 23 de junho de 1906.

[iv] Maria Amélia Gonçalves Fialho, filha de José Targino Gonçalves Fialho e Maria Rosa de Mello. Nasceu no Recife em 1874 e faleceu no Rio de Janeiro a 9 de dezembro de 1968. Foi casada com João Gomes de Carvalho Mello, com que teve dez filhos, entre estes: João Fialho de Mello e Durval Fialho de Mello.

[v] Filha do Major Achilles Balbino de Leles Mello e de Maria Idalina de Souza, e esposa do Cap. Serafim Soares Pinto.

[vi] A Fé Christã, Penedo-AL, 1º de dezembro de 1906.

[vii]  A Fé Christão, Penedo-AL, 26 de janeiro de 1907.

[viii] Antologia de obras de um homem ilustre, organizada em sua homenagem. Antologia referente a algum evento notável.

[ix] O Monitor, Penedo, 25 de janeiro de 1909.

[x] OLIVEIRA, Paulo. A VELHA NECRÓPOLE DA BARRA. MEUS SERTÕES, 27 de setembro de 2017. Disponível em https://meussertoes.com.br/2017/09/27/a-velha-necropole-de-barra/.

  

A POESIA DE PÃO DE AÇÚCAR



PÃO DE AÇÚCAR


Marcus Vinícius*


Meu mundo bom

De mandacarus

E Xique-xiques;

Minha distante carícia

Onde o São Francisco

Provoca sempre

Uma mensagem de saudade.


Jaciobá,

De Manoel Rego, a exponência;

De Bráulio Cavalcante, o mártir;

De Nezinho (o Cego), a música.


Jaciobá,

Da poesia romântica

De Vinícius Ligianus;

Da parnasiana de Bem Gum.


Jaciobá,

Das regências dos maestros

Abílio e Nozinho.


Pão de Açúcar,

Vejo o exagero do violão

De Adail Simas;

Vejo acordes tão belos

De Paulo Alves e Zequinha.

O cavaquinho harmonioso

De João de Santa,

Que beleza!

O pandeiro inquieto

De Zé Negão

Naquele rítmo de extasiar;

Saudade infinita

De Agobar Feitosa

(não é bom lembrar...)


Pão de Açúcar

Dos emigrantes

Roberto Alvim,

Eraldo Lacet,

Zé Amaral...

Verdadeiros jaciobenses.

E mais:

As peixadas de Evenus Luz,

Aquele que tem a “estrela”

Sem conhecê-la.


Pão de Açúcar

Dos que saíram:

Zaluar Santana,

Américo Castro,

Darras Nóia,

Manoel Passinha.


Pão de Açúcar

Dos que ficaram:

Luizinho Machado

(a educação personificada)

E João Lisboa

(do Cristo Redentor)

A grandiosa jóia.


Pão de Açúcar,

Meu mundo distante

De Cáctus

E águas santas.

______________

Marcus Vinícius Maciel Mendonça(Ícaro)

(*) Pão de Açúcar(AL), 14.02.1937

(+) Maceió (AL), 07.05.1976

Publicado no livro: Pão de Açúcar, cem anos de poesia.


*****


PÃO DE AÇÚCAR


Dorme, cidade branca, silenciosa e triste.

Dum balcão de janela eu velo o seu dormir.

Nas tuas ermas ruas somente o pó existe,

O pó que o vendaval deixou no chão cair.


Dorme, cidade branca, do céu a lua assiste

O teu profundo sono num divino sorrir.

Só de silêncio e sonhos o teu viver consiste,

Sob um manto de estrelas trêmulas a luzir.


Assim, amortecida, tú guardas teus mistérios.

Teus jardins se parecem com vastos cemitérios

Por onde as brisas passam em brando sussurrar.


Aqui e ali tu tens um alto campanário,

Que dá maior relevo ao pálido cenário

Do teu calmo dormir em noite de luar.

____

Ben Gum, pseudônimo de José Mendes

Guimarães - Zequinha Guimarães.






PUBLICAÇÕES

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Pão de Açúcar, Cem Anos de Poesia