Por Etevaldo Amorim
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| Pedro Lúcio Rocha. Foto: Câmara Municipal de Pão de Açúcar |
No último dia 21 de maio, Pão de Açúcar perdeu uma de suas
personalidades mais notáveis: Pedro Lúcio Rocha. Figura singular, ele
marcou sua passagem pela nossa comunidade como um propulsor do desenvolvimento
sociocultural, político e associativo.
Tal singularidade se justifica pelas suas indiscutíveis
qualidades de homem público (ativo, dinâmico, empreendedor), mas também pelas
suas características pessoais. Pedro foi, pode-se dizer, um autodidata. Entretanto,
a limitada instrução formal era suprida por uma incomparável capacidade de formular
o seu pensamento. Sua oratória vibrante, de pretensão erudita, o tornava único
e inigualável, embora muitos pudessem imitá-lo na forma e no tom. Era comum ouvi-lo
evocar a força de Castro Alves, ao proclamar que “a praça é do povo como o
céu é do condor”; ou enaltecer Pão de Açúcar como “a terra de Bráulio
Cavalcante, de Jovino da Luz e de Moreno Brandão”. Some-se a isso o seu formidável
poder de persuasão e a perseverança em tudo quanto dizia respeito ao exercício
da sua vocação.
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Pedro nasceu no povoado
Agreste (então município de Pão de Açúcar; hoje pertencente a Monteirópolis), no
dia 15 de junho de 1938, na humilde morada do casal Lúcio Rocha e Maria do Céu.
Deixou o pequenino rincão sertanejo e foi para o Rio de
Janeiro. Serviu ao Exército, provavelmente no final da década de 1950. Nessa
ocasião, como parte de suas atribuições de soldado, teria, supostamente, "carregado
a mala de Fidel Castro.” De fato, o emblemático líder da revolução cubana,
recém vitoriosa em 1959, esteve em visita ao Brasil naquele ano.
Voltando a Pão de Açúcar, aproximou-se dos homens influentes
da época: Augusto Machado e Elísio Maia. Atraído pela política, candidatou-se a
Vereador nas Eleições de 1965. Eleito, cumpriu o mandato até 1969. Neste mesmo ano,
por meio de Projeto de sua autoria, foram instituídos os
Símbolos Oficiais do Município (hino, brasão e bandeira), frutos da colaboração
dos amigos Maestro Passinha (na música) e do Padre José Nascimento (na letra),
sendo aprovados pela Lei Municipal nº 394.
Foi novamente eleito no
pleito de 1969, para a Legislatura 1970-1972. Já nas Eleições de 1972, ficou na
primeira suplência. Acabou assumindo o mandato em face do trágico falecimento
do vereador Germínio de Araújo Costa, em 21 de abril de 1979, permanecendo até 1982.
Em 1988, mesmo sem deter mandato eletivo, Pedro Lúcio destacou-se na
articulação que buscava a ampliação de uma frente de oposição no município.
Esta união consolidou-se na 'Coligação Muda Pão de Açúcar' por meio do partido
que fundara e presidia, o PMB (Partido Municipalista Brasileiro), que, ao lado
do PCdoB e do PSB, formou a chapa Cacalo/Jorge Dantas – prefeito e
vice-prefeito, respectivamente
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ASSOCIATIVISMO
Concomitante ao exercício do
mandato de vereador, Pedro
iniciou-se no caminho do sindicalismo. Em 3 de janeiro de 1972, foi fundador e
primeiro Presidente do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Pão de Açúcar,
cuja sede ficava no número 225 da Rua Pe. José Soares Pinto (antiga Rua
Augusta). Para isso teve a colaboração do Padre Heliomar Queiróz Mafra.
Como era comum no período, a entidade operou sob a tutela do Ministério
do Trabalho durante os regimes ditatoriais. Contudo, a liderança de Pedro Lúcio
foi, aos poucos, evoluindo para uma defesa mais autêntica e combativa das
causas dos trabalhadores rurais, sobretudo após o advento da Nova República,
que pôs fim a 21 anos de regime militar.
A evidência dessa nova postura confirmou-se em abril de 1987[i],
quando o ministro Dante de Oliveira assinou a portaria que incluiu Pedro Lúcio
na Comissão Agrária de Alagoas. Ele passou a integrar o órgão como porta-voz da
categoria, compondo a representação ao lado de José Caetano da Silva e José de
Souza Neto.
Ainda no campo do associativismo, Pedro Lúcio fundou e foi o primeiro
presidente da Federação Intermunicipal das Entidades Comunitárias do Estado de
Alagoas (FIECIA) e teve papel fundamental na organização de movimentos
populares no semiárido alagoano.
Em 2001, passou a ser membro do Comitê da Bacia Hidrográfica do Rio São
Francisco (CBHSF), atuando ativamente na proteção do "Velho Chico".
Pedro Lúcio foi também um hábil articulador e promotor social,
organizando palestras e festivais de cultura, atraindo para Pão de Açúcar
personalidades destacadas da sociedade alagoana, propiciando aos locais -
sobretudo aos jovens - a oportunidade de acesso à cultura e ao saber.
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COMUNICAÇÃO
No mesmo ano em que fundou o Sindicato, precisamente em 16 de setembro de 1972, Pedro criou o Jornal A PÁTRIA. Era um jornalzinho pertencente à Associação Pão-de-açucarense de Jornalismo e Comunicação, e impresso nas oficinas do Colégio São Vicente. Ali estavam Massilon Ferreira da Silva, Álvaro Antônio Melo Machado, Érico Melo de Abreu, Erivaldo Caldeira de Souza (Guri) e Etevaldo Alves Amorim. Depois chegaram outros jovens que também tiveram oportunidade de despertar para as vocações literárias: José Carlos Lima, Gilvan Abreu, Yvan Silva Fialho e Helio Silva Fialho, Darival Lira.
Também nessa época, ele ativou o serviço de alto-falantes e a emissora de rádio
Antena Municipal de Pão de Açúcar, “dando, assim, oportunidade para alguns
membros da juventude pão-de-açucarense fazerem trabalhos de locução e
sonoplastia, incentivando-os a ingressar no mundo da comunicação como
radialistas e jornalistas.” – diz o jornalista Helio Fialho em discurso
pronunciado em homenagem aos seus 80 anos.
HOMENAGENS
Como reflexo da sua intensa atuação, Pedro Lúcio foi alvo de diversas
homenagens. Entre as mais destacadas:
A Comenda do Mérito Educativo Alagoano, honraria destinada a
reconhecer e homenagear educadores e personalidades que tenham prestado
relevantes serviços à Educação no Estado de Alagoas, concedida em 17 de
dezembro de 2008, no Auditório do Palácio República dos Palmares, por ocasião
do 46º aniversário do Conselho Estadual de Educação.
Comenda 200 Anos de Alagoas, oferecida pela Câmara Municipal de Pão de
Açúcar no dia 22 de setembro de 2017, por ocasião das comemorações alusivas aos
200 anos de emancipação política do nosso Estado.
Pedro Lúcio Rocha foi Sócio honorário da Academia de Letras de Pão de
Açúcar (ALEPA), fundada em 22 de setembro de 2017, e foi homenageado com um
livro de cordel intitulado "Pedro Lúcio Rocha - Um homem à frente do
seu tempo", do poeta e escritor Giovanni Fialho.
Outra singela, mas significativa homenagem, lhe foi prestada na noite do
dia 15 de novembro de 2014, no Bar do Madureira, em Pão de Açúcar. Alguns dos
amigos com os quais conviveu em suas lides sindicais e jornalísticas — Massilon
Silva, Érico e Gilvan Abreu, Lindalvo Costa, Etevaldo Amorim e Reginaldo Lira —
o brindaram com uma placa contendo os dizeres: “PEDRO LÚCIO ROCHA –
CONSTRUTOR DE SONHOS. Homenagem de seus amigos por sua coragem, trabalho e sabedoria
na luta."
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| Flagrante da homenagem a Pedro Lúcio em 15 de novembro de 2014. |
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| Pedro Lúcio recebendo a placa em sua homenagem. |
Aliás, por ocasião das tratativas para a homenagem, foi criado um Grupo
de WhatsApp, idealizado por Érico Abreu, que perdura até hoje, do qual
participam: Érico, Gilvan, Schumann, Massilon, Júlio César, Etevaldo, Álvaro
Antônio, Lindalvo e Edberto.
E para não ficar sozinho nesta tentativa de dizer o quanto Pedro Lúcio
foi importante para Pão de Açúcar, recorro a alguns depoimentos de membros
desse Grupo.
Júlio César Lima Dias relata
que, buscando melhorias para o seu povoado (Ilha do Ferro), no caso um simples abrigo para a TV
Pública, buscou o apoio de Pedro Lúcio, então dirigente da FIECIA – Federação
Intermunicipal das Entidades Comunitárias do Interior de Alagoas. Diz ele que “Pedro
Lúcio, ao perceber naquele jovem a busca sincera por direitos sociais,
acolheu-me com dignidade e respeito. Esse gesto elevou minha autoestima: de um simples
matuto do interior, passei a enxergar-me como alguém capaz de contribuir para
transformar a realidade e ajudar outras pessoas”.
O pleito daquele jovem de 17 anos foi atendido: a Prefeitura
construiu uma estrutura em praça pública e todos passaram a desfrutar da
programação da TV Pública. E Júlio César continua: “Aquilo me deixou, de
certo modo, empoderado. E Pedro Lúcio, como exímio garimpador de ‘talentos
militantes’ levou-me para trabalhar no STR e na FIECIA. Lá aprendi muito e
ficava impressionado com sua capacidade de redigir, apenas ditando. Além de
nossa família, outras pessoas têm influência definidora nas nossas vidas e, na minha,
Pedro Lúcio foi um desses agentes atuadores.”
De Álvaro Antônio Melo Machado, temos o seguinte depoimento:
“Pão de Açúcar perdeu um dos personagens mais
identificados com sua história. Perdeu, fisicamente, Pedro Lúcio Rocha. E
apenas assim, pois na História de Pão de Açúcar, daqui para frente, Pedro Lúcio
será sempre lembrado pelo muito que fez pela nossa terra.
De origem humilde, nascido na caatinga do sertão, Pedro Lúcio
lutou contra todas as formas de preconceitos e discriminação e, por seu único e
exclusivo mérito, venceu e foi longe, bem além do que muitos letrados não
conseguiram chegar.
A Pedro Lúcio, Pão de Açúcar deve o exemplo aguerrido do
líder sindical, que estruturou e deu força ao Sindicato dos Trabalhadores
Rurais na difícil época da ditadura; o exemplo do líder nato que ficou à frente
dos projetos que uniam o social e o cultural. Foi assim na criação do jornal A
Pátria, na organização de festivais e músicas e de poesias, nos esportes, na
radiofonia.
Tornou realidade dois dos maiores símbolos de Pão de Açúcar:
a bandeira do município e o nosso hino oficial.
Participou, de forma singular, de momentos políticos
marcantes na história de Pão de Açúcar.
Vai-se, além do grande líder sindical, um amigo muito
querido, com quem muito aprendi e muito compartilhei lutas e iniciativas em
prol de Pão de Açúcar, de Alagoas e do Brasil.
Deus me proporcionou a alegria de, no último mês de dezembro,
participar da bela homenagem que a ALEPA – Academia de Letras de Pão de Açúcar,
prestou a Pedro Lúcio. E o meu presidente Helio Fialho honrou-me sobremaneira,
me escolhendo para fazer a saudação ao homenageado, em nome da nossa
Academia. Foi nosso último momento
juntos, em meio a tantos e tantos que marcaram nossa vida e nossa trajetória.
Que Deus o receba em Sua Glória!”
E, por fim, as palavras de Massilon Ferreira da Silva:
“O VIAJANTE DAS ESTRELAS OU O AJUDANTE DE DEUS
Ele tinha uma irmã [começo por aqui]; uma freira que
anualmente o visitava e aos pais de ambos, num distante povoado dos confins de
Alagoas. Daí talvez terá nascido seu apego aos padres, à igreja e às coisas
divinas. Um católico fervoroso que, antes da conversão, desfilou pela Avenida
Presidente Vargas, no Rio de Janeiro, em homenagem a Che Guevara, comunista e
ateu de carteirinha. Era recruta do Exército Brasileiro e não tinha escolha.
Um dia aportou por aqui, não se sabe como, e foi então que
aquele irmão de freira ‘fez o diabo’. Ajudou na missa, acompanhou procissão,
fundou sindicato, jornal, rádio, time de futebol, escreveu letra de hino, foi
político e amigo acima de tudo.
Hoje, ‘como veio partiu não se sabe pra onde’, para citar
Chico Buarque. Para citar, de outra banda, os ufólogos modernos, viajou com
destino a um Exoplaneta, situado num sistema qualquer de uma galáxia distante,
cujos habitantes estão precisando de uma ‘mãozinha’, a mão amiga de Pedro Lúcio
Rocha, o irmão da freira que o espera na próxima estrela para encorajá-lo a
começar tudo de novo."
*** *** ***
Pedro vinha, há algum tempo, muito doente. Nos últimos dias, achava-se
internado no hospital de Pão de Açúcar.
“Na véspera de sua morte - relata Lindalvo – eu e
Gilvan o visitamos. Tinha acabado de tomar morfina e estava descansando. Acordou
depois, sentou-se, mas não falou nada, apenas olhou para nós e voltou a dormir.”
Dormiu para a eternidade. E, por tudo o que fez em sua vida
de 88 anos, tornando realidade as suas aspirações e os anseios de muitos, bem
merece a frase cunhada por Érico Abreu: PEDRO LÚCIO ROCHA foi um CONSTRUTOR DE
SONHOS.
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Nossos sentimentos sua esposa Lizete Alves Rocha e seus filhos Eliane, Giovanni, Clayton e Edjane.
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NOTA
Caro
leitor,
Deste
Blog, que tem como tema “HISTÓRIA E LITERATURA”, constam artigos repletos de
informações históricas relevantes. Essas postagens são o resultado de muita
pesquisa, em geral com farta documentação e dotadas da competente referência
bibliográfica. Por esta razão, solicitamos que, caso sejam do seu interesse
para utilização em qualquer trabalho, que delas faça uso tirando o maior
proveito possível, mas fazendo também o necessário registro de autoria e a
citação das referências. Isso é correto e justo.
[i] Portaria
assinada pelo Ministro da Reforma Agrária, Dante de Oliveira, publicada no Diário
Oficial da União de 29 de abril de 1987.




Além de tudo isso, Pedro Lúcio tinha a rara habilidade transitar por espaços políticos diversos, às vezes antagônicos, sem incomodar. E ao contrário de muitos, sempre recorreu a articulação como ferramenta de luta, nunca ao ódio.
ResponderExcluirConheci o lendário Pedro Lúcio nos anos de chumbo . Figurava entre ideologias contrárias ,sem dificuldades . Nos cedeu a sede do sindicato dos trabalhadores rurais de Pão de Açúcar por mais de uma vez, onde fazíamos debates acalorados contra o regime vigente ,mesmo contrariando muitos de seus aliados . . Bela homenagem de Ethevaldo . .Paz e luz para você , Pedro Lucio
ResponderExcluirUma justa, merecida e oportuna homenagem a esse personagem político social e humanista. Aprendi muito com seus conselhos e excelentes prosas
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