terça-feira, novembro 8

EM JARAMATAIA DE GARARU

Por Nertan Macedo[i]


O Coronel Antônio Caixeiro[ii] e sua mulher, Dona Balbina[iii], moravam na Fazenda Borda da Mata[iv], na margem sergipana do São Francisco, município de Canhoba. O rio passava defronte da casa grande, um casarão acachapado e longo, com uma porta de entrada entre oito janelas.

Antônio Caixeiro


O velho Antônio Caixeiro era alagoano, do outro lado do São Francisco. O sobrenome era apelido, que o tempo firmara entre as gentes daquelas ribeiras. Na sua mocidade, começara a vida trabalhando na loja do Major Bilé[v], que tinha casa de comércio na sua cidade natal, São Brás. Ganhava cinquenta cruzeiros por mês. Vendera fiado a um amigo, mercadorias no valor do ordenado. De modo que, ao deixar o major Bilé, nada recebeu do patrão, no ajuste de contas. Sua mulher, Dona Balbina, era sergipana, nascida na Capela. Se ao marido chamavam Antônio Caixeiro, a ela conheciam por Dona Branca, e não pelo nome de batismo.

Uma noite, quando o Coronel e Dona Branca dormiam, na Borda da Mata, ouviram umas pancadas na terceira janela da casa, do lado esquerdo da fachada. Acordaram sem sobressalto, porque eram sertanejos velhos e estavam habituados às solicitações de pousada, a qualquer hora.

Era uma noite escura. Fora, na esplanada, não se ouvia rumores. Os umbuzeiros, as canafístulas, os juazeiros nem de leve se agitavam, estáticos. Só o rio murmurava e corria, como uma esteira brilhante a trespassar o negrume do tempo.

Dona Branca


Dona Branca pôs o chale nos ombros, acendeu a lamparina da cabeceira da cama e dirigiu-se à sala. Botou a luz em cima de uma mesa e foi até a janela donde vinham as batidas. Tirou a tranca, espiou a noite morta, lá fora.

- Quem é – perguntou, voz sumida.

O visitante desconhecido encostara-se à parede, num movimento instintivo de defesa, aparecendo de subido aos olhos da fazendeira.

- Sou eu, Dona Branca, Virgulino Lampião, que venho fugindo, perseguido da tropa alagoana, pedir a Vossa Mercê e ao Coronel seu esposo um lugar de esconderijo, até a passagem da volante...

- Entre, meu filho, respondeu Dona Branca. E, virando-se para o marido, que assomava à sala, explicou:

- Antônio, é o Capitão Virgulino, que chega perseguido pelos soldados de Alagoas e pede pousada. Já mandei ele entrar...

O Coronel assentiu com a cabeça e ele mesmo foi abrir a porta da casa.

Das travas do lado de fora, o bando precipitou-se na sala, atrás do seu Capitão. Eram poucos homens, menos de vinte, cheirando a suor e perfume barato.

-  Boa noite, Coronel! Saudou Lampião.

- Boa noite, Virgulino! – respondeu o velho Caixeiro, sem surpresa.

O velho acostumara-se àquelas chegadas e partidas repentinas de Virgulino Ferreira, quando corrido do lado alagoano, pelos soldados do Major Lucena e de outros comandantes de volantes. Da primeira vez que ali viera, Lampião pedira ao Coronel apenas isto, propondo-lhe “um trato”:

- Eu só queria do senhor, Coronel, que me desse licença para acampar nas suas terras, de um lado e de outro do rio, quando a polícia estivesse nos meus calcanhares...

Pois vá se arranchando, Capitão, quando quiser e entender. É só atravessar o rio de um lado para o outro. Tem muita loca de pedra por esses matos e, se estiver com fome, pode matar uma criação para comer. Venha com cuidado, prá não deixar rastro à polícia. Pode dormir onde quiser, contanto que não falte com o devido respeito aos meus moradores e propriedades.

- Fique descuidado, coronel, que ninguém incomodará o senhor nem sua gente.

Cumpriu a palavra.

Dona Branca, na sala, perguntava ao capitão:

- Quanto tempo o senhor espera demorar aqui, seu Virgulino?

- O tempo de os “macacos” se largarem por aí...

- Pois vá para o quarto do meio do corredor, que ninguém lhe bota a mão em cima. Fiquem todos quietos, que eu mando levar a comida e fechar a porta.

Lampião e os cangaceiros recolheram-se ao quarto. Um cômodo abafado, com duas ou três redes armadas, uma janela que dava para o escampado lateral, à direita da casa.

O Capitão inspecionou, num relance, o local de homizio. Seus homens, sem tirar os arreios do cangaço, foram se aboletando pelos cantos, rifles entre as pernas cruzadas. Passavam os lenços e as costas das mãos nas faces suadas, nas testas luzidias, nos pescoços sujos. Dona Branca segurava a lamparina, seguida do Coronel. Apontou uma rede para Lampião:

- Deite aqui, seu Virgulino, para espantar o cansaço. Já vem um cafezinho torrado em casa e umas bolachas de sal. Mais tardo mando um almoço alentado.

- Não precisa de incomodar, Dona Branca, o que vier está bom.

O Capitão sentou-se na rede segurando o fuzil. Tirou o comprido punhal que trazia preso ao cinto da calça, colocando-o sobre o chão de tijolo, ao alcance da mão. Permaneceu-lhe o “Parabellum”, na cintura, as cartucheiras emoldurando-lhe o troco, o fuzil nas mãos.

Assim permaneceram horas dentro daquele quarto. Não se ouvia o zumbido de uma varejeira em toda a casa.

Lá fora, a manhã nascia sobre o rio e a caatinga. Vez por outra, um passarinho descia cantante, sobe o telhado da casa. Adivinhava-se o ruflar das suas asas em demanda do mato, voando na direção de alguma cerca, pousando em qualquer arbusto do garranchal. Os galos começaram a cantar, as galinhas cocoricavam, batendo as penas, pintos piavam na cada de minhocas. Alguns homens conseguiram adormecer. Na cozinha dos fundos, chios de panelas no fogão, anunciando o assado de carne.

O Coronel Caixeiro, na esplanada, assistia ao nascimento do dia. Vacas mugiam em frente, dispersas, tiniam chocalhos, o sol começava a fulgurar com violência, como se a vida em Borda da Mata prosseguisse normalmente, como em todos os dias do ano.

Na semiobscuridade do quarto, o corpo agora recostado à rede, pernas cruzadas, fuzil atravessado sobre o ventre, repousava das caminhadas o Capitão Virgulino Ferreira. Em volta dele, os cangaceiros, silenciosos, vigilantes, prontos a saltar do chão a qualquer movimento suspeito.

A um canto, o oratório de Dona Branca, os santos da devoção da fazenda, imagens toscas, humildes, rosadas, bochechudas, com seus hábitos escuros, suas coroazinhas douradas, as mãozinhas estendidas para o Capitão, numa súplica silenciosa, comovente. Sobre a toalhinha branca, rendada, imerso no óleo da candeia, um paviozinho queimava, lento, lento, a chamazinha inclinada, como uma minúscula asa de fogo. No centro do pequeno altar, o crucifixo de Jesus, o corpo aberto em chagas, a face sofredora, a coroa de espinhos, encimada pela inscrição – INRI.

Assim foi.

O sol da manhã já invadira a terra totalmente, requeimando-a, lá pelas dez horas do dia, quando o Capitão levantou-se, abriu cautelosamente a porta, e chamou:

- Dona Branca, vou embora!

- É cedo, seu Virgulino. Descanse mais um pouco, aconselhou a dona da casa.

- Não senhora, Dona Branca, preciso ir. Tenho negócios a tratar e este povo (apontou para os cangaceiros) precisa largar esta moleza, antes que o costume pegue...

E foram saindo pelos fundos da casa, chapéus nas mãos, rifles também , alimentados de sono e comida. À passagem do bando, o ar  era novamente invadido pelo cheiro de loções baratas, de mistura com suor.

Na porta dos fundos, Lampião falou ao Coronel:

- Adeus, Coronel! Se precisar de mim, sabe onde me achar. Até qualquer dia, Dona Branca!

Um após outro, os homens foram entrando na caatinga, desaparecendo em segundos, como por encanto. O Coronel e a mulher ainda permaneceram alguns momentos olhando na direção que o bando havia tomado.

Quando todos sumiram, dona Branca voltou ao quarto. Os cangaceiros haviam deixado tudo como encontraram. A velha aproximou-se do oratório para inspecionar as imagens. Ficou surpresa. Entre os dedos dos santos, das mãozinhas estendidas e súplices, dependuravam-se notas de vinte mil réis, deixadas ali pelo Capitão Virgulino e seus homens, como prova de devoção e respeito aos que habitam no Reino dos Céus.

Dona Branca estranhou que São Benedito fosse o menos contemplado. Na mão do negro bem-aventurado, um cangaceiro pusera uma velha e estragada cédula de cinco mil réis. A fazendeira sorriu. Quando o Capitão Virgulino reaparecesse, ela perguntaria por que São Benedito merecera tão pouco.

Meses depois, o Capitão passou novamente em Borda da Mata. Dona Branca indagou a Lampião a razão daquela parcimônia com São Benedito.  O Capitão justificou-se perguntando:

- Quem foi que já viu santo preto, dona Branca?

Dr. Eronides Ferreira de Carvalho


Tanta certeza tinha o doutor capitão Eronides de Carvalho[vi] que, mais cedo ou mais tarde, haveria de encontrar Virgulino Lampião que tratou de se preparar para não ser tomado de surpresa.

Oficial médico do Exército, mais tarde governador eleito de Sergipe, convalescia o doutor na fazenda Jaramataia, em terras de Gararu, quando o Capitão apresentou-lhe, no raiar do dia, a exemplo do que costumava fazer em casa do coronel Antônio Caixeiro. Era o doutor Eronides, filho do velho casal de fazendeiros de Borda da Mata.

Corria agosto, madrugada fresca, nos campos de Jaramataia. As últimas sombras da noite abandonavam o espaço, quando o médico foi despertado por um portador.

- Doutor Eronides, o capitão Virgulino Lampião mandava avisar que vem fazer uma visita ao senhor.

- Pois diga a ele que venha. Estou às ordens.

Quinze minutos depois o Capitão apareceu em pessoa. Chegou montado, um cavalo magro, de bons arreios, o bando a pé atrás dele. O doutor aguardava-o no alpendre.

Lampião demonstrou a distância e veio caminhando, sozinho, enquanto o grupo se detinha, cerca de uma vintena de cangaceiros.

Estendeu a mão para o médico, dizendo:

- Bom dia, doutor. Eu sou o Capitão Virgulino Ferreira da Silva Lampião. Venho fazer uma visita de boa paz ao senhor.

O doutor sorriu ao cumprimento, indagando:

- Então como devo chamá-lo: capitão ou coronel? Porque eu também sou capitão e deve haver aqui uma hierarquia - como oficial do Exército nosso ser comandado pelo senhor...

Lampião compreendeu a malícia e replicou:

- Pois desde já o senhor está promovido a coronel.

- Assim está bem, Capitão. Mande o pessoal tomar chegada para um cafezinho e soltar o cavalo no pasto.

A um gesto do chefe os homens foram se aproximando da casa grande de Jaramataia. Um deles era Ezequiel, irmão de Virgulino. Outro, seu cunhado Virgínio, homem de boas maneiras, cortês, o nariz afilado, moreno, bonito

Corisco, o de cabelos alourados, traços duros, modos insolentes.

No alpendre sentaram-se pelo chão, respeitosos, à espera da comida. Um permaneceu no pátio, rifle embalado, de sentinela.

O hospedeiro falou:

- Capitão, mande recolher aquele homem, que ninguém virá aqui nos incomodar.

Virgulino atendeu, o homem sumiu do pátio, vindo juntar-se aos companheiros que conversavam baixo para não incomodar o doutor e o capitão.

Na cabeceira da mesa, posta para o café matinal, disse o doutor Eronides:

- Eu tinha tanta certeza de que, um dia, o senhor ia me aparecer, que até me lembrei de comprar um presente para a ocasião.

Virgulino mostrou-se surpreso. Parece mesmo não acreditar.

O doutor chamou a empregada da casa, que tremia como vara verde. Ordenando-lhe:

- Vá buscar os presentes do capitão Virgulino.

Dentro em pouco a moça retornava, trazendo um embrulho. O doutor desatou-o. Continha uma garrafa térmica e um queijo holandês.

E continuou:

- Lembrei-me de comprar essa garrafa em que o senhor pode conduzir café quente, para beber a qualquer hora do dia e da noite. E este queijo estrangeiro, muito caro e bom, que trouxe de Aracaju...

O visitante sorriu, enfim, satisfeito, constatando a verdade do que lhe dissera o médico. Agradeceu, solícito.

A essa altura um dos cangaceiros gemia, a um canto do alpendre.[vii]

- Que tem esse homem? perguntou o anfitrião.

- Dor de dente - informou Lampião, lacônico. - Há dias que não pode dormir.

Voltou-se o médico, novamente, para a empregada da casa:

- Vá buscar uma aspirina e um copo d’água e dê a esse homem.

A moça voltou ao interior da casa e, reaparecendo no alpendre, com um comprimido e um copo d’água, passou-os ao cangaceiro doente.

O médico pode então sentir a disciplina e a autoridade de Virgulino. Um lado do rosto inchado, o cabra ficou segurando o remédio e a água, sem coragem para ingeri-los. Seus olhos, desconfiados, inquiridores, procuravam ansiosos, os do Capitão. Quando com os dele se cruzaram, um leve aceno de cabeça fez sentir ao cangaceiro que podia tomar a "receita", o que logo foi feito.

Depois da comida o Capitão, a pedido do dono da casa, consentiu em deixar-se fotografar, só e acompanhado. Prometeu o doutor enviar-lhe as fotografias de presente, quando ficassem prontas.

- Coronel, fique certo que eu mando cobrar estas poses ao senhor - disse-lhe Lampião.

E solicitou em "particular" ao médico. Este já esperava pelo pedido e se preparava convenientemente. Indicou o seu quarto de dormir, fechando-se, ambos, nesse cômodo. Por medida de precaução, o doutor pusera a sua parabellum embaixo do colchão, nos pés da cama, para qualquer eventualidade. Sentaram-se lado a lado, no leito, com a mão direita apoiada no colchão, em cima do revólver.

- Foi aí que eu notei a transformação- contou, mais tarde, o doutor. - As refeições do visitante cordial mudaram por completo. De um momento para o outro, aquela natureza estranha se transformou. Era, agora, outro homem, arrogante, grosseiro, autoritário, mais dono do que hóspede.

Falando quase num sussurro, como era de hábito. Lampião indagou:

- O senhor tem arma de fogo?

- Tenho e da boa, respondeu Eronides silabando a resposta.

- É igual a esta? - insistiu, puxando a Parabellum.

A arma, todavia, não saiu do coldre. O Capitão fez uma segunda tentativa, mas inutilmente.

- Está enferrujada, ponderou o médico.

- Mas temos força - revidou Virgulino e, num gesto brusco e violento, arrancou a Parabellum do estojo de couro que a detinha.

Calmamente, o doutor pôs a mão sobre a do Capitão, que sustinha a arma, comprimindo o botão que liberou o pente de balas que saltou ao colo de Virgulino. Eronides apanhou-o, guardando-o no próprio bolso, enquanto a mão, de novo, procurava com naturalidade disfarçada os pés da cama, onde ocultava a sua pistola.

Desarmara o cangaceiro, este então lhe pediu:

- Doutor, se as nossas armas são iguais, o senhor deve ter munição em casa. Estou desmuniciado e preciso de bala. O senhor vai me dar um pouco da sua;

- De fato, replicou Eronides, tenho uma caixa de munição em casa e posso cedê-la ao senhor.

Levantou-se. Foi a um armário próximo e retirou de lá uma caixa. Abriu-a sobre a cama e retirou um punhado de balas, que passou a Virgulino. Tirou um segundo punhado e quando apanhou o terceiro, quase esvaziando o conteúdo, Lampião obstou-o:

Basta, doutor. O senhor está morando nestas brenhas e precisa tanto quanto eu. Vamos dividir igualmente a munição - e ele próprio repartiu a caixa, após o que retornou ao alpendre, para bater em retirada.

Na hora da despedida, o doutor fez-lhe presente de um par de perneiras do Exército.

- Na qualidade de Capitão, o senhor não pode andar sem perneiras, comentou Eronides.

- Não esqueça as fotografias, lembrou Virgulino. - Qualquer dia desse em mando buscá-las.

Tempos depois, estava o doutor Eronides na fazenda Cajueiro, descansando numa espreguiçadeira, quando um desconhecido dele se aproximou, transmitindo-lhe o seguinte recado:

- O Capitão Virgulino mandou buscar as poses da Jaramataia.

- Diga ao Capitão que eu não mando agora; Entrego depois, no lugar onde ele indicar.

- Pois pode mandar coronel para o Porto da Folha, entregar na venda que fica na entrada da rua. Basta chegar ao balcão e dizer – China!

Mais tarde, o doutor chamou um dos seus vaqueiros, fazendo-o portador das fotografias. Ensinou-lhe a senha indicada.

O vaqueiro foi a Porto da Folha, chegou à bodega, onde se achavam alguns fregueses, gritando:

- China!

O dono da mercearia fez-lhe um sinal, levando-o, incontinenti, a um quarto no interior da casa. Ali recebeu das mãos do portador as fotografias tiradas em Jaramataia.

Um dia, o bando de Lampião matou um vaqueiro do doutor Eroniçdes, em Nossa Senhora da Glória. Num encontro com o Capitão, lamentou o acontecido de modo amargo:

- Seus homens mataram o meu vaqueiro, Capitão. Deram-me um prejuízo de quinze contos de réis, quantia que o homem levava, da venda de um gado nas Alagoas.

Lampião ouviu. A seguir justificou-se:

- Aquele vaqueiro não prestava, coronel, nem pra mim nem pro senhor. Falava demais! Dava conta de todos os meus passos pela sua propriedade. Vivia batendo com os dentes na feira. Quanto ao dinheiro, pode ter certeza de que não me apoderei dele. Deve estar com o defunto...

E mandou alguns dos seus homens abrir a cova do vaqueiro em cujo bolso interno, do paletó, foram encontrados, intactos, os quinze contos da venda do gado.

Pediu, mais de uma vez, montarias arreadas ao doutor Eronides e as devolveu depois, sem faltar uma corda, uma cela, um estribo.

Doutra feita, o médico aconselhou Virgulino a largar a vida erradia do cangaço.

- Não posso, coronel, é tarde demais. Em todo lugar querem me destruir.

Muitas vezes o Capitão voltou a pedir munição ao doutor. Não vinha recebê-la pessoalmente. Determinava o lugar onde devia ser enterrada. À noite ia buscá-la, com a sua gente.

Aproximava-se do fim.

Vez por outra, nas suas andanças por Sergipe, acoitava-se nas locas de pedra à margem do São Francisco. Passava aí dias e dias, alquebrado, vinte anos de viver perseguido pelas tocas do sertão. Tinha quarenta anos de vida, mais da metade passada no cangaço.

Num dos seus derradeiros encontros com o doutor Eronides, que se achava doente, Lampião lhe disse:

- Vou mandar Maria Bonita tratar do senhor. Ela tem mãos de fada.

Morria, pouco depois, ao lado da amante, na Gruta dos Angicos.

Lampião e seu bando na Fazenda Jaramataia, Canhoba-SE. Da esquerda pra a direita: De pé: Mariano; Ezequiel, vulgo“Ponto Fino”; Calais; Fortaleza; Mourão;  e Volta Seca. Sentados: Lampião; Virgínio, vulgo “Moderno”; Zé Baiano; e Arvoredo. 27.11.1929.

Lampião_Fazenda Jaramataia-Gararu-SE, 27.11.1929. Foto Eronides de Carvalho



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Transcrito do Jornal do Comércio, Rio de Janeiro, 3 de dezembro de 1961.

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Caro leitor,

Este Blog, que tem como tema “HISTÓRIA E LITERATURA”, contém postagens com informações históricas resultantes de pesquisas, em geral com farta documentação e dotadas da competente referência bibliográfica. Por esta razão, solicitamos que, caso algumas delas seja do seu interesse para utilização em qualquer trabalho, que faça uso tirando o maior proveito possível, mas fazendo também o necessário registro de autoria e a citação das referências. Isso é correto e justo.



[i] NERTAN MACEDO DE ALCÂNTARA

Nertan Macedo, 1957.

Jornalista, poeta, escritor. Nasceu no Crato-CE, a 20 de maio de 1929. Filho de Júlio Teixeira de Alcântara e Corina Macedo de Alcântara e irmão de Denizard Macêdo, escritor e jornalista, redator do Diário de Pernambuco, Jornal do Commercio e O Jornal. Ocupou a cadeira número 17 do Instituto Cultural do Cariri. No dia 26 de julho de 1949, casou-se, no Rio de Janeiro, com a Srª Maria Gessen Amaral. Filhos: José Luiz, Virgínia e Paula. Faleceu no Rio de Janeiro, a 30 de agosto de 1989, aos 60 anos de idade. Compôs, em parceria com o Mons. Mourão, a música Louvação a João XXIII, interpretada por Luiz Gonzaga. Foi colunista de O Estado de São Paulo. Foi seminarista. Começaria sua vida jornalista ainda muito jovem, pelas mãos de Assis Chateaubriand, nos Diários Associados, quando foi, inclusive, redator da revista O Cruzeiro. Voltado para o jornalismo político, trabalhou, por vários anos, desde a sua fundação, na Tribuna da imprensa. Integrou a equipe de redatores do Jornal do Comércio após esse órgão ter sido adquirido por Assis Chateaubriand. Foi Secretário de Imprensa do Governo do Ceará, na gestão Virgílio Távora, Assessor de Imprensa de Mário Simonsen, da Fazenda, Redator da Confederação Nacional da Indústria. Mais recentemente fazia uma coluna no O Estado de São Paulo e escrevia artigos para  a Tribuna da Imprensa e Revista Nacional. Foi vereador pela UDN em 1950. Notabilizou-se e na poesia pela abordagem dos temas do cangaço e religiosidade, no Nordeste. Era pai do jornalista José Luiz Alcântara, Chefe de Reportagem do jornal O DIA. Fonte: Boletim da ABC http://memoria.bn.br/DocReader/517275/105

 [ii] ANTÔNIO FERREIRA DE CARVALHO. Filho de Jesuíno Ferreira de Oliveira Costa e de Annanias Perpétua dos Anjos, nasceu em São Brás-AL, no dia 24 de março de 1873. Faleceu a 5 de maio de 1948 em Canhob-SE. Foi prefeito do Município de Canhoba, cuja emancipação política, desmembrado de Aquidabã, ocorreu em 1937. Fonte: Familly Search.org.

 [iii] BALBINA ROSA DE MENDONÇA (Balbina Mendonça de Carvalho após o casamento no dia 21 de junho de 1894, em Capela, Sergipe), filha de José Luís de Mendonça e de Anna Rosa de Jesus, nasceu em  Capela-SE, no dia 25 de dezembro de 1871 e faleceu em Canhoba-SE, a 17 de outubro de 1946. Fonte: Familly Search.org.

 [iv] A fazenda Borda da Mata, por volta de 1871/1880, pertenceu ao Major Francisco Joaquim da Silva Lemos, e depois de seus filhos: Antônio de Barros Lemos, Izaac de Barros Lemos e Francisco Joaquim da Silva Lemos Junior, este casado com Ana Maria de Barros Leite.

[v] Major Bilé. Chefe político do Partido Liberal em São Brás-AL. 

[vi] ERONIDES FERREIRA DE CARVALHO. Médico, político. Interventor Federal no Estado de Sergipe. Filho de Antônio Ferreira de Carvalho e Balbina Mendonça de Carvalho. Nasceu em Canhoba-SE a 25 de abril de 1895 e faleceu no Rio de Janeiro a 19 de março de 1969, deixando a viúva Yvette de Melo Goes Carvalho e cinco filhos maiores.

 [vii] Robério Santos, do Canal Cangaço na Literatura, afirma ser o cangaceiro Volta Seca. Com efeito, o menino-cangaceiro posa para a foto com um lenço à mão.


segunda-feira, outubro 31

O BICHO DO CAJUEIRO GRANDE

 

Conto de W. Batinga de Mendonça[i]

Penedo. Fonte:Arquivo Nacional


Corria o ano de 1906. O Cajueiro Grande não era ainda esse aprazível bairro que hoje constitui a melhor zona de moradia de Penedo. Poucas eram as casas. O mato crescia exuberantemente pelas ruas.

Na hoje Praça Joaquim Távora, nas proximidades da igreja do Senhor dos Pobres, erguia-se uma casinha mal coberta de palha de ouricuri que abundava por traz do cemitério. Nela morava o velho Mané Gomes, caboclo decidido que de nada jamais de arreceiou.

Correu um rumor entre os poucos habitantes da zona de que um “bicho” andava aparecendo pelo Cajueiro Grande, fazendo arruaças com quantos notívagos lá aparecessem.

Houve, mesmo, quem o tivesse visto. O João da Rocinha, que tinha uma filha, moçoila dos seus vinte anos bem sabidos, vira-o uma vez, através de uma fresta da porta, atravessar pela frente de sua casa. Era alto, envolto em comprido roupão preto, com olhos luzidios como brasas, e longas unhas. Assim o vira o João da Rocinha.

O Mané Gomes ouvira o povo falar do “bicho” e ficara a rir, com um riso seu, malicioso. Era ele velho conhecedor da vida. Experimentado...

Os moradores entenderam de pegar o “bicho”. Dias e dias esperaram: ele não aparecia, porém. O Mané Gomes via todo esse trabalho e ficava em sua porta até alta noite, puxando seu pito de barro.

Passaram-se os dias, e o “bicho”, que não aparecia, foi sendo esquecido.

Após as noites de escuro, quando a lua majestosa reinava no céu, uma vez em que estava o velho Gomes a fumar seu cachimbo, viu um vulto ao longe surgir, devagar, devagarinho, e parar no tradicional Cajueiro que deu seu nome ao bairro. Dali, esgueirando-se pelos matos, ele chegou até a parede da igrejinha, e de lá, acocorado, soltou um assobio forte que estrilou no silêncio da noite.

Mané Gomes, que entrara em casa, arrodeou pelo mata-pasto do cemitério com uma corda na mão, e se foi aproximando, lentamente, da igreja.

Novo assobio cortou os ares. Desta vez, na porta da casa de João da Rocinha, uma luzinha apontou e depois desapareceu. Mané Gomes compreendeu. Era a filha do João. Este tinha ido para sua roça à tardinha, e só chegaria no dia seguinte, à tarde. A filha ficara em casa com a velha que estava a dormir profundamente, no momento.

O Gomes deu uma volta, ainda com a corda na mão, e se pôs no oitão da casa do João da Rocinha.

Era tempo. Assim que lá chegou, o “bicho” foi se aproximando, e quando ia a entrar na casa, sentiu uma corda a passar-lhe no pescoço. Com o susto, caiu! Um vulto surgiu, e amarrou-lhe as mãos, os pés, as pernas e, lentamente, à luz da lua, arrancou o pano preto que o “bicho” tinha no rosto. Soltou depois uma gargalhada forte, que estrugiu na noite. A porta onde ia o “bicho” a entrar, já se fechara e Mané Gomes ouviu uma voz que rezava.

Finalmente chegou o dia.

O primeiro passante notou, ao pé do Cajueiro, qualquer coisa amarrada e para lá se dirigiu. Outro chegou, mais outro. E a roda foi crescendo, aumentando. Todos conheceram o “bicho” que assustava os moradores locais.

Um deles, enfim, resolve tirar a limpo o mistério. E arranca-lhe a máscara do rosto. A ansiedade foi geral. Um silêncio envolveu a todos como se se tratasse do ato mais solene que já houvessem presenciado.

Ao cair a máscara, uma exclamação surda rompeu o silêncio. Era um comerciante. Honrado. Probo. E cuja cabeça já estava envolta na auréola branca da velhice.

Quando chegou da roça, o João da Rocinha teve uma longa conversa com o Mané Gomes e no dia seguinte arribou viagem rio abaixo para a Ilha dos Bois.

Nunca mais apareceu bicho no Cajueiro Grande...

 

Transcrito da revista O Macho, Rio de Janeiro, 17 de outubro de 1935.

Caro leitor,

 

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[i] WALDYR BATINGA DE MENDONÇA. Professor, funcionário do IAPI – Instituto de Aposentadoria e Pensões dos Industriários. Nasceu em Penedo no dia 24 de agosto de 1909. Filho de Fernando de Mendonça e Cecília Batinga de Mendonça, professora na Escola do Oiteiro e no Grupo Escolar Gabino Besouro, em Penedo-AL. Casado com Maria Lôbo Barreto, conhecida por “Moreninha”. Seus avós paternos eram: José Francisco de Mendonça (natural de Quebrangulo-AL) e Theolinda Olympia de Mendonça. Os maternos: José Vicente de Araújo Batinga e Joana Angélica Machado Batinga. Foi fundador, juntamente com João Evangelista Cajueiro, do Centro Penedense de Letras.  Obra: Jonas Batinga: O Poeta de PenedoRio de Janeiro: Edições Batinga, III, 1988.

 

terça-feira, outubro 25

O NATAL DE SEU HERMÍDIO

 

Conto de Breno Accioly[i]

 

Breno Accioly. Revista Sombra-1949
Lembro-me numa memória que me conta o meu Natal de nove anos. Era um Natal possuindo todas as
cores do mar bem como todos os desenhos das nuvens, e não lhe faltavam, apesar de toda essa riqueza estratosférica e marítima, as vozes da Nau Catarineta se arrebentando na amplidão de adeuses, sempre comoventes.

O Natal do bairro da Levada da sonolenta Maceió possuía manjedoura, além dos três Reis Magos, e a ele aderiam caixeiros, gigolôs, seminaristas, mulheres de cinco cruzeiros, viúvas, investigadores, Juízes, Cônegos, Desembargadores e doidos que ficavam escavacando as cavernas das ventas com lâminas de unhas emporcalhadas, quando não soltavam palavrões, faziam gestos obscenos com as mãos, os dedos, os punhos, as línguas. Isso acontecia em Maceió, mesmo pobre apesar das riquezas da Nau Catarineta, apesar dos berros dos instrumentos de uma banda de música lembrarem furiosas gargantas de crianças em férias.

Não havia Nau Catarineta nem banda de música no Natal de Santana do Ipanema, tampouco aqueles cestos subindo pessoas na Roda Gigante. Havia, no entanto, o Presépio de “Seu Hermídio”, um artesão que obumbrava o prestígio do Padre Bulhões porque era ele o maior homem do Natal. Padre Bulhões perdia longe para Seu Hermídio, não porque a casa de Seu Hermídio possuísse uma sala que podia ser comparada a uma nave, de tão grande. Mas pelo motivo de Seu Hermídio viver de canivete nas mãos, esburacando palmos e palmos de madeira, talhando, dando formas de imagens a toros, que eram trazidos dos montes nos lombos de jumentos, na cabeça de biscateiros encachaçados e pornográficos. A matutada gostava de Seu Hermídio, outrossim, as crianças que aprendendo a falar logo balbuciavam “Sê Hermidi” – tão vasto como um rio, tão sozinho como um caramujo, tão impenetrável qual o mistério da morte.

Todos desconheciam o motivo por que Seu Hermídio não arredava o pé de casa, jamais alimentara um namoro, outrossim, ninguém sabia ao certo onde ele havia nascido nem pessoa alguma sabia precisar em que ano chegara a Santana do Ipanema aquele homem, alto, magro, à maneira de um cachorro faminto, olhando a todos de viés como se amasse a perspectiva dos ângulos; aquele home que tinha como mundo uma casa de platibanda vermelha, coberta de telhas encardidas, bolorentas.

Quando os habitantes de Santana do Ipanema abriram os olhos, era Seu Hermídio, o mais íntimo de toda a cidade, aquele que recebia das crianças mais afeto, pois as crianças Seu Hermídio parecia viver. Todas as vezes que o procuravam, encontravam-no, ou deslocando os olhos de Santa Luzia, ou pintando as chagas de São Roque, quando não colava um braço de um boneco maneta, destorcia o pescoço de um soldado de molas, aleijado à fúria de mãos inocentes.

Mas, como era suja a casa de Seu Hermídio! Aranhas bordavam redes e lenços de prata que tão leves, não conseguiriam desfazer o equilíbrio da mais delicada e sensível das balanças.

E ainda existiam sapos enormes, alimentando-se de insetos que, por acaso, fossem visitar a cozinha, sapos-cururus, sapos-mijadores capazes de cegar alguém com aqueles esguichos qual jatos de pútridos lança-perfumes. Seu Hermídio também não temia as lacraias, silêncios repelentes, abomináveis ferrões vermelhos, longe ou perto das paredes, imóveis à maneira de crocodilos.

Das redondezas chegava gente a procurar Seu Hermídio, a trazer-lhe imagens desbotadas, crucifixos pubos, uma porção de coisas velhas, do tempo do onça, que pediam a atenção de mãos hábeis. E as mãos de Seu Hermídio davam jeito, descobriam um modo de amenizar aleijões, recompor traços e silhuetas devoradas pela gulodice do tempo.

Somente à véspera da Noite de Natal Seu Hermídio espanava as janelas, enxotava os sapos, espantava caranguejeiras de pernas cabeludas, ao tempo em que arrancava da face aquela tristeza que lhe adormecia os olhos, punha de lado aquela sua paciência, tão comum na vida dos bois. E fazia tudo isso para escancarar as portas, deixar à vista de todos o seu Presépio, onde o Menino-Deus dormia numa manjedoura do tamanho de uma banana-pão.

O presépio de Seu Hermídio era uma gama de molas invisíveis. Se se pusessem quinhentos réis no buraco de uma salva de papelão, colocada à direção do Norte, o Menino-Deus acordava e deixava ver-se-lhe o azul dos olhos sorrindo, enquanto Nossa Senhora balançava a cabeça, agradecendo liturgicamente, São José levava a mão direita até as barbas (não sei por que), enquanto os cavalos dos três Reis Magos faziam menção de galopar pela estrabaria adentro. O Presépio de Seu Hermício estava cheio de molas invisíveis, repito. E sentado ao lado do Presépio, à direção do Sul, Seu Hermídio vigiava os matutos que se acotovelavam, praguejavam ao disputar um lugar bem próximo do sorvedouro da salva de papelão.

Toda aquela engrenagem parecia suportar o peso de todas as esmolas do mundo. E que engrenagem inteligente! Se a esmola fosse de mil réis, o Menino-Deus ficava mais tempo acordado enquanto a Estrela D’Alva se inundava de uma luz perene. Tudo no Presépio era calculado, pois ninguém podia escurecer os dedos tocando naquele Rei Mago de cor preta. Dir-se-ia que o Presépio se assemelhava a um mundo, cujas fronteiras fossem de arame farpado. Um parapeito impedia de ver-se mais de perto as ovelhas enfiarem a boca nos feixes de palhas; somente ao alcance da gente ficava a salva de papelão, engolindo, engolindo moedas, sem cerimônia como um insaciável estômago uivante.

Não posso esquecer-me da pergunta que fizera à minha avó:

- Terá por aqui um Presépio como o de Seu Hermírio?

A resposta me magoou. E por isso mesmo eu detestei o rolar amoroso da Roda Gigante do Natal de Maceió, achei sem sabor o caldo de cana, recusei, obstinado, o convite que recebera de atirar fechas num alvo de fácil alcance, porque meu pensamento me levava para perto do Presépio de Seu Hermídio, para perto de uma véspera de Natal em Santana do Ipanema, precisamente há um ano atrás, onde eu não me cansava de admirar a sabedoria de um homem semi-analfabeto enriquecer ainda mais a riqueza dos sonhos mirabolantes de meus nove anos, com aquela Nossa Senhora balançando a cabeça, agradecendo as esmolas, liturgicamente, e o Menino-Deus sempre acordando para melhor ver a ingenuidade dos sertanejos.

 

Transcrito da revista A CIGARRA, Rio de Janeiro, dezembro de 1954.

 

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[i] BRENO ROCHA ACCIOLY. (Santana do Ipanema - AL  22/03/1921 - Rio de Janeiro - RJ  13/03/1966). Escritor, jornalista, médico.  Filho de Manuel Xavier Accioly e de Maria de Lourdes Rocha Accioly.   Aos nove anos foi morar em Maceió onde terminou os preparatórios no Colégio Diocesano. No Recife, em 1938, fez o curso pré-médico no Ginásio Pernambucano.  Matriculou-se na Escola de Medicina do Recife (PE), mas sua inclinação era para a literatura. Participou do Congresso de Poesias, realizado 1941. Colaborou no  jornal da arquidiocese alagoana, O Semeador, a partir de 1937.  Em dezembro de 1942 mudou-se para o Rio de Janeiro, onde concluiu o curso na Faculdade de Ciências Médicas (1946), especializando-se em hanseníase. Foi   médico da Prefeitura da então capital federal.  Colaborou nos Diários Associadosna Revista do Brasil e em Autores e Livrosquando de sua vida acadêmica no Recife, com destaque para  O Jornal de Alagoas da década de 1950, em seu suplemento dirigido pelo jornalista  Arnoldo Jambo. Participou do grupo da Revista Branca. Escreveu crônicas para rádios e jornais. Permaneceu, algum tempo, internado em uma clínica psiquiátrica. Patrono da cadeira nº 19 da ACALA.  Patrono da cadeira nº 05 da ASCLA. Obras: João Urso, Rio de Janeiro: Edições EPASA, 1944, com o qual recebeu o prêmio Coelho Neto, da ABL, bem como o prêmio de contos  Afonso Arinos, da ABL e o prêmio Graça Aranha da Fundação Graça Aranha, prefácio de José Lins do Rego; Cogumelos,  Rio de Janeiro: Edição A Noite, 1949, prefácio de Gilberto Freyre (contos).;  Contos,  Rio de Janeiro: Ed. O  Cruzeiro, 1953;  Maria Pudim,  Rio de Janeiro:Livraria José Olympio Editora, 1955, capa de Poty (contos); Dunas,  Rio de Janeiro:Ed. O Cruzeiro, 1955 (romance); Os Cata-Ventos,  Rio de Janeiro: Livraria José Olympio Editora, 1962 (contos). A Eucaristia e a Verdade, in Primeira Semana Eucharística Parochial, de 24 a 31 de Outubro de 1937, na Igreja Matriz de Jaraguá, Maceió: 1937, p. 198-205. Deixou inédito: Siracusa, Pedras e Izabela, três romances. Foram publicados: Os Melhores Contos de Breno Accioly, seleção de Ricardo Ramos, São Paulo: Global Editora, 1984 e Onze Contos Inéditos, Maceió: Edicultec, 1989, organização de Rommel Acioly, ilustrações de Darel e Bruno Giorgi;  Breno AcciolyObras Reunidas, São Paulo: Escrituras, 1999. João Urso Urso Contos Incríveis de Breno Accioly, Maceió: Imprensa Oficial Graciliano Ramos, 2015. Breno Accioly Onze Contos Inéditos, Maceió: Edicultec, 1989, organização de Rommel Acioly, ilustrações de Darel e Bruno Giorgi. Fonte: ABC DAS ALAGOAS.

A POESIA DE PÃO DE AÇÚCAR



PÃO DE AÇÚCAR


Marcus Vinícius*


Meu mundo bom

De mandacarus

E Xique-xiques;

Minha distante carícia

Onde o São Francisco

Provoca sempre

Uma mensagem de saudade.


Jaciobá,

De Manoel Rego, a exponência;

De Bráulio Cavalcante, o mártir;

De Nezinho (o Cego), a música.


Jaciobá,

Da poesia romântica

De Vinícius Ligianus;

Da parnasiana de Bem Gum.


Jaciobá,

Das regências dos maestros

Abílio e Nozinho.


Pão de Açúcar,

Vejo o exagero do violão

De Adail Simas;

Vejo acordes tão belos

De Paulo Alves e Zequinha.

O cavaquinho harmonioso

De João de Santa,

Que beleza!

O pandeiro inquieto

De Zé Negão

Naquele rítmo de extasiar;

Saudade infinita

De Agobar Feitosa

(não é bom lembrar...)


Pão de Açúcar

Dos emigrantes

Roberto Alvim,

Eraldo Lacet,

Zé Amaral...

Verdadeiros jaciobenses.

E mais:

As peixadas de Evenus Luz,

Aquele que tem a “estrela”

Sem conhecê-la.


Pão de Açúcar

Dos que saíram:

Zaluar Santana,

Américo Castro,

Darras Nóia,

Manoel Passinha.


Pão de Açúcar

Dos que ficaram:

Luizinho Machado

(a educação personificada)

E João Lisboa

(do Cristo Redentor)

A grandiosa jóia.


Pão de Açúcar,

Meu mundo distante

De Cáctus

E águas santas.

______________

Marcus Vinícius Maciel Mendonça(Ícaro)

(*) Pão de Açúcar(AL), 14.02.1937

(+) Maceió (AL), 07.05.1976

Publicado no livro: Pão de Açúcar, cem anos de poesia.


*****


PÃO DE AÇÚCAR


Dorme, cidade branca, silenciosa e triste.

Dum balcão de janela eu velo o seu dormir.

Nas tuas ermas ruas somente o pó existe,

O pó que o vendaval deixou no chão cair.


Dorme, cidade branca, do céu a lua assiste

O teu profundo sono num divino sorrir.

Só de silêncio e sonhos o teu viver consiste,

Sob um manto de estrelas trêmulas a luzir.


Assim, amortecida, tú guardas teus mistérios.

Teus jardins se parecem com vastos cemitérios

Por onde as brisas passam em brando sussurrar.


Aqui e ali tu tens um alto campanário,

Que dá maior relevo ao pálido cenário

Do teu calmo dormir em noite de luar.

____

Ben Gum, pseudônimo de José Mendes

Guimarães - Zequinha Guimarães.






PUBLICAÇÕES

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Pão de Açúcar, Cem Anos de Poesia